Uncategorized

Ainda sobre a crise

Você não precisa ser austríaco para explicar a crise.

Claro, o interessante é saber qual teoria gera proposições testáveis (sim, austríacos modernos usam econometria, como se pode notar nos mais recentes números da famosa Review of Austrian Economics, a despeito de alguns mais raivosos…) e o que os testes nos dizem sobre as teorias.

Independente de tudo, o “post” acima “linkado” vale a leitura. Há uma boa resenha de teorias sobre o tema. Aposto que muito jornalista espertinho vai plagiar e não vai citar a fonte (será?).

A propósito, eu me lembrei que um bom crítico dos austríacos é Bryan Caplan. Atualmente, eu me pergunto sobre porque um austríaco não aceitaria substituir o conceito de “ignorância radical” pela “caplaniana” irracionalidade racional…

Claudio
p.s. nada contra jornalistas não-espertinhos, mas já não é de hoje que ouço boatos de jornalistas brasileiros que fazem isto. Se verdadeiros, claro, lamentável e feio, muito feio.

2 comentários em “Ainda sobre a crise

  1. Claudião, seria abusar da sua paciência pedir para você explicar – como se falasse para o seu filho de seis anos – aquele imbróglio de “segunda derivada” em que se meteu o Nassif?
    obrigadão

  2. Esse tal de Bryan Caplan meteu os pés pelas mãos em alguns conceitos. Talvez isso se deva a ele ler muito Rothbard e pouco Mises. O primeiro tem ótimas análises sociológicas, culturais e históricas. Mas para hard economics, acho que o Mises é, em geral, superior.

    A escala de valores não é de forma alguma semelhante à função de utilidade. Não pela ordinalidade/cardinalidade, mas por sua própria função na ciência. A escala é uma construção totalmente a posteriori, e não é usada para se descobrir nada. Não tem nem valor preditivo e nem valor como explicação real da mente humana. É uma mera construção teórica para visualizarmos um pouco algo sobre a decisão humana; facilita que um iniciante veja o que está em jogo, assim como curvas de oferta e demanda, mas não tem muito valor científico.

    Afinal, não é a partir da escala de preferências que se prevê o que o indivíduo fará. É a partir das escolhas do indivíduo que se constrói para ele uma escala de preferências, de forma a representá-las. E ela é só isso: representação das escolhas feitas na realidade.

    Mises é claro quanto às curvas de oferta e demanda: são úteis para graduandos visualizar melhor uma realidade, nada mais. Nada adicionam ao entendimento do cientista, e nem é possível ter conhecimento de “curvas reais” (temos só, como Caplan diz, o ponto atual).

    O ponto sobre a indiferença me parece crucial, e é uma das questões mais centrais da filosofia da ação humana desde a Antigüidade e a Idade Média. Se um burro com fome vê dois montes de feno idênticos a iguais distâncias, como escolher um ou outro? Esse problema nos levaria longe. Mises é superior aos neoclássicos em levar isso em conta. A ação só é inteligível quando o que está em jogo é uma preferência, e não uma indiferença. E a economia trata de ações.

    Quanto a preferências que não alterem as escolhas, Mises antecipou Caplan. Segundo ele, há duas condições para uma ação: a preferência de um estado de coisas sobre outro e um juízo sobre quais meios permitem levar-nos ao estado preferível.
    Se eu sei que o mundo acabará em 5 segundos e não veja nada que possa fazer, isso obviamente não me levará a agir. Assim como minha preferência por ter tomado mais sorvete na infância. Se eu achar que existe um meio de alterar o passado (mágica, máquina do tempo), daí estarei em condições de agir sobre tal preferência.

    Quando um economista fala de preferências, ele não tem em mente as escolhas abstratas de um teórico em sua sala, ou de um sonhador em seu quarto; mas sim aquilo que as pessoas de fato revelam preferir com suas ações concretas (nunca o que elas pensam ou, menos ainda, o que dizem! – o que uma pessoa diz revela apenas o que ela prefere dizer, e não o que ela preferiria de fato se encarasse a decisão concreta).

    Não quero me estender demais. Só queria mostrar que, ponto por ponto, há muito o que se debater nesse texto do Caplan.

    Uma última observação: ele fala de grandes avanços e progressos do neoclassicismo. Não os nego (embora o Human Action e outras obras do Mises contenham mais antecipações de “avanços” neoclássicos do que se presume).

    Quero só lembrar dois pontos: os grandes retrocessos que o neoclassicismo provocou na ciência (o caos geral instalado – economia reduzida a “modelos” soltos, mutuamente excludentes e arbitrários; a incomunicabilidade de seus resultados; o fim da tentativa de entender o mercado, tendo em vista apenas prevê-lo).
    E segundo: a economia, na abordagem austríaca, é uma ciência dedutiva. O mero trabalho repetitivo de um pesquisador de departamento nada pode acrescentar a ela. Assim, não é de se esperar muitos pequenos avanços marginais nela. Avanços significativos, novas descobertas, dependem de insights de “gênios”, de descobertas de novos ramos a ser deduzidos e aplicação dela em diferentes realidades.
    Um exemplo interessante (altamente polêmico também!) é o trabalho de Hans-Hermann Hoppe, analisando a democracia e comparando-a com a monarquia, com a análise econômica.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s