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Capitalismo e um Jornalista que Sabe o que Fala

Mario Covas falava em “choque” de capitalismo. Como assim, choque? Parece que o capitalismo é algo que se transmite de forma dolorosa e passageira. Fernando Henrique Cardoso volta e meia diz que o problema do capitalismo é que ele produz desigualdade social. Bem, até onde se sabe, foi nos países capitalistas que mais se conseguiu reduzir a pobreza. Mesmo José Serra, com seu ideário neokeynesiano – ainda que Keynes tenha sido sempre um defensor do capitalismo –, não parece assimilar o dinamismo e a internacionalização do mercado atual, como quando propôs uma “lei de responsabilidade cambial”. Não espanta que nos oito anos de governo tucano, apesar das privatizações e da política monetária, o Estado brasileiro tenha seguido firme em sua trajetória de inchaço, que arrocha em especial a produtividade e a classe média.

O problema, claro, não é só dos tucanos. É também de seus imitadores da hora, os petistas lulistas, que igualmente apostam todas as fichas na parelha entre tecnocracia (cautela excessiva na política de juros, superávit primário à custa do congelamento de verbas, etc.) e o que se poderia chamar de afetocracia (a política social que dá mais ênfase à mesada que ao emprego). Imitadores quase sempre são piores que seus modelos, mas, no fim das contas, o Brasil segue no balanço do aumento contínuo de impostos com a lenta melhora de índices sociais. O Estado gasta tudo em juros, pensões e assistencialismo; enquanto isso, as estradas federais, ao contrário das privatizadas, batem recorde no número de mortes durante os feriados de fim de ano. O governo FHC IV – ou Lula II – acaba de começar e já está condenado à mesma equação. Na verdade, não sabe e nem consegue destravar o crescimento do PIB.

Há um anseio mais ou menos generalizado por uma vaga social-democracia tupiniquim, o que é a melhor explicação para a continuidade de Lula no poder. Mas na hora de bolar e executar idéias ninguém sabe direito o que ela seria. A social-democracia propriamente dita, dos países escandinavos, funciona com cargas tributárias de 40% ou até mais, mas eles são capitalistas em todos os sentidos: são as economias mais abertas do mundo e não fazem obstáculo aos investimentos financeiros. Só que, por serem nações pequenas, instruídas e homogêneas, conseguiram organizar melhor os serviços sociais, sem fazer distinções entre “elite” e “necessitados”. O Estado não é uma mãe; é uma instituição, tão impessoal e eficiente quanto possível. A social-democracia brasileira, que cobra mais impostos do que os países mais ricos do mundo, EUA e Japão, está muito distante disso. O nosso é um capitalismo estatizado, tosco, culturalmente fundado na noção de lucro como pecado.

Na classe intelectual, que inclui alguns dos políticos citados ou seus amigos mais influentes (Paul Singer, guru do PT na economia, chega a dizer que cortar gastos públicos é “conservador”, como se não fosse justamente ir contra toda a tradição brasileira), o mesmo medo da democracia liberal moderna é evidente. Apesar do trabalho de alguns autores – por exemplo, historiadores como Evaldo Cabral de Melo, José Murilo de Carvalho e Marco Antonio Villa –, ainda há muito o que consertar dos estragos deixados pelo marxismo acadêmico. Afinal, estamos num lugar onde a tese de que a obra de Machado de Assis é uma crítica ao capitalismo tem status inabalável. Mesmo os dois grandes teóricos da brasilidade, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, que não eram marxistas, não disfarçavam seu incômodo com o futuro capitalista. Era como se o Brasil dos anos 30 fosse ou devesse forjar um tipo híbrido de regime.

O relativo sucesso do capitalismo nas regiões que o compreenderam vem do fato de que, ao contrário do fascismo e do comunismo que conquistavam mentes no início do século passado, ele não foi projetado em uma prancheta. Ninguém se sentou e concebeu o capitalismo como um sistema que daria fim a todos os males da humanidade. Por isso seu sucesso é sempre “relativo”. Ele foi se desenvolvendo; aqueles que o aceitaram foram os mesmos que perceberam que ele exige estar sempre em correção, vigiado, oxigenado pela pressão democrática de sindicatos, ambientalistas, imprensa e toda a sociedade. Um antigo bordão dizia que o capitalismo é incorrigível. Não, o que ele justamente tem de melhor é ser corrigível – para os que adquirem consciência.

Nada como um jornalista esclarecido. Notem o estranho raciocínio de Paul Singer. Piza está certo? Singer fala isso mesmo? Espaço de comentários fica a disposição para quem tenha citações dele sobre o tema.

Claudio

Um comentário em “Capitalismo e um Jornalista que Sabe o que Fala

  1. Eu tenho quase certeza de que eu li um texto do Paul Singer onde ele dizia exatamente isso. Ou era um texto citando ele, sei lá. Só que não lembro de jeito nenhum onde foi…

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