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O empreendedor do ensino versus o dragão da ineficiência de sete cabeças

Introdução

Vamos falar um pouco de como funciona o sistema de incentivos em uma faculdade. Hoje, em especial, falarei de mim mesmo, num surto de egocentrismo que merece ser tratado, certamente, com algum cuidado. O tema deste longo post será…minhas iniciativas pedagógicas num mundo onde pedagogos só querem saber se você falou de “socialismo”, “mundo mais justo” e se afagou o pobre do menininho da classe média que bate em empregadas e tem déficit de vergonha na ca..digo…atenção.

Para fins de complicação didático-pedagógica, dividiremos este texto em mais duas partes de compreensão quase impossível: oferta, demanda e equilíbrio (entre oferta e demanda, algo bem mais complicado). O leitor que chegar até o fim deste texto poderá ser considerado um alfabetizado funcional, um herói. Caso goste do texto, será um pária. Caso não goste, fará parte da grande legião dos que acham muita chatice este papo todo.

Um subproduto disto tudo, creio, é que o leitor-professor desonesto poderá fazer algo idêntico por aí e não citar este blog, ganhando a fama de inovador e, quem sabe, uma coluna numa destas revistas de auto-ajuda para CEO’s com déficit de competência?

Pois bem. Do ápice de meu mau humor….o texto!

Oferta: a história de um professor (muito) aloprado

Sim, (eu) falo de mim. Um pouco de auto-reflexão, creio. Em 1997-8, em outra faculdade, fiz minha primeira incursão pelos métodos didático-pedagógicos originais. Na época, eu tentava fazer com que os alunos de uma turma apresentassem trabalhos sobre capítulos do livro de Mauá, Empresário do Império, mas com ênfase nos aspectos econômicos dos mesmos.

Já no IBMEC, numa – desesperada e entusiasmada – tentativa de fazer brotar as idéias na mente dos alunos da outrora Técnicas de Pesquisa em Economia (hoje “Monografia I”), inovei novamente, criando o Projeto 42. Na verdade, a idéia do título foi dos alunos. A minha era que o blog fosse um instrumento útil no aprendizado e crescimento dos mesmos. Claro, a ênfase era em economia. Lembro-me da Camila, aluna tímida e até algo desanimada que se revelou uma excelente blogueira e economista. Estive em sua banca de monografia, não estive? Acho que sim. E acho que me lembro de ter falado do orgulho que senti ao vê-la terminar o curso com uma postura que (meu ego, meu ego) eu ajudei a mudar…para melhor.

Semestre passado, em prol da integração do conhecimento, promovi um trabalho conjunto com o professor de Econometria. Alunos do 3o período fizeram o que muito marmanjo nunca fez: manipular a POF e tentar estimar curvas de Engel. Neste semestre, a idéia foi um pouco diferente e o foco foi parecido com a história do Mauá, só que com música.

Outra turma, ainda este semestre, foi submetida a uma metodologia que o VanDyck sempre citava (mas nunca me explicou, de forma que tive de criar as regras…ou adaptá-las de colegas norte-americanos): os reaction papers. A turma de História Econômica do Brasil II teve momentos interessantes – eu espero – com um tipo de exercício que nunca fizeram e que, honestamente, com exceção minha e do VanDyck, nunca vi fazerem mas, confesso, sou pouco informado sobre isto.

Ah sim, em outra turma pequena, mas avançada na grade curricular, a idéia foi, a partir da discussão em sala com o João, um aluno, construir um estudo de caso em Economia (alguns chamam isto de case) . Este ficou bem interessante, passará por uma revisão minha e, sim, vai se transformar num “mini-e-book” (caso os meninos façam os ajustes que pedi…e ainda tenho que checar aquela história de plágio…). Na verdade, o que a turma tentou fazer foi entender algumas estratégias de preços de uma grande loja de aluguel e venda de fitas VHS e DVD’s. Após uma cadeira muito interessante (modéstia, realmente às favas), acho que este é o tipo de exercício interessante. Se o resultado foi efetivamente a sedimentação do aprendizado, eu tenho minhas dúvidas. Mas isto não depende apenas de mim. Voltaremos a este tópico adiante, não se preocupe.

