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Imperialismo sociológico

Eis um sociólogo com um bom artigo sobre o imperialismo sociológico que assedia bons e maus economistas. Claro, o bacana é comparar com o que você ouve na selva brasileira.

Agora, outra coisa legal que achei na página dele foi este artigo, sobre os protestos contra a guerra do Iraque.

Claudio

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microeconomia

Comentando Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo está com um ótimo texto sobre a tal “mãe” que jogou a filha na lagoa da Pampulha. Gostaria de comentá-lo pontualmente.

Medéias e Jocastas – Por Reinaldo Azevedo

Aquele misto de Jocasta e Medéia da Pampulha foi apenas a primeira de uma série de mães que resolveram se livrar de suas crias, todas elas um tanto medéias na vida, com a ligeira diferença de que o “Jasão” que as motiva não é o amante traidor, mas as condições sociais. Eu sempre soube, e já escrevi algumas dezenas de vezes, que a banalização da sociologia do vitimismo, somada à psicologia barata de revista feminina, ainda daria nisto: taradas homicidas que se escondem do crime que cometeram expondo as chagas de sua vida difícil.

Em outras palavras, RA crê que um incentivo crucial mudou na sociedade. O incentivo derivado de certo tipo de sociologia e psicologia que pregam que os indivíduos são mais vítimas do que atores. Algo como: as restrições são tão fortes, que o indvíduo não consegue agir.

No caso daquela senhora de Belo Horizonte, o busílis nem estava na pobreza. Em sua primeira entrevista, ela disse que não tinha “condições psicológicas” para cuidar da menina. Embora negue ter jogado aquela “droga de criança” na lagoa. Huuummm. Medéia perde: só matou os filhos porque sabia que tal enormidade atingiria duramente o amante. Esta outra nem se dá conta do tamanho do seu crime. “Droga de criança”… Não queria agredir ninguém. Seu gesto é tolamente egoísta: faltavam-lhe “condições psicológicas”. Ela espera que passemos a mão na sua cabeça. Rejeita a condição de mãe: quer ser uma filhinha malcriada, mimada e impune. Eis, diga-se, outra conseqüência deletéria da banalização da psicologia: as pessoas só se sentem maduras e responsáveis depois dos… 50!

Novamente, o mesmo ponto. Indivíduos desejam jogar os custos de suas ações sobre os outros. Em outras palavras: certa pregação sociológico-psicológica acredita que as pessoas devem agir como quiserem e, em seguida, jogar os custos de suas ações sobre outras. Em Teoria Econômica, isto se chama “concentrar benefícios e dispersar custos”.

E aí veio outra, e outra, e outra. Estas, mais safas, procuraram emprestar à sua irresponsabilidade um viés menos egoísta e adolescente. Evocaram a pobreza como justificativa. Já perceberam que um pobre chorando na televisão é coisa irresistível. Vejam lá: no Big Brother, o povo adota as vítimas. Não vai demorar para que a “depressão pós-parto” se torne uma alegação comum na boca de mães vadias. Praticamente todos os adolescentes infratores (é assim que se diz?) de 17 anos que concedem entrevista a repórteres na TV (com a imagem protegida, como determina a lei) atribuem o malfeito a espancamentos sofridos na infância, à miséria, a um lar destruído… Sabem que se tornaram, como é que se diz?, “crianças em situação de risco”, “crianças em situação de rua” e afins. Não há mais indivíduos, só categorias.

Nada a acrescentar. Vejo isto sempre. Aluno não foi bem na prova? Arruma um atestado de “stress”. Certas instituições aceitam qualquer atestado (o que favorece a indústria da hipocrisia) enquanto outras exigem que o “estressado” seja examinado por um médico da instituição. Trabalhei em uma universidade assim. Lá, não funcionava tão bem porque os médicos, eles mesmos, pareciam se comportar, eles mesmos, como pregadores do vitismo que RA cita. Bom, o mundo não é perfeito.

