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A economia política dos critérios “ad hoc”

Quantas vezes você já ouviu falar de critérios “ad hoc” sendo adotados em avaliações de burocratas? Um bocado, certo? A questão é: será que critérios como este se justificam?

O Adolfo Sacshida, excelente economista, está bem nervoso com o resultado (não-oficial?) da CAPES em relação às notas dos centros de pós-graduação. Honestamente? Eu não faria reparos ao que ele disse.

Mas há outro ponto importante, parte do mesmo problema. Trata-se da economia política que guia as ações dos burocratas da área do ensino superior de economia.

Meu exemplo é bem simples. Há uma classificação de periódicos científicos nacionais e internacionais que todas as áreas (ou quase todas) possuem, determinada pela CAPES. Chama-se “Qualis”. Aliás, é determinada pelo povo da CAPES em conjunto com representantes de cada centro de pós-graduação. Em economia, antigamente, este qualis era bem mais restrito, com alguns poucos periódicos “A” (os melhores, digamos assim), outros “B” e outros “C”. Em resumo: publicar em um periódico “A” tinha, realmente, um valor elevado já que, em qualquer critério de classificação decente, nunca existirá abundância de “excelentes”…

Aqui há uma parte da narrativa que eu não conheço muito bem. A boataria é que havia um problema que era a lista de periódicos não ser divulgada. Ou seja, alguns notáveis, sim, carregavam suas cópias para seus gabinetes, divulgavam para seus amigos e os outros tinham que adivinhar as regras do jogo para serem bem avaliados pela CAPES. O que contam é que algum sujeito decente teria “vazado” a lista e, graças a isto, muitos pesquisadores puderam se guiar pelos critérios, até então fadados ao conhecimento de poucos, da CAPES para publicarem.

Com ou sem boatos, de lá para cá, vários pesquisadores – no mundo todo – aperfeiçoaram os métodos de avaliação de impacto de periódicos na ciência. No Brasil, para citar uns poucos, temos o João V. Issler da EPGE e o João R. Faria (brasileiro, mas sempre fora do país, atualmente na Inglaterra ou a caminho da mesma, de mala e cuia). Há, na bibliografia dos artigos destes dois autores sobre o tema, uma infinidade de métodos para se escolher uma nova classificação para os periódicos que deveriam guiar a posição dos cientistas econômicos brasileiros no mundo.

Eu disse “deveriam”? Sim. Mesmo com toda esta papelada de estudos sobre impactos, nada foi feito pelos colegas da CAPES. Eu disse “nada”? Peço desculpas: algo foi feito sim: o Qualis foi alterado e muitos periódicos passaram a ser “A”, um outro tanto virou “B”, etc. Ou seja, os critérios para a “excelência” ficaram mais frouxos, já que agora, digamos, há muito mais periódicos “A” do que antes (exemplo: você realmente acha que Economic Letters e Econometrica são a mesma coisa?). Sob qual critério foi feita esta alteração? Aí é que está: nenhum dos mencionados na literatura estudada. Um simples critério “ad hoc”.

Por que um critério “ad hoc” é adotado quando há tantas opções mais sofisticadas, cientificamente avançadas? Uma possível resposta é que os formuladores dos critérios não tiveram tempo ou habilidade para formular um critério alinhado com o que se faz no resto do mundo. Acho esta resposta ruim, mas pior ainda é pensar que o critério “ad hoc” é uma solução política muito boa: agrada gregos e troianos ao mesmo tempo que constrói uma base de apoio político a uma avaliação de excelência, digamos, meia-boca.

Adolfo, hoje, levantou uma discussão muito importante, pois diz respeito à qualidade da pesquisa científica no Brasil. Mérito há, sempre, em se levantar esta bola e talvez seja importante refletir sobre um real aperfeiçoamento dos critérios que se estabelece para avaliação de pesquisadores.

Não adianta fugir, certo?

Claudio

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O analfabetismo funcional em economia

Eis um mal que tem que ser extirpado. Em sala de aula, a gente tenta resolver o problema. Mas para os que escaparam do ciclo virtuoso do conhecimento, existe a blogosfera.

O Leo tem uma coleção muito boa aqui.

Sempre que acho algo muito imbecil, eu mando para ele. Espero nunca estar lá, mas é um bom exercício para alunos de Economia. Há, inclusive, gente famosa que, ao ser pego com as calças na mão, chega até a fazer chantagem (sim, já vi isto) para tentar se livrar. Ou então escreve textos mais confusos ainda, na esperança de que um leitor sério se canse e pare de ler no meio.

Isto é algo em que, talvez, eu concorde com a propaganda do Estadão. Só que, lembro, tem jornalista que perde o emprego e cria um blog. Ou seja, o cara carrega a fama (ruim, para os entendidos) do jornal e tenta seu próprio boteco. A má qualidade foi criada no jornal e, agora, polui a blogosfera. Este é um ponto que a propaganda do Estadão, infelizmente, não trabalha.

Claudio

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E o gasto público sobe

Um grande trem da alegria está pronto para ser votado na Câmara. Ele pode proporcionar estabilidade a servidores que atualmente são passíveis de demissão e transformar em funcionários públicos efetivos trabalhadores temporários que não foram submetidos a concurso público. Permite ainda que servidores requisitados de Estados e municípios para trabalhar na área federal sejam efetivados em suas funções. A estimativa é de que, no primeiro caso, 60 mil servidores no governo federal ganhem estabilidade e, no segundo, cerca de 200 mil temporários sejam beneficiados. Não há cálculo preciso quanto ao número de requisitados de Estados e municípios favorecidos. A proposta deve ir a votação em breve.

Relaxa e goza.

Claudio
p.s. Estou realmente pagando para ver se a oposição fará o que é mais sensato quanto às forças perpetuadoras, mantenedoras e aceleradoras da carga tributária, para parafrasear um certo economista…

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Lembrando Adam Smith

Adam Smith disse, uma vez, algo assim: “se você vir um bocado de empresários reunidos, cuidado, estão tramando algo contra você”.

Pensando nos dias de hoje, bem que se poderia dizer: “se você vir um bocado de empresários reunidos, com um monte de políticos pendurados em suas barras das calças, cuidado, é imposto certo para salvar incompetente da falência”.

Adam Smith, aposto, não diria outra coisa. Ah, o rent-seeking…

Claudio

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O silêncio dos surdo-mudos

Fala-se muito em “reestatização” – boato espalhado como balão de ensaios na onda da discussão sobre a incompetência da ANAC. A notícia é que estatais continuam sendo monstrengos bem ineficientes por aí.

Já falei sobre esta história de agências aqui. O governo atual nunca lhes foi simpático. Nomear pessoas sem experiência para a presidência de uma agência – como se fala por aí, à boca não tão pequena assim, no caso da ANAC – é o primeiro passo para, posteriormente, fingir um “errei aqui, olha só no que deu, vamos reestatizar”.

Claro, não faltam palavras bonitas, termos técnicos e uma cara-de-pau muito grande de alguns membros da administração da Silva. Temos, sim, nosso Karl Rove, Wolfowitz, etc. Tem gente que gosta de procurar isto nos EUA, mas deveria ser mais crítico quanto a isto aqui. Entendo isto como indesejável rabo preso – talvez indesejado – de alguns blogueiros que, empregados no governo, não podem se arriscar a perder o cargo (e o trabalho) com fortes críticas.

Mas não é nada que não se perceba no ar.

Claudio

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