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Meu historiador marxista favorito manda ver!

(grifos meus)

Historiador revê o Brasil e ataca “xiitas” da USP
Publicidade RAFAEL CARIELLO
da Folha de S.Paulo

Nunca 500 anos trouxeram tantas mudanças quanto na última década. O responsável pela façanha temporal é João Fragoso, 48, autor da mais recente e inovadora interpretação sobre o Brasil, que questiona clássicos como Celso Furtado e Fernando Novais e modifica a compreensão de cinco séculos de história.

Fragoso tornou-se em dezembro professor titular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, no mesmo mês, dois alunos seus –Maria Fernanda Vieira Martins e Tiago Luís Gil– receberam o primeiro e o segundo lugares do mais prestigioso prêmio de história do país, conferido pelo Arquivo Nacional.

Sujeito de trato pessoal tímido e voz baixa, avesso a entrevistas, ele questiona a corrente tradicional que vê a história da sociedade brasileira ditada desde o período colonial pela lógica econômica dos países centrais. Sua tese, inicialmente ignorada fora do Rio, tornou-se hegemônica na academia fluminense e vem provocando crescentes debates no país.

Na entrevista a seguir, o historiador ataca seus principais opositores. Um grupo de professores, segundo ele “xiitas”, da USP, que seria o último reduto das “teorias da dependência, no sentido amplo”. “O Brasil e talvez a Venezuela são os únicos lugares onde ainda se leva isso a sério.”

Ao defender que os caminhos que o país tomou desde pelo menos o século 18 dependem fundamentalmente de escolhas feitas pela elite local, Fragoso deriva conseqüências éticas de sua tese. “O destino é nosso. É a sociedade com todos os seus grupos, sem livrar a cara de ninguém. O mais pobre dos pobres, o mais operário dos operários.”

Folha – Há anacronismo nas idéias da tradição de interpretação do Brasil que o sr. vem contestando desde o início dos anos 90, entre elas a mais recente, de Fernando Novais?

Fragoso – Tenho de declarar que tenho o maior respeito pelo Novais. Nosso tratamento sempre foi extremamente cordial. Temos divergências –mas a academia é o local das divergências.

Mais radicais que o Novais são seus seguidores atuais, que eu chamo de xiitas. Que querem sublinhar alguma coisa que nos anos 60 já havia sido descartada, as teorias da dependência, no sentido amplo. Aqui e talvez a Venezuela são os únicos lugares no mundo em que ainda se leva a sério isso. Você tem aí um ranço que é da Guerra Fria.

Isso é uma coisa. A outra é que ainda se acredita que as pessoas são criaturas de um modo de produção –ou das estruturas. Você tem o capitalismo, e as pessoas se comportam conforme essa estrutura. Ele é gestado, conseqüentemente as pessoas têm que ter um comportamento pertinente àquilo que o capitalismo algum dia será. As pessoas são tratadas como marionetes.

Com isso, obviamente, não estou descaracterizando a existência de um reino, de um centro de poder. Mas você tem negociações. Você tem tensão.

Se você entende anacronismo desse modo, como a teimosia da teoria da dependência e das estruturas, aí sim.

Folha – Você considera que a USP é xiita?

Fragoso – Classificar a USP como xiita seria injustiça. Mas, com certeza, você tem um segmento da USP que continua a tomar partido dessas idéias. Se você perguntar para eles, vai ouvir que eu sou revisionista, “o grande traidor da causa marxista, dos povos oprimidos” ou algo que o valha. Está no momento de nos desarmarmos e discutirmos mais.

Folha – Essa resistência vem desde a publicação da sua tese?

Fragoso – No início, havia uma resistência, mas em grande medida a política era de não levar em conta. “Não existe.” Hoje em dia, quando as idéias ganharam embasamento empírico cada vez mais contundente, vem a geração dos xiitas –e aí é uma baixaria danada.

Folha – Os srs. são chamados de quê? Conservadores?

Fragoso – Sim. A coisa que eu mais escuto é me compararem com alguma literatura salazarista.

Folha – Falou em império, o pessoal pensa em Salazar?

Fragoso – Sim. O grande império português, aquela coisa do Salazar. Nos acusam de estarmos eliminando toda e qualquer contradição. Não levaríamos em conta duas contradições fundamentais: colônia x metrópole e senhores x escravos. É o discurso marxista –olha, sou marxista, mas para tudo há limites.

Esses senhores da terra [proprietários rurais no Brasil] tinham que ter legitimidade social, tinham que ter apoio da sociedade, e esse apoio vinha principalmente dos escravos. Se eles achassem que esses senhores não eram de nada, acabou. Não seriam mais senhores.

Da mesma forma que há negociação desses senhores com Lisboa, há uma tensa e rica negociação entre escravos e seus senhores. Ao ponto de seu braço armado ser formado por cativos, por escravos armados. Dão armas a escravos. Por quê? Porque, como esses senhores têm projetos, os escravos também têm.

Folha – A escravidão não pode ser fundada só na violência?

Fragoso – Exato. Eles recebiam alguma coisa em troca. Eram reconhecidos alguns direitos costumeiros, como por exemplo a possibilidade de terem famílias, terras, de terem acesso a maquinarias de beneficiamento. Isso lhes dá poder, e é fruto dessa negociação. Se por um lado servem, ou lutam ao lado de seus senhores, por outro recebem alguma coisa.

Se fosse apenas conflito, esse país seria um barril de pólvora e explodiria. O Brasil tem 500 anos, dos quais 300 com escravidão.

Folha – Do mesmo jeito que não explode hoje em dia, porque os pobres também negociam?

Fragoso – Pois é. Esses miseráveis e pobres, de alguma maneira, dão legitimidade a essa sociedade. É necessário que os mais pobres dos pobres de alguma maneira compartilhem desse projeto. Porque senão seria insustentável. Essa abstração que é a sociedade tem que ser compartilhada por diferentes grupos sociais.

Folha – É correto ver uma dimensão ética nessa idéia de não empurrar a responsabilidade pelo suposto “atraso” brasileiro para as metrópoles européias?

Fragoso – Com certeza. Repetindo a frase de minha velha professora Maria Yedda Linhares, ainda na Guerra Fria: “O Brasil se tornou independente em 1822. Depois disso, é falta de vergonha”. Estendendo um pouquinho para trás… Ou seja, o destino é nosso. É a sociedade com todos os seus grupos, sem livrar a cara de ninguém. O mais pobre dos pobres, o mais operário dos operários. Os mais humildes compartilham dessa abstração chamada sociedade brasileira. Com todas as suas contradições e desigualdade de renda. Não estou dizendo que todo mundo cante a mesma música, mas sim que algumas coisas básicas, em algum grau, são compartilhadas. Porque senão essa bodega não funcionava.

Leo.

3 comentários em “Meu historiador marxista favorito manda ver!

  1. Tive aula com ele no mestrado. Virou minha cabeça.

    O mais engraçado era a “patota” dos que que resistiam às novas informações pq., afinal, “não foi isso que a minha professorinha do segundo grau ensinou”…..

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