Academia · material

Não tem chororô….

Já ouvi diversas vezes colegas reclamarem que não entendem a explicação do professor com desculpa pela falta de estudos.

Agora (já tem algum tempo) os professores podem passar para os alunos o link do MIT. Isto mesmo, o MIT coloca muito material de diversos cursos online. O link para os cursos de economia é esse.

Vale pena dar uma olhada.

Ah, o inverso também é válido: vale a pena dar um conferida e para cobrar dos professores também.

Academia · blogosfera

Parabéns, Tambosi

Reproduzo na íntegra.

Professores e alunos

 

O filósofo Roberto Romano homenageia hoje em seu blog alguns ex-alunos, entre os quais este escrevinhador e Paulo Araújo (que, aliás, não conheço pessoalmente). Paulo desmontou a fraude criada pelos chavistas no dia do referendo venezuelano – na qual caíram, vergonhosamente, todos os jornalistas (ver posts abaixo).
Professores têm poucas satisfações na vida. Quase sempre enfrentam as ciumeiras dos colegas, a concorrência por nada (visto que ser conhecido ou “respeitado” na assim dita “comunidade” (rá-rá-rá) acadêmica é igual ao pregado no Eclesiastes, “poeira, nada” (uso a tradução de Haroldo de Campos). A única alegria encontra-se em alunos. Mas não em todos. Existem os estudantes que já nos primeiros anos da graduação escolhem a quadrilha acadêmica a que pertencerão. E também escolhem os seus “amigos” e “inimigos” (praticam Carl Schmitt sem saber, na espera de praticá-lo com plenos conhecimentos, mais tarde) entre os colegas e docentes. Depois vêm os alunos sem rumo e voz, os que “nem estão aí” para os saberes expostos em sala de aula. Depois vêm os desprovidos de capacidade intelectiva, mas esforçados, que merecem suas notas porque atravessam noites com os olhos grudados nos livros. Estes me comovem. Não raro, resultam em bons profissionais, honestos e competentes. Existem os inteligentes preguiçosos, que levam os cursos com os pés nas costas, mas que serão, sempre, apenas espertos. Existem os de inteligência aguda mas de coração pequeno. Existem os sectários, existem milhares de tipos entre os estudantes. Existem (são os que mais me irritam) os que tuteiam o professor, para intimidá-lo forçando uma intimidade impossível, na verdade para conseguir dominar a vontade do mestre. Existem os frios, que nada dizem, nada acenam, até que apresentam um trabalho excelente, mas sem alma. Existem, existem… os que se irritam com a mínimas correções na escrita ou na fala, como se fosse crime o professor exercitar a função para a qual é pago: notar os defeitos e realçar as qualidades dos alunos. Angariei muitos inimigos ferozes entre alunos furiosos porque diminui alguns pontos em suas notas, por causa de alguns defeitos graves de gramática, sintaxe, semântica. Dar uma nota, como viver, é muito perigoso.

Dentre todos os alunos, ou ex-alunos, alguns se distinguem pela imensa polidez, capacidade intelectual, finura no trato, firme convicção nas idéias. Estimo, sobretudo, os que sustentam idéias diferentes das minhas, porque odeio mimetismos.

Orlando Tambosi e Paulo Araújo constituem motivo de orgulho para mim. Inteligentes, bem educados, eruditos, autônomos, eles me ajudam a enxergar coisas no mundo jornalístico e político, coisas das quais não suspeito, apesar de queimar as pestanas para entender este mundo, vasto mundo sem solução.

Segue mensagem recebida por mim, enviada por Paulo Araújo. Apesar do tom pessoal, creio que ela pode ajudar muita gente a perder as escamas dos olhos, sobretudo em relação ao tirano da Venezuela.

Boa leitura das janelas abertas por Tambosi e Araújo. E coração prevenido, porque a Venezuela não está situada nos antípodas, mas abre suas goelas bem ao lado de nossa terra. Leia no
Contra a Raison d’Etat).

Obrigado, mestre.

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Fraga vs. Meirelles

Determinants of Monetary Policy Committee Decisions:

Fraga vs. Meirelles

Paulo Chananeco F. de Barcellos Neto

Marcelo Savino Portugal

 

Abstract

The aim of this paper is to assess the stability of the suboptimal Taylor-type monetary policy framework in the decisions made by the Brazilian central bank after the adoption of the inflation targeting system. Comparisons of the rules followed by two central bank chairmen between 1999 and 2006 demonstrate that the determinants of the decisionmaking process underwent some changes. Despite this body of evidence, all functional structures proved to be compatible with an inflation targeting system, indicating continuity in the conduct of such regime in Brazil.

bolivarianismo · brasil · IPEA · socialismo real

Já que é assim…

Como a blogosfera gosta de carteiraços nesta história do IPEA, vou apresentar o meu, com muito prazer. Com a palavra, Roberto Macedo.

