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Explicando o inexplicável

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse neste sábado que o governo brasileiro mantém o compromisso de “gerar pelo menos um superávit fiscal primário de 4,25% do PIB em 2006”. A expressão “pelo menos” é novidade. No dia anterior, ele havia dito que os defensores de um resultado maior são contrários aos gastos sociais.

Na semana passada, numa entrevista ao Estado, ele havia afirmado que só tentaria realizar o superávit “combinado”, os 4,25%, e nada mais. O superávit primário é calculado sem as despesas com juros.

(…)

Quando lhe perguntaram numa entrevista, depois, se havia acordado ortodoxo, disse que não costuma deitar com uma opinião e despertar com outra. Afirmou que será aceitável um superávit pouco maior que o planejado, se a arrecadação for superior à prevista e não houver tempo de investir o dinheiro.

Grifos meus.

Claudio
p.s. Ali Kamel mostra que “quem não gosta do social” parece estar sob o bigode ou as barbas (o ministro não os tem) do ministro que diz ter apenas uma opinião.

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Empreendedorismo não se ensina

…e muito menos inovação. Este texto, interessante, fala de política industrial sem defini-la. Fica um tanto confuso entendê-lo, embora esteja claro que os autores acham que políticas “horizontais”, “promoção de exportações”, “substituição de importações” são políticas industriais.

Pois bem, tome-se este trecho, onde os autores – corretamente, do ponto de vista moral – dizem não estarem em defesa de privilégios a setores específicos:

Os críticos à adoção de uma política de substituição de importações alegam que uma política de apoio a setores específicos levaria a um pleito generalizado por privilégios da parte de todos os industriais. Mas como já dissemos no início deste trabalho, um dos pontos principais a serem respeitados por uma política industrial setorial eficiente é a existência de seletividade, mediante critérios transparentes e racionais de escolha.

“Critérios transparentes” e “racionais” são pontos que exigiriam uma certa honestidade (embora eu possa ser transparente em dizer que vou beneficiar meu amigo e ponto final) e um poder de previsão (“racionais”) que fariam um crítico das expectativas racionais pular da cadeira.

Acabo de ler – e não estranho – que previsões sobre tecnologia são um bocado imprecisas. Em 1880, se o governo dos EUA tivesse seguido um critério racional e transparente de escolha, por exemplo, teria dito que não se deveria incentivar a produção de gramofones pois um especialista em inovação, Thomas Edison, disse que não havia valor comercial nisto. Por que deixar empresários ingênuos desperdiçarem seus recursos na produção de algo que não teria valor comercial?

Agora o que é irônico é que, no Brasil, há uma forte correlação positiva entre os que criticam as expectativas racionais e os que defendem políticas industriais. Como isto é possível dada tamanha inconsistência teórica? Não sei. Mas, enfim, eu não posso explicar tudo, não é?

Claudio

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Academia

Como o mercado salvou os filósofos

Eu sempre usei o exemplo dos filósofos em sala de aula para falar de mercados de trabalho. Dizia eu: tem estes caras, que realmente estão presos ao mundo acadêmico. Nenhuma empresa os contrata.

Agora, por algum motivo, o mercado resolveu contratar estes caras. Certamente não é para lhes ensinar Kant ou Hegel. Ou, sei lá, Wittgenstein. Qual o lado ruim disto? Um filósofo acadêmico repetirá o que eu acabo de dizer. E o lado bom? A diversificação de opções de trabalho para os filósofos, que podem optar por ficarem na academia estudando profundamente algum tema ou trabalharem para alguma empresa fazendo algo mais superficial (no sentido acadêmico), mas que lhe traga satisfação e dinheiro para prosseguir sua vida com menos aperto.

De certa forma, isto me recorda Mises: “O capitalismo dá a muitos a oportunidade de mostrar iniciativa” (ao se referir à expansão dos produtos literários sob o capitalismo). E também, é bom lembrar, Mises tinha uma noção de que o mercado também opera com diferentes níveis de qualidade de um bem: “O capitalismo pode fazer com que as massas sejam tão prósperas a ponto de comprar livros e revistas. Mas não pode imbuí-las do discernimento de um Mecenas ou do Can Grande della Scalla. Não é culpa do capitalismo se o homem comum não aprecia livros notáveis”.

Interessante, aqui, é que Mises faz um claro julgamento de valor sobre o que é ou não alta qualidade. Penso nos empresários que contratam filósofos. Estarão eles contratando filósofos de má qualidade porque não compreendem a profundidade dos melhores profissionais da filosofia, ou vice-versa?

Na verdade, Mises não teria como responder esta pergunta dado seu julgamento de valor. Afinal, o que é um filósofo de “alta qualidade” e um de “baixa qualidade”?

Claudio
p.s. Ah, sim, os trechos estão no “A Mentalidade Anticapitalista” de Mises, editado pela José Olympio e pelo Instituto Liberal há alguns anos.

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R$1.000.000.000

É quanto chegam a ganhar os clínicos gerais do sistema público de saúde na Inglaterra em um ano. É dinheiro pacas, mesmo aqui. O causo é o seguinte: os caras ganhavam, em média, um quarto disso, o que continuava sendo um salário bem bom. A remuneração era de acordo com o número de pacientes registrados que cada médico tinha.
O governo resolveu criar um sistema de pontos: se os teus pacientes controlam o colesterol, a glicose, essas coisas, mais pontos o médico recebe e maior o salário. O problema é que calibraram mal e ficou muito fácil ganhar os pontos e se encher de dinheiro. A opinião pública está escandalizada em saber o quanto os doutores ganham.

Leo.

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