Economia Brasileira · epistemologia · falácias econômicas · Política monetária

A Epistemologia está nua

Alex publicou o artigo do dia. Nunca recebi tantas mensagens eletrônicas com o artigo como hoje. Vale a reprodução integral:

A miséria da epistemologia

O artigo de Luís Antônio de Oliveira Lima (“Ousando discordar da ortodoxia dos economistas”, Valor Econômico, 12/11/07) é pródigo em citações, o que mostra o salutar hábito de leitura do autor. Pena que seu entendimento destes textos não seja igualmente saudável, o que me pouparia o trabalho de rebatê-lo novamente. Isto dito, um texto com tantos problemas não poderia passar incólume.

A questão que debatemos é simples. Defendo que a escolha de uma meta de inflação mais elevada (ou mais baixa) não deve ter qualquer efeito sobre a taxa de crescimento da economia por um motivo bastante singelo: as pessoas conseguem distinguir entre alterações nominais e reais de preços. Sindicatos, por exemplo, negociam salários sabendo muito bem o que se trata de mero reajuste nominal e o que é, de fato, ganho real. Se isto é verdade, o anúncio de meta de inflação mais elevada deve ser imediatamente incorporado ao conjunto de informações dos agentes e, consequentemente, às suas expectativas, sem efeitos reais sobre a economia (chamemos isto de hipótese aceleracionista). Lima, pelo contrário, argumentou originalmente que, sim, uma meta de inflação mais alta poderia acelerar o crescimento (já em seu último artigo recuou da posição inicial, afirmando apenas que crescimento pode ser compatível com inflação mais alta).

Em apoio à sua tese Lima, citando o trabalho de Robert Barro, “observa que para taxas de inflação abaixo de 20% qualquer relação, positiva ou negativa, entre crescimento e inflação, não é estatisticamente significativa”. Lima não se deu conta, porém, que este resultado, ao contrário do que parece acreditar, não apóia sua tese. Se a taxa de inflação não tem qualquer efeito sobre a taxa de crescimento, por que alguém escolheria uma meta de inflação mais alta?

Para colocar a questão em termos mais mundanos, o número de vezes ao dia que alguém tocar a Macarena durante a primeira infância do seu filho muito possivelmente não irá afetar sua estatura na adolescência. Isto, porém, não é justificativa para tocá-la inúmeras vezes ao dia, a menos que você acredite que isto trará um aumento de bem-estar à criança (eu não acho, mas deixo isto a critério de cada pai). Da mesma forma, ainda que a inflação (abaixo de 20% a.a.) não prejudique o crescimento, qual a razão para que esta seja 8% a.a. ao invés de, digamos, 3%? Há algo de positivo na inflação mais elevada?

A bem da verdade, Lima agora diz não acreditar que inflação mais alta traga mais crescimento (ainda que em outras passagens revele persistir na crença), mas sim que inflação alta também é compatível com crescimento, assim como é a inflação baixa, ou seja, que o crescimento independe da taxa de inflação. Pergunto: no que mesmo sua posição difere da hipótese aceleracionista?

Lima, porém, não se limita a citações sobre macroeconomia e traz também a epistemologia ao debate. Segundo ele não se pode dizer que a hipótese aceleracionista seja “correta”, já que – citando Karl Popper – não há uma teoria “correta”, apenas hipóteses que se ajustam melhor ou pior aos dados. De fato, a teoria da gravidade de Newton, na leitura ingênua de Popper proposta por Lima, também não é “correta”, mas apenas uma hipótese, que, pode se ajustar melhor ou pior aos dados. Será que o filósofo pularia de uma janela com base na noção que a teoria da gravidade não é “correta” no sentido popperiano do termo?

Exagero meu? Pelo contrário. Anos de exercício de política monetária sob a hipótese aceleracionista cimentaram a noção do que tem sido denominado “A Grande Moderação”, isto é, um período no qual taxas baixas de inflação têm convivido com baixa volatilidade do crescimento. Ao contrário do período em que bancos centrais tentaram (inutilmente) acelerar o crescimento à custa de inflação mais elevada, apenas para pouco depois serem forçados a desacelerar fortemente a atividade para controlar a inflação, gerando um padrão conhecido como stop-and-go, hoje os bancos centrais aprenderam que não precisam (metaforicamente) pular da janela para ver se a hipótese aceleracionista se ajusta aos dados.

Em outras palavras, a hipótese aceleracionista, considerada “simplista” por Lima, serviu de base para a gestão bem sucedida de política monetária que, ao redor do globo, gerou baixas taxas de inflação com reduzida volatilidade do produto, traduzindo-se em ganhos significativos de bem-estar. Como diria Milton Friedman (“The Methodology of Positive Economics”), inspirado pelo mesmo positivismo de Popper, pouco interessam as hipóteses do modelo, desde que este consiga gerar previsões válidas, entre elas sugestões de política que aumentem o bem-estar. A evidência acumulada sobre estes anos de gestão de política monetária inspirada pela hipótese aceleracionista sugere que esta cumpre, com honras, este quesito.