Expurgo temático no Ipea

Roberto Macedo *

Continua repercutindo o desligamento de quatro economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão que passou para o novo Ministério Extraordinário de Assuntos Estratégicos. Dentre os quatro, o nome de maior destaque no noticiário foi o de Fábio Giambiagi, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ele estava cedido ao Ipea por um prazo que expirou sem que houvesse interesse do instituto em renovar a cessão.

O destaque se justifica. Entre os quatro, Giambiagi é o que mais se projetou nos últimos anos por suas pesquisas, pela publicação de artigos e livros baseados nelas e pela participação no debate econômico nacional.

As manchetes chamaram o desligamento de expurgo, dado que o grupo não é alinhado com o pensamento econômico que passou a dirigir o Ipea, e também está presente em outros ciclos governamentais. Esse pensamento se rotula como desenvolvimentista, como se o empenho pelo desenvolvimento econômico do País fosse de sua exclusividade. Aprecia também rotular outras correntes como neoliberais e que tais, sem se deter com igual vigor no mérito das idéias que elas defendem.

Desta vez, entretanto, o rótulo alcançou os rotuladores. Incomodado pelo risco de passar à história como expurgador, o novo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, se defendeu alegando razões administrativas, como o fim de períodos de cessão de servidores ou a dificuldade de acolher os já aposentados que, sem remuneração, continuam seus trabalhos de pesquisa.

Ora, tais razões administrativas não se inscrevem entre as boas. Se a cessão de um pesquisador como Giambiagi estava por cessar, caberia um forte empenho em renová-la. Quanto aos aposentados, sua presença é comum em instituições de pesquisa no Brasil e no exterior, e aqui é ainda mais defensável, pois são comuns as aposentadorias precoces. Assim, essa presença deveria ser incentivada como uma política de recursos humanos, inclusive porque as instituições se beneficiam da experiência desses pesquisadores. Não me consta que isso seja proibido e para administrar formalmente a prática seria o caso de criar um conselho ou um centro de estudos para acomodar essas pessoas.

Por falar em conselho, Pochmann também se coloca como defensor da pluralidade de idéias, dizendo que criará no Ipea um de orientação, com personalidades de ‘pensamentos distintos’, como Delfim, Conceição, Belluzzo, Bresser, Reis Velloso (João Paulo), Raphael de Almeida Magalhães e Cândido Mendes. Tirando um ou outro, é um grupo mais heterodoxo do que heterogêneo.

Em toda essa história, o grande perdedor é o Ipea, que se priva de quatro pesquisadores de renome e de suas manifestações de divergência quanto ao evangelho com que se pretende guiar a instituição. Em instituições de pesquisa elas são cruciais para o aprimoramento mútuo das idéias.

Isso vale de um modo geral, pois a desavença intelectual é criativa. A propósito, vale lembrar o pensamento de um estadista e estrategista de renome, Otto von Bismarck, que disse: ‘Não sou tão estúpido assim que não aproveite a inteligência de meus inimigos.’ Isso cabe também a desafetos acadêmicos.

E há o expurgo temático, este mais explícito, pois se fala abertamente que a missão do Ipea será agora a de pensar o longo prazo, com desprezo pelo curto. Na macroeconomia, este último é um enfoque também conhecido como análise conjuntural. Com essa disposição, a nova direção do Ipea extinguiu o Boletim de Conjuntura, onde eram publicadas as avaliações de seus técnicos que cuidam do assunto, que em seus trabalhos não mais poderão fazer recomendações de política econômica, as quais são triviais em trabalhos de pesquisa. Sobre esse desprezo pelo curto prazo, o que diria o mesmo Bismarck da idéia de vencer uma batalha superando a última trincheira do adversário à frente, sem considerar a primeira?

Na análise macroeconômica, duas visões se completam. Na primeira, o foco é no curto prazo. Nela, na análise do capital só se consideram os novos investimentos, desprezando o estoque acumulado. A atenção é voltada para as oscilações do PIB e dos quatro preços básicos da economia. Um mede de modo agregado a variação dos preços dos bens e serviços em geral, na forma de um índice de inflação. Os outros três são as taxas de juros, de câmbio e de salários.

