A economia da alocação de órgãos para transplantes e o apagão aéreo

Será a fila nacional um instrumento eficiente para se alocar órgãos para transplantes? Esta é uma discussão longa e interessante. Mas é curioso você se lembrar de autoridades do governo do sr. da Silva viajando em aviões da FAB enquanto a tal “elite que viaja de avião” passa por problemas como este:

Gabriel Barbosa Machado é um pequeno herói. Sobreviveu a muitas intempéries nesse 1 ano e 11 meses de vida. Foi desenganado pelos médicos ainda na sua terra natal, a Bahia. Sofria de estreitamento das vias biliares hepáticas. Mas, no dia 7 de dezembro de 2006, depois que a salvação chegou por meio da doação de um novo fígado, viu naufragar o novo rumo de sua vida por causa de uma pane no centro de controle de Brasília (Cindacta-1) dois dias antes, o que motivou uma série de atrasos nos aeroportos de todo o País.

Depois desse fatídico dia, o pequeno e sua mãe, Joseane Barbosa Machado, de 16 anos, hoje emancipada para acompanhar o filho em São Paulo, passaram por vários outros apuros até que o transplante fosse finalmente executado, no dia 6 de agosto. Hoje o garoto já ensaia os primeiros passos, fala algumas palavras e é símbolo de força e vitalidade.

Até onde sei, o povo da ANAC não emitiu uma única ordem a respeito deste “pequeno” problema. Se divulgou, tem um serviço horroroso de marketing.

Mas há algo além disso. Não seria mais eficiente ter filas individuais como segundo critério, previsto para casos de incompetência de outras áreas do governo como os responsáveis pelo setor aéreo? Esta pode ser uma sugestão interessante mas, o problema é que mudar a regra agora é um desrespeito para quem já está na lista há mais tempo…

Dados, divórcio e algumas reflexões sobre o escopo limitado dos economistas acadêmicos brasileiros

Justin Wolfers é blogueiro convidado do – excelente – Marginal Revolution esta semana. E ele fala sobre o mito do crescimento das taxas de divórcio, nos EUA.

Sempre que leio um texto interessante como este eu me pergunto: por que não vejo economistas brasileiros tratarem dos mesmos temas, mas com dados brasileiros? Se há algum e se alguém tiver a bondade de me dar a referência, eu a coloco aqui.

Mas entende meu ponto? Há tão poucos economistas acadêmicos? Ou seus interesses são limitados? Ou seria a falta de dados? Seria algum outro motivo? Por que tanta timidez de estudos econômicos que não tratem apenas de oferta de moeda, taxa de juros ou taxa de câmbio?

Minha intuição me diz que há outro problema relacionado: o vício antigo de acadêmicos economistas não estudarem os impactos de bem-estar de políticas que eles mesmos propõem (ou propostas por políticos). Isto tem mudado, mas é incrível a ausência de preocupação com isto nos artigos mais antigos, com as usuais exceções de praxe, claro.

Meu xará poderia ser roteirista de Dilbert…

Conversando com uma colega de trabalho tomei conhecimento deste termo. Como tenho verdadeira aversão a tudo que se relaciona com o ambiente corporativo (*), ignorava totalmente a sua existência. Dei uma googleada e voilà: é impressionante quão inesgotável é a fonte de bullshit dessas consultorias de recursos humanos e afins.

(*) Depois de quase 21 anos de trabalho, você fica um pouco cínico. Para cada executivo de filme Hollywood existem uns 600 milhões de Zés Manés incompetentes, cagões e obtusos, cujo objetivo de vida é conhecer os puteiros das cidades onde suas empresas possuem filiais.

Mankiw sobre Markowitz e também sobre consultorias

Markowitz era um cara racional? Esta é a pergunta que você se faz após ler isto. Cuidado, contudo. Os pterodoxos adoram usar este tipo de história como justificativa para avançar sua agenda picaretética. Funciona mais ou menos assim: “se o fulano não faz o que sua própria teoria ensina, então a teoria não presta”. Claro, estes pterodoxos não agem de acordo com as próprias teorias (basta seguir um décimo da vida de qualquer um deles), mas adoram inverter a lógica.

Como fica Markowitz? Primeiro, suas teorias, de modo algum, esgotam o tema “Finanças”. O próprio desenvolvimento de modelos microeconômicos mais avançados que incorporam comportamentos, digamos, aberrantes, mostra isto. Em outras palavras, Markowitz também é um ser humano cujo comportamento pode, em determinadas situações, refletir alguns aspectos não contemplados nos modelos dos livros-texto de graduação (que muitos pterodoxos tomam como a última palavra na teoria econômica…quanta burrice….).

Dito isto, vamos ao outro bom texto do Mankiw, um sobre consultoria e ética. Aqui o ponto é mais simples ainda. Há lá um jornalista bravo que vem me falar que Milton Friedman tem uma mancha na carreira porque deu conselhos ao General Pinochet. Eu também não gosto do Pinochet (e nem do Che, do Fidel…sou coerente), mas o que dizer de Friedman? Ele também deu conselhos a oficiais do governo chinês. E aí? Por que a bronca apenas com os conselhos ao Pinochet? Mais uma vez, o problema é o cinismo de alguns: ajudar uma ditadura que use, “marketeira e intensamente”, a palavra “social” pode. Ajudar alguém que não gosta de comunista, não, não pode não.