Isto, porém, parece ainda além da compreensão de Lima, em que pesem suas pretensões epistemológicas. Sem dúvida é curioso que alguém cite Popper e, poucos parágrafos depois, questione o “realismo” das hipóteses do modelo, incluída a suposição acerca da racionalidade dos agentes econômicos. Revela, no mínimo, pouca reflexão sobre as implicações da abordagem popperiana à ciência. Na pior das hipóteses sugere que só cita o filósofo alemão quando lhe é interessante, deixando de lado as implicações menos favoráveis à sua tese.

Em todo caso, a miséria epistemológica, mesmo grave, não é o pior aspecto do artigo. Mais séria é a falta de entendimento acerca da própria hipótese aceleracionista, em particular para alguém que pretende se posicionar como o campeão da heterodoxia, “ousando desafiar a ortodoxia dos economistas”. Ao recuar da sua posição original acerca da inflação mais alta trazer mais crescimento e afirmar que teria dito apenas que a inflação elevada (mas, imagino, abaixo de 20%) é “compatível” com crescimento Lima apenas repete inadvertidamente a hipótese aceleracionista, isto é, que o crescimento não é afetado pela taxa de inflação. O defensor da “heterodoxia” não conseguiu perceber que sua suposta crítica apenas ecoa a mesma teoria que pretende criticar. Seria irônico, mas é apenas triste.

(Publicado 5/Dez/2007)

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Econometria · estatística · falhas de governo · meio ambiente · random walk

É a mudança climática um passeio aleatório?

Eli Dourado:

The human brain is “hard-wired” for pattern recognition. So much so, in fact, that it often finds patterns that are not really there. This is why the field of statistics is so counter-intuitive for so many people (and you thought it was all the Greek letters).

I was thinking and reading about global warming this morning when a thought struck me: could I test climate trends against a null hypothesis of a random walk? It took only a few minutes to discover that a pair of authors from the US Geological Survey have already done so. In a 2005 article in Geophysical Research Letters, Timothy Cohn and Harry Lins were unable to reject the hypothesis that the warming of the last 100 years was due to randomness. The trend is statistically insignificant.

I draw two conclusions. First, politicians should not do anything drastic to “fix” global warming. Second, if we insist on democratic governance, we ought to emphasize statistics in the high school curriculum. I propose dropping trigonometry (which is useless to almost everyone) and replacing it with statistics.

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“Pode baixar os juros que não há problema”…mesmo?

O IEDI, órgão ligado às indústrias, divulgou o último dado da mais complicada variável (em termos de mensuração): a utilização da capacidade instalada. Diz o pessoal de lá:

O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Edgard Pereira, não vê trajetória explosiva no Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci), calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ficou em 82,8% em outubro, ante 82,5% em setembro. “Foi apenas um ajuste na margem”, afirmou.

Será mesmo? Eis o exercício para o pessoal de Econometria:  (i) com os principais indicadores econômicos do Brasil, construa um cenário destacando os principais focos possíveis de inflação, (ii) no IPEADATA, obtenha a série citada acima e faça dois gráficos: um, com a evolução mensal da série e outro com os fatores sazonais.

Após fazer isto tudo, procure avaliar a afirmação do pessoal da CNI.

off-topic · personalidades famosas

Pessoas que admiro (e que mudaram o mundo marginalmente) – I

Hirofumi Daimatsu.

Por que? Eu nem jogo vôlei, mas a história da busca pela excelência deste famoso treinador japonês é uma lição que pouca gente aprende porque, como sempre, adora a desculpa do “é outra cultura, jamais seremos assim”. Relativismo cultural é sempre uma armadilha para os cientistas sociais (mais ainda para os leigos).

Hirofumi adotou os incentivos certos? Vejamos:

Under Daimatsu’s tenure as coach, the Japanese National Women’s Team won 175 successive victories in Japan and in the international arena. He trained the team with an austere and unrelenting schedule, devoting long and physically demanding days to mastering the new techniques. He coached the Japanese Women’s Team to a silver medal in the World Championship in 1960 and a gold medal in 1962. Leading the Japanese Women’s National Team to a gold medal in the 1964 Olympics in Tokyo, one of the most successful Olympiads held, was a crowning moment for the nation, as it won the first Olympic gold medal in a favorite sport.

Então, em primeiro lugar, ele mostrou que no pain, no gain. Já começou bem. Resultados? Bem, olhe só aí em cima. Vejamos mais:

Daimatsu was not only the head coach of the national team, but also the head coach of a company club, Nichibo-Kaizuka, which was one of the biggest textile companies in Japan. Almost all national team players belonged to that particular club, lessening the difficulty of training together. His hard-work approach to training was praised as a role model of team sports and his practical instructions and father-like-figure became very popular among various generations in Japan.

