Um comentário em “Onde está a luz?

  1. Nos meus cadernos de escola
    Nesta carteira nas árvores
    Nas areias e na neve
    Escrevo teu nome

    Em toda página lida
    Em toda página branca
    Pedra sangue papel cinza
    Escrevo teu nome

    Nas imagens redouradas
    Na armadura dos guerreiros
    E na coroa dos reis
    Escrevo teu nome

    Nas jungles e no deserto
    Nos ninhos e nas giestas
    No céu da minha infância
    Escrevo teu nome

    Nas maravilhas das noites
    No pão branco da alvorada
    Nas estações enlaçadas
    Escrevo teu nome

    Nos meus farrapos de azul
    No tanque sol que mofou
    No lago lua vivendo
    Escrevo teu nome

    Nas campinas do horizonte
    Nas asas dos passarinhos
    E no moinho das sombras
    Escrevo teu nome

    Em cada sopro de aurora
    Na água do mar nos navios
    Na serrania demente
    Escrevo teu nome

    Até na espuma das nuvens
    No suor das tempestades
    Na chuva insípida e espessa
    Escrevo teu nome

    Nas formas resplandecentes
    Nos sinos das sete cores
    E na física verdade
    Escrevo teu nome

    Nas veredas acordadas
    E nos caminhos abertos
    Nas praças que regurgitam
    Escrevo teu nome

    Na lâmpada que se acende
    Na lâmpada que se apaga
    Em minhas casas reunidas
    Escrevo teu nome

    No fruto partido em dois
    de meu espelho e meu quarto
    Na cama concha vazia
    Escrevo teu nome

    Em meu cão guloso e meigo
    Em suas orelhas fitas
    Em sua pata canhestra
    Escrevo teu nome

    No trampolim desta porta
    Nos objetos familiares
    Na língua do fogo puro
    Escrevo teu nome

    Em toda carne possuída
    Na fronte de meus amigos
    Em cada mão que se estende
    Escrevo teu nome

    Na vidraça das surpresas
    Nos lábios que estão atentos
    Bem acima do silêncio
    Escrevo teu nome

    Em meus refúgios destruídos
    Em meus faróis desabados
    Nas paredes do meu tédio
    Escrevo teu nome

    Na ausência sem mais desejos
    Na solidão despojada
    E nas escadas da morte
    Escrevo teu nome

    Na saúde recobrada
    No perigo dissipado
    Na esperança sem memórias
    Escrevo teu nome

    E ao poder de uma palavra
    Recomeço minha vida
    Nasci pra te conhecer
    E te chamar

    Liberdade

    Paul Éluard Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s