Ou seja, falta ética aqui, mas não é em Friedman.

O que o brasileiro diz…e o que realmente quer dizer

Sérgio Biasi continua um dos posts de maior sucesso do O Indivíduo:

Não há como resistir a tentação de dar minha contribuição à lista iniciada por Pedro…

“Você é pretensioso.” – Você ousa achar que sabe algo que eu não sei, e isso é um absurdo.
“Vamos decidir democraticamente.” – Que tal se a gente parar de discutir idéias e ao invés disso fizer um concurso de popularidade?
“Precisamos melhorar a educação no Brasil.” – Precisamos emitir mais diplomas para mais pessoas.
“Precisamos proteger o grupo XXX de discriminação.” – Precisamos criar a ilusão de que quem não der dinheiro para mim odeia o grupo XXX.
“Precisamos regulamentar a profissão XXX.” – Precisamos entravar ao máximo possível o acesso à profissão XXX para aumentar os privilégios de quem tiver autorização para exercê-la.
“Se eu deixar você fazer isso vou ter que deixar todo mundo.” – Não existe nenhum motivo coerente para esta regra existir mas eu gosto dela.
“Sua opinião também é válida.” – Vou ignorar completamente a sua opinião.
“Essas são as tendências mais modernas nos EUA e na Europa.” – Eu li na revista Veja que uma vez em 1976 alguém tentou isso no Canadá.
“Todo mundo sabe que XXX.” – Eu não faço a menor idéia de por que estou defendendo que XXX seja verdade.

E, last but not least :
“Há que se endurecer sem perder a ternura.” – Há que se perder a ternura mas sem admitir abertamente.

Humor Linguístico

Fonte: Japan Probe.

The Japanese media have reported that Chinese bloggers are talking about the striking resemblance between newly elected Prime Minister Yasuo Fukuda and a character from the anime Doraemon (…) Apparently Fukuda’s name sounds exactly like that of Doraemon’s buddy Nobita when it is read in Chinese, so it didn’t take very long for people to draw the connection between the two bespectacled boys

Não é que o Fukuda se parece mesmo com o Nobita? Será que ele também tem um Doraemon para livrá-lo das encrencas da política? ^_^

Eis aí o tipo de piada que eu gosto (eu e mais quase ninguém, he he he).

Blogosfera econômica: rápido passeio

  • Livros gratuitos de Economia e Análise na Reta em The Bayesian Heresy.
  • Bastiat (genial) citado por Rabiscos Econômicos que, aliás, também nos cita (obrigado!).
  • O Projeto de dissertação do Thomas Kang (o Fernando Zanella fez algo parecido na tese, eu acho que ainda tenho o arquivo pdf aqui no micro…).

Cubanos refugiados

Dois meses após o Pan, Brasil concede refúgio a dois atletas cubanos.

Mas esses dois não são aqueles boxeadores que o Brasil fez o “favor” de extraditar.

Ainda não consigo aceitar a idéia de que o governo “assassinou” a possibilidade dos boxeadores terem uma vida menos explorada . Por que não foi concedido refúgio para eles, se o motivo alegado pro eles foi o mesmo que o do ciclista e do jogador de handball?

Pode saber que tem o dedo do Fidel aí no meio.

Direitos de propriedade em “There she is”

Muita gente já se encantou com os dois primeiros episódios de “There She Is”. Entretanto, o autor ganhou um concurso e bolsa para fazer os novos episódios e, bem, isto significa uma mudança nos direitos de propriedade sobre os outros episódios.

Se eu fosse você, assistia logo os primeiros antes que haja alguma nova mudança. ^_^

Você tem medo de ser feliz? É porque alguns que não tiveram medo apostaram, dentre outras, em sua humilhação progressiva…

Se você se formou em alguma faculdade; se você, por acaso, aprendeu mais de um idioma; se você é um profissional liberal bem-sucedido ou ocupa um cargo elevado na empresa em que trabalha, cuidado. Esconda os seus diplomas no armário, jamais torne a usar os seus ternos sob medida e trate de comprar um carro velho ou popular. Demonstrar mérito ou ostentar sinais de prosperidade, no Brasil, agora é pecado. Essas coisas significam que você faz parte das nossas pérfidas elites e, portanto, carrega consigo grande parte da culpa pela miséria em que vive razoável parcela da população.

É curioso. Eu nunca interpretei o termo elite por um ângulo pejorativo. Ao contrário. Elite, para mim, sempre significou os melhores dentre os melhores em cada área. Há a elite dos empresários, como existe a elite dos médicos, a dos políticos ou a dos advogados. Com exceção de parcela da elite econômica, cujo patrimônio veio por hereditariedade, ninguém vem a ser reconhecido como membro de alguma elite se não demonstrar mérito, talento e empenho pessoal. São todos pessoas de peso, merecedoras da admiração geral. Ou, pelo menos, era assim até a chegada da companheirada ao poder, há quase cinco anos.

