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Outra boa pergunta do David Friedman: O “puzzle” dos restaurantes

Primeiro, para os empreendedores tipo-Z (os piores da classe), não basta dizer “puzzle” com a boca cheia e ar de empáfia para que você entenda do assunto. Hoje em dia, a selva está cheia de gente assim, que acha que é só construir uma frase com “sujeito + verbo + object” que já é um gênio da raça.

Feito o alerta anti-arrogância (sim, estou irritado hoje), vamos ao que interessa, reproduzido na íntegra:

A restaurant provides me with two different products: Food and a place to eat it. Both are valuable to me, both are costly to the restaurant. Yet restaurants price only the food. The table is free, however long you use it. Why?

To see the puzzle, consider how a restaurant designed by an economist might operate. At each table there is a clock; it starts running when you sit down and the waiter shows up to take your order. When you get your bill, one of the items is table rental, proportional to the number of seats at the table and the length of time for which you used them.

The advantage of this approach is that it can be used to give diners the right incentives on both margins. Diners who want to spend an hour and a half in conversation are free to do so, with no dirty looks from the waiters—but they will pay for the privilege. Under current circumstances they are imposing a cost on the restaurant and the patrons waiting to be served and, social pressure aside, have no incentive to take account of that cost in deciding whether or not to move the conversation to some less costly space, perhaps someone’s living room.

Since the restaurant is recovering part of its cost from table rentals, the price of its food can be correspondingly lower; patrons will not be discouraged from getting soup or salad by the fact that their price is higher than the actual cost of producing them by the full amount needed to pay the restaurant’s fixed costs. Economist readers should be able to fill in the argument for themselves. It is the usual argument in favor of using prices as incentives to make it in the interest of individuals to take proper account of the costs and benefits of their choices.

I have, of course, oversimplified a bit. When a restaurant is half empty, the marginal cost to it of my sitting at the table is essentially zero. So a restaurant run its table clocks only during the hours when it expects to be operating at capacity. That will give diners who like leisurely conversation an incentive to try to fit their conversational meals into the times when they do not impose costs on others.

It’s easy to imagine special reasons why a restaurant would not adopt such a policy. Perhaps it almost never operates at capacity. Perhaps the nuisance of keeping track of table time is greater than the gains. Perhaps a clock at the table would interfere with the aesthetic experience of fine dining for its patrons.

Each of these reasons would apply to only some restaurants. So we would expect to observe a world in which some restaurants priced only the food, some priced only the table and gave away the food—all you can eat buffets come close, although they charge a fixed price for the table, not a price per minute—and some priced both. Yet, so far as I know, no restaurant follows what I have just argued is the most natural and obvious pricing strategy, separately pricing food and table rental.

Which is the puzzle.

A pergunta é boa. Comentários? Nenhum? Sabe que esta é uma boa questão para um exame de Economia? Um método de estimular o raciocínio é valorizá-lo. Esta questão, na minha opinião, faz exatamente isto.

Se você quer lecionar e realmente fazer seu aluno pensar, o ideal seria ter sempre questões na prova constituídas de um texto como este e uma única questão: “desenvolva um modelo microeconômico – desde as hipóteses até os principais resultados – que explique a questão central do texto”.

Aquele que “ensina” o sujeito dizendo-lhe que basta decorar que já é um ser inteligente (e passa-lhe a mão na cabeçinha) criam uma geração futura com baixo capital humano. Os que estimulam o raciocíno, não. Este é o ponto importante do ensino, quer se goste dele ou não. A média dos alunos não gostam por motivos óbvios…que são os mesmos pelos quais os professores, em média, também não gostam. Há ainda o problema dos incentivos que uma escola oferece aos professores e alunos para que sejam adeptos do uso do raciocínio (não confundir isto com picaretagens que existem por aí). Incentivos são importantes, porque perguntas inteligentes não nascem em árvores e nem caem do céu: é preciso tempo para pesquisa e análise, um fator geralmente escasso nas faculdades da selva (públicas e privadas).

Mudando um pouco de assunto, David Friedman é um sujeito extremamente sagaz (filho do Milton Friedman, para quem não sabe) e sempre tem perguntas muito interessantes sobre aspectos econômicos da vida. Quer trucar um sabichão? Pergunte-lhe sobre este “puzzle”. Ele não saberá responder. Conheço pouca gente que arriscaria cinco minutos de seu tempo, pelo menos, para discutir este problema de forma sincera (não apenas para se fazer passar por um sujeito inteligente). Se você encontrar um destes, converse mais com ele.

Eu vou pensar neste “puzzle” ao longo da viagem que farei hoje, entre uma leitura e outra.

Claudio

3 comentários em “Outra boa pergunta do David Friedman: O “puzzle” dos restaurantes

  1. Meus caros,
    Este “puzzle” é ótimo, mas tenho dois comentários:
    1- A idéia que os restaurantes quase nunca estão cheios (daí o custo oportunidade do espaço ser zero) é errada. Em horários de pico (principalmente almoço), normalmente temos que esperar (outro “puzzle”, mas este é mais famoso, por que os restaurantes têm filas? Por que eles não ajustam isto com maiores preços?).
    2- Explicações a la o custo de cobrar é maior que o benefício são tautológicas e, portanto, não servem. Este ponto é para os alunos. Um bom modelo deve conseguir explicar isto sem utilização de custos e benefícios “ad hoc”. A não cobrança pelo espaço deve surgir endogenamente no modelo, não ser gerada exogenamente com algum parâmetro exógeno ad hoc de custo ou benefício associado a esta ação específica.
    Um grande abraço,
    (outro) Claudio
    PS: Não sei se já tiveram esta experiência. Suponha que, por algum motivo, você têm o dia livre, mesmo não sendo feriado e decida tomar uma cerveja, antes do almoço, em algum lugar do Centro, lendo um jornalzinho (passatempo que adoro fazer quando posso). Não falo tomar muitas cervejas. Só uma. Gasta em torno de 30, 40 minutos (com o Estadão e algum jornal local para ler as notícias do CRUZEIRÃO). É virtualmente impossível achar algum lugar para fazer isto. Todos os restaurantes e bares utilizam seus serviços na oferta de refeições, não tendo lugar para alguém que só vai tomar a cerveja.

  2. No Brasil, não há puzzle. O restaurante que fizesse isso ia ser acusado de “venda casada”, multado e obrigado a ou parar de cobrar a comida, ou parar de cobrar a mesa, ou deixar que as pessoas levassem comida de casa e pagassem só a mesa.

  3. Eu lembro daquele trecho do “Undercover Economist” onde ele fala sobre a tentativa dos restaurantes de “penalizar” estadas mais longas cobrando mais caros por produtos que sinalizem isso. Daí uma dose de whisky custar quase o preço de meia garrafa e coisas do tipo.

    Se o preço da comida embute o “preço da mesa” os restaurantes que também entregam em casa ou vendem “para viagem” não deveriam ter uma tabela de preços diferenciada? Um restaurante aqui no Rio dá um baita descontão para pedidos (compre uma pizza e leve duas, compre uma massa e leve duas, etc.) mas não sei dos outros.

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