Uncategorized

O Samba agoniza?

O sempre lúcido Arthur Dapieve escreve contra aqueles que se deixam levar pelo discurso xenófobo-fracassonômico musical:

Cabe, então, perguntar: a que resiste o samba, se a sua face mais visível goza deste merecido prestígio na grande mídia? A que resiste o samba, se ele é, há décadas, o ramo mais robusto da nossa música, transmutando-se na bossa nova, influenciando o pessoal dos festivais e da Tropicália, fundindo-se ao pop-rock nativo? (Isso num dos três países do mundo que mais escutam a própria música; os outros, a propósito, são EUA e Japão.) A que resiste o samba, se o culto a ele movimenta as casas noturnas da Lapa?

Como tal retórica tem caráter patriótico, um mero senão equivale a alta traição. Os bambas são usados, dentro desta lógica, exatamente como Martinho e Luiz Carlos foram usados no concurso da Vila: para referendar gente sem o seu talento. Porque é uma impossibilidade estatística-estética que não haja disco ruim de samba, que toda jovem cantora seja maravilhosa ou que todo velho sambista obscuro seja uma preciosidade.
Admitir isso, todavia, seria crime de lesa-pátria. Então, tome elogio à “resistência do samba”. Este discurso paternalista e mediocrizante já teve conseqüências nefastas na cultura brasileira. Enquanto considerou-se (e foi) merecedor de “uma força” do Estado e da crítica, por exemplo, o nosso cinema patinou.

É isso aí. Bom carnaval para vocês. (Eu vou ficar trabalhando e vou assistir “The Root of All Evil”, o documentário do Richard Dawkins, nos intervalos)

Leo.

Continue lendo “O Samba agoniza?”

Anúncios
Uncategorized

Xenófobos na berlinda

Sempre chamo a atenção aqui para a sandice que é a xenofobia. Coisas do tipo: “o petróleo é nosso”.

Uma lenda que circula entre (alguns) meios acadêmicos é a de que o Brasil (nunca dizem quem, é sempre “o Brasil”) tem de adotar um modelo “alternativo” (ignorando anos de intercâmbio entre experiências distintas) como o, digamos, coreano (antes era o japonês, mas o desencanto da recessão afetou algum neurônio dos xenófobos).

Dizem: “olha, que legal. No Japão (na Coréia), um corrupto, quando é pego, pede desculpas na TV e entrega o cargo”.

Nunca ninguém se pergunta: “e entregou o dinheiro de volta”?

Bom, eis aqui uma ótima para este pessoal:

– A justiça sul-coreana condenou dois ex-funcionários da LG Electronics, que mudaram para a concorrente Pantech, por vazamento de informações. Identificados simplesmente como Kim e Gu, os dois foram sentenciados a uma pena de 10 meses por vazar segredos industriais da LG na sua ida para a Pantech (as duas empresas fabricam celulares).

Os suspeitos foram condenados quando foram encontradas detalhes técnicos da LG em seus computadores na Pantech, violando as regras da LG quanto ao vazamento de informações confidenciais para competidores diretos.

O caso chamou a atenção não pelo roubo de segredos entre competidores, mas por ser a primeira vez em que isso acontece entre duas empresas coreanas.

Presta atenção, leitor, no último parágrafo. O mais correto seria dizer: “a primeira vez em que descobrem que isso acontece…”. Corrupção não é um privilégio do brasileiro, mesmo que este seja o “melhor do Brasil”. Na Coréia do Sul também existe espionagem industrial.

Ao invés de importarmos o “modelo econômico”, deveríamos importar as instituições que geram mais mercado e menos corrupção. Independentemente de onde venham elas.

Claudio

Continue lendo “Xenófobos na berlinda”