Capital Humano · educação

O lado sujo da (des)educação que os pais desejam para seus filhos

Trecho:

Sou do tempo – e creio que a maioria que me lê também é – em que notas baixas no boletim eram motivo para um castigo. As penas eram duríssimas: de uma semana sem ir brincar na rua a uma mês inteiro sem matinê, elas variavam de acordo com a nota e os danos que a mesma poderia causar no aproveitamento escolar anual. Sem contar a vergonha a que éramos submetidos nos churrascos e reuniões familiares, quando todos nos olhavam com reprovação. Um tio meu, aliás, tinha uma técnica infalível. Sempre que algum moleque – os meninos eram piores – aparecia com notas baixas, ele vinha com um discurso semelhante: “Fulano, não se preocupe. Nós te amamos assim mesmo. Entendemos que você é limitado e jamais vamos lhe deixar desamparado. O tio está guardando um dinheirinho para lhe comprar um taxi. Esteja certo de que comida não vai lhe faltar” , etc e tal. Era tiro e queda.

São práticas educacionais familiares de um tempo que já morreu. Hoje, quando a criança apresenta notas insatisfatórias, os pais vão à escola para xingar os professores. As reuniões não ocorrem mais para discutir o comportamento da meninada em sala de aula – e para orientar os pais sobre o que eles devem cobrar de seus filhos. São, isto sim, verdadeiras sessões de linchamento dos professores. Nenhuma ou pouca responsabilidade se exige dos estudantes.

Não é difícil perceber como se chegou a isso. Nos últimos 30 anos, a introdução de novos conceitos pedagógicos acabou por questionar valores antes tidos como certos: a nota como parâmetro de produção, a exigência de um bom rendimento, a valorização da competitividade e o respeito a autoridade do professor caíram por terra. Em substituição, vieram a subjetividade do conceito, o respeito à diferença de ritmo de cada aluno e a exagerada valorização de “saberes” outros, não adquiridos nos livros – aquela história de que saber tocar pandeiro é tão importante quanto saber somar. E se hoje os professores são responsabilizados por tudo é porque houve um momento em que eles se mostraram absolutamente coniventes com estas inovações pedagógicas.

Leia tudo. Esta praga é tal qual o plágio e a saúva: abundam no Brasil.

Um comentário em “O lado sujo da (des)educação que os pais desejam para seus filhos

  1. Sou professor universitário e concordo plenamente com suas observações. Já cheguei a ver alunos processarem a universidade porque foram reprovados em alguma disciplina, julgavam que sua aprovação seria um direito “líquido e certo”, como se ela não dependesse de qualquer esforço ou meta a ser atingida. Se o aluno não atinge o esperado, por mais desleixado que seja, a culpa é, obviamente, do professor. Ainda não encontrei juiz insano o bastante para deferir um pedido destes, mas isto se deve somente ao fato de que boa parte dos atuais juízes são do tempo em que nota baixa era motivo para vergonha e não para reclamação ou processo, mas do jeito que a coisa anda, é só esperar a geração da irresponsabilidade chegar lá.

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