macroeconomia · multiplicador keynesiano · Teoria econômica

Y = C + I + G

Guilherme fez um texto interessante sobre o multiplicador keynesiano. Reproduzo um trecho, com o link.

Um exemplo de uma teoria que se tornou um mito foi a idéia do “Multiplicador Keynesiano”. O leitor deste blog provavelmente já conhece essa teoria. O “gasto”, seja de consumo ou investimento, geraria um “efeito dominó” por toda a economia que teria um impacto maior sobre a renda do que o volume de gasto incial. Por trás disso, existe a idéia de que o gasto de uma pessoa é a renda de outra. Se um indivíduo tem 100 reais e gasta 80 na padaria, poupando os 20 reais restantes, o padeiro, passaria a ter 80 reais, que dos quais pouparia 16 reais e gastaria 64 no açougue, por exemplo. O açogueiro, por sua vez, poupa 12,8 e gasta 51,2 no alfaiate e assim sucessivamente. Diz-se que nessa situação o multiplicador é 5, ou seja, um gasto inicial de 100 causará um aumento na renda de 500 reais.

Essa idéia sempre me incomodou. Como que simplesmente gastar irá fazer a sua renda aumentar? Se pensarmos no nível do indivíduo, esse argumento parece uma tolice sem tamanho. Se eu quero aumentar meu poder aquisitivo (aumentar minha renda), eu tenho três opções: a primeira é arranjar um emprego que pague mais, ou seja, eu preciso realizar uma atividade na qual eu tenho um desempenho melhor. Uma atividade onde sou mais produtivo. A segunda opção seria a de poupar parte da minha renda e emprestá-la para alguém. Eu não preciso emprestar diretamente, pois posso fazê-lo através de um banco. Fazendo isso, no futuro, eu possuirei um poder aquisitivo maior. A terceira alternativa para aumentar meu poder aquisitivo é me endividar. Se eu quero consumir agora, eu posso pedir emprestado o dinheiro de alguém que está poupando. Essas são as únicas maneiras de aumentar minha renda. Nenhuma delas envolve “gasto”.

Eis aí uma boa pergunta. Eu também aprendi que este multiplicador era algo que funcionava e, quando fui para a matéria que tratava do Desenvolvimento Econômico…bem…o professor, um daqueles raivosos pterodoxos, disse, com todas as letras, que o modelo de Solow era uma bobagem porque neoclássico. Então, após mais alguns anos, sofrendo muito no mestrado e no doutorado, eu finalmente pude aprender sobre o Desenvolvimento. E aí, eu olhava para aquela propensão marginal a poupar e ficava pensando: mas como é que pode isto ser bom no longo prazo se é ruim no curto? Quem, em sã consciência, pouparia?

A explicação do Guilherme tem toda a cara de crítica austríaca (ele gosta destas coisas, rs rs), aliás, lembra muito as tentativas de Roger Garrison de trabalhar o modelo keynesiano básico com a idéia dos estágios de produção de Hayek (eis aí um livro realmente interessante de se ler, Time and Money).

Entretanto, não é preciso ser austríaco para se sentir incomodado com o multiplicador keynesiano. O que me parece um grande problema desta versão keynesiana de livro-texto é a falta de microfundamentação. Se você já tiver visto o livro (avançado) de Economia Monetária do Carl Walsh, verá lá o modelo IS-LM de Bernanke e Blinder. Se não me falha a memória, lá, o modelo ganha microfundamentação e a explicação do modelo tem muito mais sentido econômico. Quando Bernanke e Blinder recriam o IS-LM, incorporam o canal de crédito que permite ao banqueiro privado pensar em termos de custo de oportunidade entre diversos tipos de empréstimo.

É interessante e difícil pensar neste tipo de problema porque, sim, o multiplicador existe se as relações propostas por Keynes existem tal como ele as formulou, ou seja, é uma simples contabilidade de agregados. Mas basta pensar que a teoria precisa de especificação do comportamento dos agentes – para fazer sentido – e o multiplicador passa a fazer menos sentido.

Mais ainda: se você não sabe, digamos, como é tomada a decisão individual de poupar ou não (a boa e velha Equação de Slutsky…), você não sabe se o multiplicador calculado com os dados ultra-agregados realmente impacta a realidade no montante previsto.

Este texto do Guilherme me deu vontade de parar um pouco hoje e pensar em uma resposta crítica não-austríaca ao multiplicador. Bom texto, Guilherme. Talvez tenha aberto um debate interessante com os keynesianos fundamentalistas, com gente mais séria, mas não austríaca, e com nosso próprio aprendizado. Aliás, este é o maior inimigo de cada um: ele mesmo.

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