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Incentivos do governo distorcem desempenho de acadêmicos?

Considere este trecho desta excelente entrevista:

Academicamente, nas publicações, o Brasil avançou muito, mas não tanto do ponto de vista das aplicações, de uso da ciência. Em geral, nosso sistema de incentivos ainda é muito acadêmico. Veja o caso da Capes, uma instituição que todo mundo considera muito bem-sucedida, mas que está chegando ao limite do seu modelo: está montada para a valorização do trabalho acadêmico, tem muita dificuldade para apoiar áreas interdisciplinares e desestimula qualquer tipo de atividade em que exista um benefício que tenha a ver com resultados, com aplicações. A Capes tenta colocar todos os programas de pós-graduação no país dentro de um sistema unificado e coordenado de avaliação, mas este sistema já começa a se extravasar. O Brasil até hoje não conseguiu avançar com os mestrados profissionais, que são os que predominam em todo o mundo, porque eles não se sairiam bem nas avaliações da Capes.

Lembra da discussão do Adolfo Sachsida (e minha) sobre os incentivos da CAPES e os programas de graduação e/ou pós-graduação de Economia? A dimensão acima – relação com o mercado – mostra que existe mais um problema sério a ser considerado.

Mas, e os incentivos à inovação?

Uma queixa comum na área empresarial é que é muito complicado usar os fundos públicos de inovação. Como os procedimentos são lentos e não se sabe quando o dinheiro vai sair, muitas empresas acham que não vale a pena o esforço. Se o financiamento à inovação é muito subsidiado, existe o risco de as empresas buscarem o dinheiro e usarem para outros fins. Outra questão é o estímulo, a necessidade que as empresas têm de inovar. É uma questão que já não é mais da ciência, mas de economia. Algumas empresas competem no mundo em termos de inovação e eficiência, enquanto outras trabalham mais em quantidade, baixando os preços, porque conseguem mão-de-obra mais barata, e não têm como competir no nível da tecnologia mais alta.

Notou, leitor, a deixa para se falar de “rent-seeking”? Subsídios podem gerar distorções nos esforços dos empresários, no sentido de levarem-nos a caçar renda (rent-seeking) e não a promover o bem-estar social através da busca de lucros.

Mais outro ponto: como os “progressistas” da “esquerda” “bolivariana”, os heróis dos alunos (doutrinados) de colégios atuam neste ambiente?

Em relação aos centros acadêmicos de pesquisa, é importante desenvolver sistemas de incentivos que favoreçam mais a aplicação e a busca de resultados, e não somente os critérios acadêmicos de qualidade. As fundações universitárias, que existem na USP e em muitas universidades públicas, são uma maneira interessante de criar pontes mais efetivas com o mundo externo. Há um movimento, que eu diria muito reacionário, que busca derrubar essas pontes, argumentando que a universidade pública não pode receber dinheiro fora do orçamento e o professor não pode ter complementação salarial. Deveria ser o contrário. Um professor competente na área de computação que possa fazer contribuições importantes não tem de ganhar o mesmo que um professor de história, geografia, sociologia, que é a minha área, ou de ciência política.

Notou, leitor? Tem sociólogo que deseja mesmo é ser, como diria Gaspari, ociólogo. Ou seja, o sujeito quer financiamento público (= mais impostos do resto da sociedade) para não fazer nada de aplicável. Que beleza! Os recursos escassos, gente passando fome (“quem tem fome tem pressa”, né?) e o sujeito quer dinheiro para fazer pesquisa sobre a fome sem qualquer aplicação prática. Até imagino aquele “construto” teórico bonito, cheio de desenhos e neologismos…mas sem nada de aplicável para resolver o problema da fome. Não acho ilegítimo que se construam teorias novas, claro. Mas Simon (o autor dos trechos) tem um ponto importante: mensuração de resultados.

Simon parece achar que a avaliação acadêmica está razoavelmente desenvolvida e, neste ponto, eu acho que ele é muito otimista. Mas isto não torna sua crítica menos relevante. Apenas mostra que o problema é maior.

Mas, claro, você poderia pensar que os acadêmicos da universidade pública devem estar revoltadíssimos com isto. Será?

Na época do governo Fernando Henrique Cardoso, o Paulo Renato de Souza, como ministro da Educação, tentou mexer com as universidades públicas, dando-lhes mais autonomia e responsabilidade pela qualidade de seus resultados e uso adequado de recursos. Houve uma reação contrária muito forte e nada se fez. Na época do Itamar Franco, todos na universidade gostavam de Murilo Hingel, o ministro da Educação; ele sempre elogiava as universidades e não tinha nenhuma política para o setor. O atual governo faz também um pouco isso.

Notou? Fala bem e dá dinheiro, sorrisos. Tente dar autonomia – o que significa mais responsabilidade – e você ganhará vaias. Lembra um pouco o comportamento de Peter Pan: não quer crescer nunca.

Bom, mas você pode se perguntar sobre o papel dos burocratas no desenvolvimento da ciência. Hoje mesmo discutimos eu e uns alunos sobre a tal política industrial.

Eu nunca acreditei no planejamento da economia e muito menos no planejamento da ciência. Para se ter ciência é preciso uma comunidade científica livre. Deve ser livre, acadêmica, tem de ter instituições com independência. Ben-David mostra bem, em seus estudos, como foi assim que a ciência ocidental se desenvolveu. Além dele, Robert Merton, um dos principais nomes da sociologia norte-americana, havia desenvolvido a idéia da ciência como uma comunidade livre de scholars, que se contrapunha às tentativas de atrelar a ciência aos regimes políticos que, nas décadas de 1930 e 40, tentaram amarrar a ciência aos regimes autoritários da Alemanha nazista, antes, e à União Soviética stalinista, depois. Esses autores se opunham à tradição que se pode chamar bernalista, de John Desmond Bernal. Bernal era um inglês que desenvolveu pesquisas originais na área de cristalografia e contribuiu ativamente para o esforço de guerra de seu país contra a Alemanha. Era fascinado pela União Soviética, que citava como um grande exemplo de como se coloca a ciência a serviço da sociedade. Nisso ele seguia a tradição de Jean Perrin, físico e Prêmio Nobel francês, responsável, junto com Irène Joliot-Curie, pela organização do sistema científico francês no período do Froint Populaire na década de 1930. Para eles, a ciência tem de estar dentro do Estado, a serviço do planejamento, e ajudar a organizar a sociedade de acordo com critérios científicos.

Conclusão? Gente muito inteligente em química nem sempre o é em economia (e vice-versa). Olha só como o sujeito bom de serviço desejava impor seu modo de ver à sociedade.

Vale a pena ler toda a entrevista. Mesmo.

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