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Das normas sociais em situações de conflito

Então você está em pleno século XI, no Japão feudal, em meio a mais uma rotineira matança entre exércitos. Nada mais natural. Eis que um dos exércitos perde e seu chefe, Sadato, dá no pé. O general inimigo sai em seu encalço e, segundo o livro citado, ao correr, gritava ao senhor Sadato:

“É uma desonra para um guerreiro virar as costas ao inimigo!”

Nisto, o fujão fica bravo, pára o cavalo e recita, de improviso:

“Rasgado em pedaços está o tecido do vestuário!”

Ao que, imediatamente, o outro responde:

“Desde o momento em que o tempo deteriorou os fios com o uso.”

Depois desta breve paráfrase (senão eu não resumiria isto), eu cito:

Yoshii, que mantivera o arco retesado para atirar, relaxou-o de repente e deu meia volta para regressar, deixando ir embora tranquilamente aquele que se aprestara para matar.

Ao perguntarem-lhe o motivo de tão singular conduta, respondeu que não tinha a coragem de cobrir de vergonha um homem que era capaz de manter a presença de espírito mesmo quando estava a ser acossado de perto pelo inimigo. [Edmond Rochedieu, “Xintoísmo”, Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 1982, p.167]

Que lição tirar disto? Primeiro, pode-se pensar que o capital humano faz toda a diferença em batalhas de samurais, já que generais costumavam ser mais educados do que a peãozada japonesa que mal sabia ler ou escrever. Outra lição é que, em algum momento da história, em um lugar totalmente distinto, também havia a tentativa de se dar bem através da boa lábia (e não falo do Brasil!).

De qualquer forma, lamento que a guerra civil que se trava no Brasil hoje não tenha, pelo menos, externalidades poéticas. Terroristas que invadem usinas, gangues de criminosos, invasores de propriedades alheias, foras-da-lei amigos de políticos que riscam o seu carro nas ruas…nenhum deles é capaz de deixar mais que uma pichação incompreensível nos muros, reflexo da própria confusão mental.

Há sempre o bom grafite, mas este já não faz parte dos tempos de guerra…

Claudio
p.s. Eu aposto que o Leo Monasterio iria me dizer: “Claudio, se você acha que admiramos este modo poético de ver a vida, de forma geral, é reflexo de algum processo evolutivo, então….(aqui o Leo completa com uma breve discussão sobre o processo evolutivo de normas sociais…eis uma agenda de pesquisas interessante).

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Um comentário em “Das normas sociais em situações de conflito

  1. Rs Rs…
    Cara, o que vc narrou tem paralelo com outra coisa que estou encafifado. Nas duas últimas semanas assisti Othelo e Mercador de Veneza, em versoes bem ortodoxas. Claro que tem a dificuldade do Ingles antigo, mas mesmo assin, as contruções sao bem complicadas. Pelo que sei, Shakespeare era preocupadissimo com o publico pagante e se esforcava para agradar o espectador médio da época, ou seja, um analfabeto de pai e mãe. Serah que eles entendiam a peça? Se entendiam, a pergunta eh: pq essa capacidade se perdeu?

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