A banalização da motivação sociológica ou psicológica do crime saltou o muro dos especialistas e já virou um jargão dos próprios transgressores, que o empregam como uma arma a mais para praticar delitos. Lembro-me da entrevista concedida por aquela adolescente que participou do incêndio de um ônibus no Rio. Embora analfabeta (segundo disse ao menos), mostrava-se uma pequena especialista no vocabulário ongueiro que adorna e desculpa o horror. Virou uma estrela. Ninguém quis saber dos mortos.

Sem comentários. O “funk” não tem letra para vítimas do tráfico. Tem?

Todo mundo no Brasil é vítima, a começar dos assassinos e dos potencialmente homicidas. Abandonou a filha? Estava psicologicamente abalada ou faltavam recursos. Meteu uma bala no cocuruto de alguém num assalto? Foi espancado pelo pai quando criança. Mal posso esperar a hora em que os criminosos do colarinho branco aleguem, sei lá, que foram molestados por um tio esquisitão e capitalista ainda na primeira infância.

É claro que carrego um pouco nas tintas. Sei que tudo isso parece terrivelmente banal e sem importância. Mas não é. Este país despreza os indivíduos e não os reconhece nem quando eles decidem se apartar da manada por meio do crime. Nada é mais particular e especioso do que a mãe que abandona o filho ou o coloca em risco de morte. É uma agressão à nossa cultura e à nossa natureza animal. Eis uma pessoa que merece ser tratada com distinção, tendo o que merece: cana, cadeia, xilindró. Em vez disso, a dita-cuja tem logo de integrar uma categoria, um conjunto, de ser quase militante de uma ética: a das mães com direito de abandonar os filhos porque lhes faltam recursos. Ou a da mãe atropelada por “problemas psicológicos” e depressão pós-parto.

Eis uma boa questão. Quando se trata ciência de maneira frouxa, como se fosse um mero discurso – gente que desqualifica econometria faz exatamente isto – a ciência vira uma banalidade que justifica tudo. Não há provas de que exista o inconsciente – dizem os críticos da psicanálise – mesmo assim, alguns o evocam em jornais. Normalmente vejo cantores e artistas falarem de desarmamento ou de pobreza sem nunca terem estudado uma linha de um único estudo sobre o tema.

E são aplaudidos.

Claro, indivíduos são racionais e percebem quando estão sendo enganados. Mas a percepção nem sempre é imediata. Existe mesmo um fenômeno do tipo: “se Caetano Veloso disse que o COPOM é malvado, então deve ser”. Imagine eu, um economista, criticando a técnica artística que o cantor emprega em suas músicas. Mas, seguimos.

Não faltarão ao debate, inclusive, aqueles que acreditam que a culpa, vejam só!, é do governo, do capitalismo, do machismo e, quem sabe?, da sociedade judaico-cristã. Houvesse distribuição eficiente de pílulas e camisinhas, hão de sustentar, isso não aconteceria. Como se uma carga de hormônio ou o látex pudessem substituir a moral pessoal (a que o pobre também tem acesso). Não podem.

Pobre ou rica, analfabeta ou pós-doutora, a mãe protege o seu filho porque esta é a ética das mães, porque lhes cabe o imperativo moral de fazê-lo. Se os abandona ou os põe em risco de morte, está operando uma escolha, pela qual tem de arcar até as últimas conseqüências. Nada perdoa o seu gesto — menos ainda a pobreza. Que outros crimes poderia cometer fossem outras as suas condições sociais? Quero dizer com isso que carregam uma índole criminosa? Não é uma questão de índole. Por qualquer razão, e a pobreza certamente não explica, essas mulheres não ajustaram os meridianos do certo e do errado, do moral e do amoral. Têm de ser levadas a fazê-lo. E tudo começa pagando pelo crime que cometeram, dispensando-se as dramatizações de seu passado triste. Até porque, convenha-se, e isso a psicanálise me ensinou, todo passado é mais ou menos inglório; toda vida pregressa é feita de frustrações; a riqueza pode oprimir a alma tanto quanto a pobreza.