Além disso tudo, embora não se relacione com minhas aulas, os dois e-books dos quais tomei parte, um editando e outro como um dos autores, foram, sim, importantes. Conversei sobre ambos com os alunos e notei que alguns deles participaram dos projetos com certo entusiasmo. Notei, por exemplo, que o co-blogueiro Pedro é um sujeito genuinamente interessado no que aprende. Vi que Lucas, Igor e Cristiane têm também um talento que poderia ser mais bem aproveitado se a timidez puder ser dissipada mais rapidamente…enfim…foi uma diversão só.

O leitor pode se perguntar sobre a efetividade disto tudo. Bem, é impossível dizer se não pensarmos na demanda. Tudo isto que contei resume um conjunto de iniciativas de minha parte – e olha que pulei alguns bons trabalhos que meus alunos calouros fizeram no IBMEC entre 2004-5.

Mostram, se posso dizer isto, meu lado empreendedor. A vontade de tornar a matéria mais interessante sem perder a seriedade na cobrança, o desejo de fazer com que a pessoa entenda que seu curso está, sim, espalhado em sua volta, em aspectos nem sempre explicitados de sua vida, enfim, estas coisas que professor faz para tornar a sua vida mais interessante. Mas, será que a vida dos alunos fica mais interessante com isto?

Para responder a esta pergunta, precisamos nos perguntar sobre o lado da demanda.

Demanda: a eterna luta entre Yin, Yang e Chow Yun Fat

Joaquim foi um aluno meu que participou de minha experiência com o livro de Mauá. Na época, eu bem me lembro, ele elogiou um bocado o trabalho. Se aplicou isto em outros livros ou se isto mudou sua vida, não sei. Mas pelo menos lhe fez bem.

Sobre os outros experimentos, tive retorno de apenas um ou dois alunos no Projeto 42, com boas críticas mas, do que eu esperava, elogios apenas modestos. Seria o mundo dos blogs algo pouco desafiador aos alunos de economia? Talvez.

Em geral, tive pouca repercussão sobre os e-books aqui. Foi muito gratificante – mas muito mesmo – ver meus ex-alunos de um único semestre na Fundação João Pinheiro participarem dos dois e-books. E não falo apenas de um semestre de 2006. Tenho lá um ex-aluno mais antigo, quem diria, que participou do e-book.

Há, sim, muito economista sem diploma e muito bronco diplomado. Incrível como isto é assim em qualquer área do saber (se é que podemos classificar as áreas e delimitá-las tão bem…). Os e-books mostram bem isto.

Os trabalhos sobre a POF e músicas me mostraram que a maturidade dos alunos do 3o período ainda não é totalmente compatível com o clima universitário. Há gente talentosa, mas há muito descaso também. Ou desinteresse. Ou ambos.

Em quase todo trabalho entregue, a pesquisa pelo aprofundamento do significado econômico encontrado na música parece morrer no primeiro site encontrado no Google. Há muito descaso com o que se diz. O ensino prévio à faculdade não parece se preocupar se alguém chama “urubu de meu louro”. Vocabulário é coisa séria demais para ser deixado nas mãos de professorinhas que só se preocupam em eleger os colegas militantes (ou passam o dia reclamando de um salário que, sim, sabiam qual seria na hora de ler o edital). Claro, em um ambiente como este, os incentivos não favorecem os bons alunos, o que não os isenta da culpa de não insistirem no estudo. Nada de culpar a “tia”, meu caro. Você olha tanto para seu umbigo na hora de se vangloriar das cervejas que tomou, né? Lembre-se que é também de seu umbigo que sai a sua má vontade. Seu umbigo é seu, para o bem ou para o mal…

Antes que o Leo Monasterio diga que reclamo muito, eu pergunto: há alunos bons? Claro. Tive, tenho e terei vários deles passando por minhas cadeiras. Mas há muitas dificuldades para que eles canalizem seus esforços corretamente. A atitude do cara pesa muito na formação de seu caráter e, neste sentido, algo muito bacana é quando o aluno reclama com você ao invés de sair correndo atrás do diretor, como se fosse um menino de 10 anos de idade. Faz parte do processo de amadurecimento – diria um pediatra – o sujeito aprender a lidar com seu próprio fracasso, assumir suas culpas e saber falar disto com o professor como um adulto, isto é, sem lágrimas, soluços ou berros infantis.