His favorite remark to the players was, “you just got to follow me”. The Daimatsu Family became more and more popular year by year building up towards the Tokyo Olympic Games in 1964.

Incrível, não? Há histórias de gente que chorava sob seu treino. Nada mais natural para alguém com a fama de sargentão.  Repare na vantagem de um time formado por pessoas que trabalham em um mesmo local: a diminuição considerável do custo de oportunidade do treino em equipe. Claro que sempre há quem reclame:

The team’s authoritarian coach, Hirofumi Daimatsu, was known for putting his players through long, brutal practices every night, after they’d spent the day working in the company office. “I was growing my nails, because I wanted to retain some of my femininity,” recalled captain Kawanishi Kasai. “He thought I was growing my nails to hurt him, which wasn’t true … but I did often wish the ball would hit him in the face.” In winning gold in Tokyo, Daimatsu’s team won all five matches, outscored the opposition 238-93 (in points) and dropped just one set — against Poland — when Daimatsu noticed that the Soviet coach was watching and decided to pull some of his stars.

Mais um pouco sobre o brilhante treinador:

No vôlei, por outro lado, se viu tudo, menos silêncio. No masculino, o Japão terminaria em terceiro, após perder duas partidas; no feminino, ganharia o ouro, em uma final emocionante diante da União Soviética, durante a qual nada menos que 80% dos lares japoneses com televisão estavam sintonizados na partida, um recorde durante muito tempo não batido. Formado principalmente por trabalhadoras do moinho Nichibo, o time feminino do Japão tinha como treinador Hirofumi Daimatsu, o Bernardinho da época. Totalmente o inverso do que se espera de um japonês, Daimatsu gritava, berrava, insultava, ameaçava suas atletas, e chegava até a chutá-las no bumbum quando erravam. Apesar do metodo pouco ortodoxo, Daimatsu tinha uma visão ampla do esporte: diante das gigantes dos países comunistas, as miúdas japonesas só conseguiriam a vitória se tivessem uma defesa perfeita. Foi ele quem criou o que hoje se chama de “escola oriental”, onde as atletas se jogam no chão como se mergulhassem em uma piscina, salvam as bolas com as pontas das unhas, viram cambalhotas e estrelas, tudo para impedir que a bola toque o chão e armar o próximo ataque. Com esta disposição, o Japão venceu todos os seus cinco jogos, sendo campeão do certame de forma invicta. Os métodos de Daimatsu, porém, o levariam a perder o emprego: após a vitória, as meninas do Japão foram convidadas a visitar o Primeiro Ministro Eisaku Sato, e aproveitaram para colocar para fora todas as suas mágoas. A capitã do time, inclusive, queixou-se de que Daimatsu não permitia que elas namorassem, e que deste jeito ela jamais arrumaria um marido. Irritado com esta “insubordinação”, Daimatsu entregou o cargo, e foi trabalhar em uma agência de publicidade.

Como se vê, o perfil do Daimatsu se encaixa no que os guruzinhos da auto-ajuda para CEO mais adoram: o “heterodoxo”. Palavra-chave para disparar páginas e páginas de asneiras, hoje, no Brasil, Daimatsu provavelmente seria visto como um “neoliberal sem alma e machista”. Claro, as (sempre reclamadoras) feministas do tipo C(hatas) dirão que o problema é das meninas pois elas queriam apenas…”arrumar marido”. Note como Daimatsu também destrói aquele estereótipo de que todos os japoneses são iguais (lembra do papo furado da “cultura”, lá no alto?) e tal.

Lições importantes para CEO’s em busca de auto-ajuda e frases feitas: (i) disciplina da equipe é importante, (ii) respeito ao chefe é algo que ou se conquista (quando o chefe é líder) ou se impõe, dados os objetivos da equipe, (iii) o treino duro supera as dificuldades mas não curará suas mágoas, garotinho(a).

Aprenda estas lições e sua vida será melhor. Eu garanto.

Hirofumi Daimatsu é um homem que mudou o mundo para melhor, marginalmente.

brasil

Desafio do xará

Eis o desafio. Mas é só abrir os jornais e ler algumas traduções de livros feitas com má vontade, ou mesmo verificar o empenho médio do brasileiro em qualquer atividade para ver que não há contradições.

Brasileiro suja muro alheio e acha que o problema é o Renan. Policial Militar atravessa fora da faixa e acha que pode prender alguém. Aluno não cumpre tarefas e diz que a culpa é do professor. E o valor máximo desta sociedade é urinar fora do vaso e sair orgulhoso do banheiro.

Em uma sociedade assim, o que é você espera, xará? Não tem jeito.

E olha que o povo acima não é necessariamente “sem informação”. Já vi muita menina e menino de classe média alta fazer igual ou pior ao que relatei acima…