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Gregório de Matos, o neoliberal antiquado

Outro dia, num momento de fraqueza, deixei de ir a um boteco e fui a um museu, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Foi uma das poucas vezes em que não me arrependi da decisão não-usual…

A música que fizeram com este poema (abaixo) do Boca do Inferno ficou muito, mas muito boa. Deveria ser hino de passeata de gente que protesta contra aumento de impostos e pede por mais liberdade.

Epigrama

Gregório de Mattos e Guerra

Que falta nesta cidade?… Verdade. Que mais por sua desonra?… Honra. Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.

O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Numa cidade onde falta Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?… Negócio. Quem causa tal perdição?… Ambição. E no meio desta loucura?… Usura.

Notável desaventura De um povo néscio e sandeu, Que não sabe que perdeu Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?… Pretos. Tem outros bens mais maciços?… Mestiços. Quais destes lhe são mais gratos?… Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos, Dou ao Demo o povo asnal, Que estima por cabedal, Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?… Meirinhos. Quem faz as farinhas tardas?… Guardas. Quem as tem nos aposentos?… Sargentos.

Os círios lá vem aos centos, E a terra fica esfaimando, Porque os vão atravessando Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?… Bastarda. É grátis distribuída?… Vendida. Que tem, que a todos assusta?… Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça. Que anda a Justiça na praça Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?… Simonia. E pelos membros da Igreja?… Inveja. Cuidei que mais se lhe punha?… Unha

Sazonada caramunha, Enfim, que na Santa Sé O que mais se pratica é Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?… Freiras. Em que ocupam os serões?… Sermões. Não se ocupam em disputas?… Putas.

Com palavras dissolutas Me concluo na verdade, Que as lidas todas de um frade São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?… Baixou. E o dinheiro se extinguiu?… Subiu. Logo já convalesceu?… Morreu.

À Bahia aconteceu O que a um doente acontece: Cai na cama, e o mal cresce, Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?… Não pode. Pois não tem todo o poder?… Não quer. É que o Governo a convence?… Não vence.

Quem haverá que tal pense, Que uma câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, não vence.

Peguei lá na Wikipedia.

Claudio

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