Por outro lado, atrapalha quando bons alunos (ou alunos que desejam apenas te bajular) falam mal de outros professores para você. Ora, se você não gosta da aula do fulano, reclame com ele. Eu não sou o diretor da faculdade. Não posso punir o professor que chega atrasado e nem posso fazê-lo ser mais educado com você (sim, existe professor mal educado, que é diferente do professor rígido…embora ambos possam coexistir em um único corpo físico). Quem pode fazer isto é o diretor.

E a diferença entre escola (= ensino básico e médio) e faculdade? Alunos bons captam isto rápido. O antigo adágio vale: “na faculdade ninguém te dirá como fazer as coisas”. O que se faz, isto sim, é ensinar onde está o caminho das pedras e como evitar os buracos e atalhos perigosos da estrada. O resto, meu filho, é por sua própria conta e risco. A faculdade, eu disse em outro lugar, não é substituto do pai ou da mãe, mas sim um complemento destes. O seu objetivo é dar ao mercado profissionais qualificados, não atender os desejos dos alunos (ou dos pais que confundem tudo).

E aí?

Oferta e Demanda: o melhor que se pode fazer dadas as circunstâncias ou “você pode ser o homem certo, na hora certa, com as pessoas certas…mas nada lhe garante que isto é sinônimo do melhor desempenho possível”

O encontro destas curvas de oferta e demanda por conhecimento dá no que sempre aprendi: um resultado de equilíbrio e eficiência alocativa. Claro que regras ruins (faculdades “caça-níqueis” e faculdades públicas têm este problema de forma acentuada, embora o erro possa ser de natureza distinta em cada caso…), leniência excessiva com desejos alheios ao bom processo de produção do conhecimento, incompetência administrativa, tudo isto pode resultar em um equilíbrio de elevado custo e produção quase nula. Péssimo, né?

Mas há a possibilidade de que o equilíbrio se dê em um ponto mais favorável a todos. Não se iluda, leitor: você deve ter chegado aqui antes dos meus alunos. Provavelmente sairá daqui me achando um pessimista. Mas eis aí o paradoxo: por mais que nunca tenham reconhecido meus esforços na inovação pedagógica, eu continuo a insistir. Sou teimoso e independente demais para ser amarrado na mediocridade burocrática.

Bom, há qualificações importantes também. Adolescentes – e universitários, hoje, são, sim, adolescentes, seja na universidade pública ou na privada – são impacientes. Não querem nada mais do que a solução para seus problemas de forma muito rápida. Pais e professores do ensino médio e básico não tiveram sucesso: criaram meninos ansiosos. Corrijo-me: ansiosos além do ponto ótimo. Eu também sou ansioso. Mas canalizo minha ansiedade para coisas produtivas (até este blog pode ser pensado assim, ou, claro, esta esperta estratégia de colocar este link aqui). Alguém me ensinou a fazer isto ao longo da minha vida.

Hoje, claro, eu mesmo cuido de minha ansiedade e me conheço melhor após alguns anos de Análise (ou Terapia, sei lá o nome desta joça que me é muito útil). Sei como me tratar. Mas, reveleia: passei pela minha adolescência, já estou velho e ainda sou ansioso. Por que eu consegui estudar e aprender mais do que muito aluno de hoje em dia? Minha aposta: porque eu tive, na mesma época, mais “horas-bunda” de estudo. Nunca deixei de curtir as festas, mas sempre soube separar as consequências da impaciência do meu futuro incerto. Por via das dúvidas, fui prudente em minhas baladas. Nada que um adolescente não consiga fazer. Basta querer.

Mas eu comecei este texto tentando fazer um pouco de auto-biografia (auto-crítica). Termino com uma frase que pode te ajudar a repensar sua trajetória na faculdade. Eu a cunhei para mim mesmo há alguns anos, como uma “frase do mês”, mas ela virou uma frase para minha vida: “sempre achei minha auto-crítica bem ruinzinha”.

Fico a dever: (a) o mini-e-book, (b) dicas sobre como estudar de maneira eficiente (como se eu soubesse…) e (c) crônicas da vida universitária (os nomes dos malucos serão alterados para preservar a integridade (i)moral dos meliantes). Aguarde.

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