Passando pelo médio e alcançando o longo prazo, o segundo enfoque se concentra na acumulação de capital, na tecnologia e no estoque de mão-de-obra em termos quantitativos e qualitativos. E há também interesse microeconômico pela composição setorial e regional do PIB. Esse curto prazo é visto como aquele em que essas variáveis não sofrem alterações marcantes.

Não obstante, à medida que se repetem as oscilações de curto prazo de variáveis como as taxas de câmbio e de juros, elas determinam uma estrutura econômica que se consolida a médio e longo prazos. Em particular, tomam-se rumos definidos, como os que há anos ocorrem no Brasil. Ou seja, uma taxa de juros muito elevada e, mais recentemente, uma taxa de câmbio fortemente valorizada.

Assim, não há essa clivagem entre curto e longo prazos que parece orientar esses ‘desenvolvimentistas’. Portanto, uma instituição como o Ipea não pode menosprezar, entre outros, o trabalho de especialistas em câmbio e juros, sem o que sua visão de médio e longo prazos corre o risco de se assentar em fundamentos fragilizados.

Já rotulado pelos expurgos pessoais, o Ipea evitaria mais danos à sua tradição pluralista se evitasse esse expurgo temático e prestigiasse seus pesquisadores a partir da competência analítica que demonstrassem.

* Roberto Macedo, economista (USP), com doutorado pela Universidade Harvard (EUA), pesquisador da Fipe-USP e professor associado à Faap, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Ipea (1991-92)

desigualdade econômica · história econômica

As origens da desigualdade no Brasil

Reis e Monasterio (já citei o Congresso aí, né?) dizem:

The paper provides historical perspectives on regional economic inequalities in Brazil. Based upon municipal data on the occupational distribution of the labor force in Census years 1872 and 1920, it analyzes the changes in the spatial concentration of economic activities in Brazil. The New Economic Geography provides the analytical framework to show how geography, technology and institutions combined to give industrial preeminence to the city of São Paulo and why the industrialization of São Paulo had limited and delayed effects in the rest of the country. The conclusion discusses research extensions.  

The argument in short is that prohibitive transport costs precluded Brazilian industrialization up to the last quarter of the 19th c. when railroads were introduced. The significant reduction in transport costs brought by railroads increased the market potential of the city of São Paulo thus triggering self-reinforcing forces of economies of scale and agglomeration externalities in manufacturing activities. Other consequences of transport costs reduction were the accelerated pace of human capital accumulation brought by subsidized international migration to São Paulo. Consequences for the rest of the country were diverse. Emerging manufacturing activities outside the regions of São Paulo and Rio de Janeiro were out-competed by the reduction of transport costs. Furthermore, subsidized international immigration segmented the Brazilian labor market by delaying internal migration and inhibiting the reduction of regional disparities of wages and income.

Gostou? Eu gostei.

Se tem algo que não conheço bem é a tal Nova Geografia Econômica (também não conheço bem outras coisas, mas vamos ao ponto), coisa que o Leo gosta um bocado.

Acho este trabalho uma excelente chance de se aprender a fazer trabalhos empíricos em História Econômica. Como os leitores já sabem, sou simpático à Cliometria (google it!) e Monasterio é um dos que – a cada dia que passa – mais se destaca no bom uso da econometria à história. Fábio Pesavento também é outra estrela em ascenção.

Eu, como sempre, sou preguiçoso demais para fazer o trabalho de coleta de dados que estes caras fazem…

Passando os olhos pelos três ou quatro artigos que me interessaram, vejo que, embora haja aquele revival do conceito de colônias de exploração/povoamento, esta classificação ainda é inadequada para a compreensão dos problemas do desenvolvimento brasileiro. Instituições – a palavra-chave de Douglass North – parecem aparecer em diferentes formatos segundo determinantes que a literatura ainda não é capaz de resumir (talvez nem o seja). Dois pontos importantes aqui são: (i) quais os determinantes das instituições originariamente implantadas e (ii) como as instituições se desenvolvem ao longo do tempo.

Não é difícil ver que responder estas duas perguntas é um trabalho bem complicado, mesmo que não se entre no aspecto específico do problema que você estuda seja ele a história de Pindamonhagaba, do centro-sul paraguaio ou da América Latina.