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Como tentar vencer um debate desqualificando o adversário

Dirceu é chamado de “ladrão” durante palestra em Minas

14h53 — O ex-deputado José Dirceu foi hostilizado e chamado de “ladrão” nesta quarta-feira por estudantes da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), em Belo Horizonte. Durante palestra, Dirceu foi obrigado a interromper sua fala diversas vezes por causa das manifestações dos estudantes que lotaram o auditório da universidade. Alguns estudantes usavam narizes de palhaço. Pelo menos em três oportunidades, o coro de “ladrão” tomou conta do auditório, segundo relato da Agência Estado. Dirceu repetiu que é inocente e que não existem provas de sua participação no esquema do mensalão. Ao fim, quando concedia uma entrevista, o ex-ministro foi atingido no rosto por um nariz de palhaço. Dirceu considerou a hostilidade sofrida era “natural”, porque, segundo ele, os estudantes, em sua maioria, eram “tucanos”.

Direto da Primeira Leitura vem esta amostra de como certos políticos não conseguem dialogar com a sociedade quando estão infectados por ideologia. Você foi xingado? Então só pode ter sido porque seu adversário é “tucano”. Ou seja, se você, brasileiro comum, militante desiludido, condena este sujeito, você só pode ser, na visão dele, “tucano”.

Isto me lembra, nos tempos da campanha de Mário Covas, uma colega da aula de alemão que disse: “esta candidatura foi feita para esvaziar do Lula”. Ou seja, não pode haver outra visão alternativa à visão “alternativa” oficial do sr. Dirceu e colegas. Afinal, isto é impossível pois, quem não está comigo…é “tucano”.

Schopenhauer chama isto de dialética erística, a arte de debater para vencer. Quando ele cita os “estratagemas dialéticos”, um deles é o chamado “desvio”. Reproduzo aqui para o leitor que, infelizmente, não comprou a já esgotada edição brasileira:

“Se percebemos que vamos ser derrotados, recorremos a um desvio, isto é, começamos de repente a falar de algo totalmente diferente, como se fosse pertinente à questão e constituísse um argumento contra o adversário” [p.160]

Ou seja, sou acusado de corrupção (sinto-me sem argumentos contra a platéia de estudantes da PUC) e falo de algo completamente diferente (os alunos que se manifestam contra mim são “tucanos”, como se não existissem alunos sem filiação partidária ou filiados ao PSB, PPS, PCdoB, etc que pudessem se sentir indignados com o festival de corrupção) para tentar convencer a platéia de minha inocência.

Também se poderia pensar no item 32, “rótulo odioso”, pois o termo “tucano” é usado com clara conotação negativa. Desnecessário dizer que não-tucanos que não gostem de “tucanos” devem se sentir incomodados com a frase do dito político, podendo, se não raciocinarem um pouco mais, associando “acusações contra este homem” a algum “estratagema tucano do qual não quero fazer parte”. Conclusão inevitável (?): ele deve ser inocente.

O livro? Bem, chama-se “Como vencer um debate sem precisar ter razão – em 38 estratagemas (dialética erística), editado em 1997 pela Topbooks e, quem sabe o porquê, nunca mais reeditado. Uma pena.

Claudio

3 comentários em “Como tentar vencer um debate desqualificando o adversário

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