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Neoclássicos, Austríacos e uma batata frita

O William fez uma pergunta que (acho) eu consigo responder, mesmo que com as usuais limitações de tempo e espaço. Vamos ao comentário dele.

Então, Cláudio, se tiver tempo, por favor, responda se, além da óbvia discordância anarco-capitalista, é unânime alguma dessas proposições: 1° a intervenção é necessária para corrigir falhas de mercado; 2° tal intervenção deve ser promovida pelo estado.”

Lembrando, para quem não tenha lido o comentário lá, que pergunto porque ouvi em aula de Direito Econômico na FDUSP uma petição de princípio que não conseguiu minha imediata adesão: até os neoclássicos –ditos o extremo oposto aos comunistas– reconhecem que a intervenção do Estado é necessária para corrigir as falhas de mercado. Lembrando que há formas de regulação voluntária que solucionariam muitos dos problemas de acesso à informação e muitas externalidades nocivas, pergunto se há tal unanimidade entre neoclássicos ou entre qualquer corrente liberal sobre a necessidade de intervenção.

Na história do pensamento econômico há um momento específico no qual houve um debate muito interessante, o do cálculo econômico no socialismo. Resumir isto é difícil, mas vamos lá.

No pós-guerra, gente séria na URSS percebeu que marxismo não dava caldo na hora de se tomar decisões. Quem leu o famoso compêndio (traduzido pela Zahar, nos anos 60/70) de Alec Nove conhece a história das lâmpadas que mais parece uma piada. Em resumo, como não se usava preços (algo burguês para os radicais inimigos da lógica econômica), uma mudança no pedido de lâmpadas era sempre feito em tonelagem. Moral da piada: os caras, após anos de pedidos idênticos, produziram o mesmo número de lâmpadas, quando do pedido distinto, só que mais pesadas.

Piadas à parte, o problema suscitou uma tentativa de economistas soviéticos de reintroduzirem preços no cálculo econômico de uma economia planificada. Oskar Lange, Kantorovich e outros tentaram uma resposta. Basicamente, a idéia era construir um sistema de equações (um equilíbrio geral em sua forma primitiva: a matriz de insumo-produto) para, na então chamada “nova era cibernética” (hoje diríamos: “com o uso de um computador”), calcular preços e quantidades…opa, opa…não dá para achar ambas assim.

Este era o ponto. Que preços usar para se calcular as quantidades? Os economistas neoclássicos (estes sim, neoclássicos) disseram: simples, você chuta aí um preço inicial “razoável” sob algum critério e manda ver. Economistas neoclássicos são gente como Paul Samuelson, ou seja, caras que traduziram a intervenção governamental proposta por Keynes em um arcabouço teórico escrito em linguagem matemática (pense no modelo IS-LM dos livros de macroeconomia) e, assim, sentiam-se confortáveis em defender algum planejamento na economia. Há quem diga que ao longo dos anos o mais famoso livro de introdução à economia do mundo – o do próprio Samuelson – foi se tornando menos otimista em relação ao planejamento econômico soviético. Ou seja, é difícil imaginar que um neoclássico seja o extremo oposto de um “comunista”. Está mais para um primo reformista (ou bernsteiniano).

Ok, esta é uma parte da história. Muitos vêem na resposta neoclássica o fim do embate. Mas não é bem assim. Hayek e Mises, economistas não-comunistas e bem liberais apontaram um problema sério nesta proposta porque preços refletem custos de oportunidade e estes, por sua vez, possuem um componente explícito (objetivo) mas também um forte componente implícito (subjetivo). Logo, “chutar” um preço é uma loucura porque você pode simular uma economia que não corresponde à que você tem na realidade.

Então, em resumo, na taxionomia mais tradicional, dizer que um sujeito é neoclássico ou keynesiano não é algo muito distinto. Há aí uma dicotomia muito pouco significativa. Nada tem a ver com posições ideológicas, a princípio. Já um austríaco, como Mises e Hayek são bem mais liberais e com uma metodologia algo diferente de ambos “comunistas” e “neoclássicos”.

A história se complica, claro, se pensarmos em mais detalhes da evolução do pensamento econômico. Não tenha dúvida disto. Um sujeito pode ser liberal e neoclássico? Pode se ele não for anarco-capitalista ou minarquista. É uma questão de grau. Eu tenho minhas suspeitas se Paul Samuelson não foi mais “soviético” do que pareceu, em início de carreira. Milton Friedman é liberal? É. É neoclássico? Em certa medida, é. Afinal, para ele a política monetária e a política fiscal tinham sua função – embora ele se diferencie de muita gente (que sempre confunde isto) – porque sempre, mas sempre mesmo disse que a política monetária não deveria ser usada para gerar crescimento econômico. Uma leitura bem superficial de qualquer livro-texto de macroeconomia não é capaz de mostrar isto ao leitor. Não é à toa que tantos falem coisas esquisitas.

Muita macroeconomia e pouca microeconomia, certo? E William fala de externalidades. Pois é. Ninguém usa “neoclássico” em microeconomia, exceto aqueles que preferem debates teológicos sobre “uma outra microeconomia é possível (e esta deve ser jogada no lixo)”. Outros, claro, usam isto porque não conhecem tanto de pensamento econômico. Não é que todos tenham que usar a nomenclatura correta 100% do tempo. Há graus e graus de discussão, mas a escolha dos termos mostra um pouco do que você pretende ensinar e/ou doutrinar. Eu costumo brincar que keynesiano, para mim, é comunista. Não é mais que uma brincadeira mas há gente que diz isto seriamente o que é, aí sim, um exagero e uma desrespeito com a história de muito keynesiano capitalista (ou muito comunista marxista).

Em relação às externalidades, o que eu percebo é uma visão totalmente integrada na literatura econômica (pode chamar de neoclássica se quiser) na qual há soluções coasianas e pigouvianas que seriam o equivalente de “menos/mais” intervencionistas na situação na qual se analisa a externalidade. Você pode dar nomes mais carregados de ideologia para 0% e 100% mas, neste caso, acho que é uma distinção exagerada.

Claro que eu prefiro uma solução com menos intervenção. Mas preferir é uma coisa, poder resolver do jeito que prefiro é outra. Agora, fato é que existem muitas evidências de soluções de problemas de externalidades sem intervenção governamental e, estas, os mais chegados na doutrinação (e menos na educação) costumam esconder dos alunos. Não digo, de forma alguma, que é o caso do William. Longe de mim tomar uma frase solta e trabalhar fora do contexto. Mas é que eu já vi gente fazer isto perto de mim.

Enfim, uma longa resposta. Espero que não seja tão confusa quanto começo a achar que ficou…

Agora sim, à batata frita.

Claudio
p.s. Fabio, André, Ari…palpites?

Um comentário em “Neoclássicos, Austríacos e uma batata frita

  1. Cláudio, fico muito grato pela resposta. Perfeitamente inteligível: até para quem, como eu, não estuda economia.
    Entendo perfeitamente que você não faça mais considerações a partir de uma só frase. Até evitei dizer o nome do professor justamente para não causar mais incômodo. Mas, durante toda a aula, os termos que foram usados para dar nome às posições opostas foram “marxistas” e “neoclássicos”, sempre com a observação de que esses eram os “extremos opostos”. O resto da aula também foi pela mesma linha… Parece que será um semestre longo.

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