Confesso que não me surpreendi com essa total inversão de valores. Quando cursava a faculdade, em meados dos anos 1970, um dos mitos mais caros do pensamento esquerdista era o que pregava que todas as mazelas do Brasil eram culpa exclusiva de suas execráveis elites. O povo em geral, os cidadãos humildes, era puro de alma, solidário por natureza e sempre pronto a empenhar o melhor de si em prol da coletividade. Mas ele não tinha chance de fazê-lo porque as elites, egoístas e gananciosas, não lhe davam oportunidade. É mais ou menos a forma como os marxistas tradicionais idealizavam a classe burguesa. Elimine-se a burguesia e os seus valores, e a sociedade, quase que naturalmente, se tornará justa, fraterna, cooperativa e voltada para o bem comum.

Clique aqui e leia o restante do texto. Acho que Mises é quem fez a denúncia, pela primeira vez, sobre o comportamento bem pouco ético (e bem invejoso) dos “intelectuais”. João Mellão Neto, autor do texto acima, é um escritor talentoso: resumiu bem o problema da desonesta argumentação que pretende condenar o mérito de qualquer pessoa tentando dar à palavra “mérito” ou a à palavra “sucesso pessoal” uma conotação pejorativa.

Engraçado que se for um operário que diz ser deficiente porque perdeu meio dedo que vira presidente, não há quem não faça campanha midiática salientando o sucesso do dito cujo. Ao mesmo tempo, o sucesso alheio é tido como um pecado de 500 anos de herança maldita ou outras bobagens que fazem corar qualquer sujeito decente, por mais não-liberal que ele seja…

A desonestidade do econometrista

Uma preocupação pertinente de muita gente diz respeito à seriedade da pesquisa acadêmica. No caso de artigos que aplicam Econometria, é importante que os autores disponibilizem a base de dados utilizada para que outros possam replicar seus resultados.

Este tipo de procedimento já é comum no mundo desenvolvido, embora esteja, sim, sujeito a críticas e imperfeições, como mostra este artigo. O que me deixa curioso: por que isto ainda não é prática no Brasil? Provavelmente há muita desonestidade por aqui e temos pouca gente qualificada para replicar algumas regressões, embora a situação tenha melhorado nos últimos anos (mais gente faz Ph.D fora, volta, etc).

Não é incomum ouvirmos denúncias de trabalhos econométricos feitos por alunos desesperados por pontos recheados de dados “inventados”. Por que duvidar que alguns de seus “professores” façam o mesmo? Com a seriedade que qualquer método científico é visto no Brasil, eu não duvidaria que temos sérios problemas.

Aliás, aqui vai um resumo do argumento pterodoxo (para justificar a picaretagem):

  1. Econometria é um método que envolve Estatística (= o cara não pode ser tão burro a ponto de não saber disto).
  2. A realidade é muito mais complexa (= se assim o é, como o sujeito sabe onde está a complexidade? É um mistério, não? O sujeito deve ser um semi-deus. Talvez os econometristas sejam tão burros que não percebam esta iluminada observação que, na verdade, saiu de dentro de uma privada…).
  3. Logo, a Econometria e a Estatística são inferiores à minha verborragia (= li Monteiro Lobato e uso mais “entrementes” que você, logo, sou bonzão e você é nerd).
  4. Assim, se eu tiver que ler um artigo com Econometria, não lhe darei a mínima importância (= vou ignorar o que não sei porque sou preguiçoso demais para estudar).
  5. Mais ainda, serei conivente com a picaretagem com os dados porque, como já disse, Econometria não capta toda realidade ( = já que sou estúpido o bastante para não aprender a usar Econometria como se deve, vou incentivar a desmoralização do método, assim todos serão leitores de meus artigos verborrágicos).

Simples assim. Quer criticar o método? Aprenda-o antes e depois critique. Fácil, né?

Caplan sobre o viés e tudo o mais

You can hardly teach economics without bumping into these biases. Students of economics are not blank slates for their teachers to write on. They arrive with strong prejudices. They underestimate the benefits of markets. They underestimate the benefits of dealing with foreigners. They underestimate the benefits of conserving labor. They underestimate the performance of the economy. And in doing all that underestimating, they overestimate both the need for the government to solve these purported problems and the likely efficacy of its solutions.

Vale a pena ler todo o artigo.

Economia oculta

Quanto gira na economia por conta da corrupção ou da economia “paralela”, “informal”, enfim, aquilo que chamamos de shadow economy? Para o Brasil, entre 1999 e 2000, girava em torno de 39.8% do PIB. Já em 2004-2005, este número pulou para 41.8%. Se você parar para analisar os dados, verá que nossa carga tributária é quase uma irmã gêmea de nossa economia oculta.

Obviamente, eu acho que seria bem interessante verificar o quanto a intervenção governamental gera de economia oculta. Mais ainda, eu aposto que economias que seguem o padrão “primeiro gastar para depois tributar” devem ser as que apresentam maiores parcelas ocultas do PIB.

E você, o que acha?