Olha novamente o discurso ideológico. Então um jornal dinamarquês publica uma charge do Maomé. De quem é a culpa? Do capitalismo. Algumas pessoas parecem ter uma preferência entre explicações do mundo na qual ideologia e ciência são substitutos perfeitos. Quando os fatos não corroboram minha teoria, então o instrumento usado para medir os fatos e cruzá-los com minhas hipóteses teóricas deve estar errado ou, quem sabe, sofrendo de distorções ideológicas. Quantas vezes já vi gente dizer que “econometria é um instrumento da burguesia”? Sim, existe este tipo de discurso entre gente que fez Ph.D. Ph.D não é sinônimo de competência. Atuação científica é. E olha que o meio científico é tão cheio de ideólogos e vítimas quanto o meio não-científico.

Por que estas senhoras não encaminham seus filhos para a adoção, preferindo largá-los sorrateiramente? Porque temem alguma forma de censura pública, o que quer dizer que têm, sim, superego. Optam por esgueirar-se nas sombras porque pretendem não arcar com o peso de sua escolha. Seu crime pressupõe duas impunidades: a legal e a social. Se não forem flagradas, o provável é que continuem a fazer filhos e a degluti-los, como Saturno. Quando pegas no pulo, logo sacam uma resposta do manual da boa vítima coletiva a ser incensada por caridosos “imbecis coletivos”, para lembrar o excelente livro de Olavo de Carvalho. Este país, às vezes, é um porre. Indivíduos não podem nem cometer crimes. Ainda que seja o mais abominável deles.

Este é o final do texto. Novamente, RA se mostra revoltado. Com razão. As pessoas, pensa ele, não querem assumir seus custos. É verdade. Ele está certo. Uma forma de disfarçar nossa culpa é dizer que a “culpa é da sociedade”. É incrível isto. A mulher jogou o filho na lagoa? A culpa é do SUS que não tem aborto no pacote de serviços.

Ok, pode ser que o aborto no pacote fosse uma boa idéia, independente do que eu pense sobre a vida de um bicho na barriga da mãe. Mas isto não muda o fato de que a escolha da mulher ainda poderia ter sido a mesma: jogar o bebê na lagoa.

Preferências são preferências e incentivos são incentivos. Preferências não mudam ao longo do tempo. Bem, talvez até mudem, mas aposto que isto é mais difícil de conseguir do que mudar os incentivos. Quer diminuir o crime? Discurse e mostre ao criminoso que o crime é ruim. Ou mostre-lhe uma arma na testa. Quer que a mulher não jogue bebês na lagoa? Discurse e convença-a de que isto é ruim, feio, desumano. Ou crie uma legislação que lhe tire o direito à maternidade nestes casos.

Veja o quanto de questões interessantes temos aqui. Será que o Estado tem o direito de arrancar o bebê de uma senhora só porque ela o jogou na lagoa? Há garantia de que teremos tudo de bom e do melhor para esta menina nas mãos do estado? E o SUS? Por que não aborto via mercados? Mas aí o aborto é polêmico. Será que deveríamos implantar um sistema onde cada cidade votaria para ter o aborto em seu menu de opções do sistema médico público, privado, ou ambos? Ou devemos impor o aborto mesmo que 99% dos eleitores sejam católicos fervorosos?

O discurso do “você é sempre vítima, processe!” é um incentivo à leniência. Sempre queremos ter o menor trabalho possível e obter mais ganhos. Isto não é questão de ser certo ou errado. A questão é como fazemos isto. E aí entra a complicada restrição, digamos, moral. Como eu disse, se você mora em uma cidade de maioria católica, o aborto não é uma opção. Mesmo a votação, democrática (faça mesmo um referendo, se quiser), resultará em não ao aborto. A opção é a tirania, muito cômoda quando é a seu favor, né? A opção, digamos, federalista, é a que eu disse: cada cidade escolhe o menu de serviços médicos permitidos na cidade (em outros tempos, gente acusada de bruxaria teria adorado este sistema).

RA exagera na queixa moral. Ele tem razão: gente que joga criança no rio tem problema com o conceito de “humanidade”. A solução é via incentivos. Seria bom se os pregadores do vitimismo parassem de pensar na Economia como algo “vinculado à ciência burguesa” e começasse a discutir seriamente sobre a espinhosa questão dos incentivos.

Quota da universidade? Aborto? Prisão de mães? Nada disto se entende com “discursaria obtusa”, arroubos verborrágicos (de fortes tons moralistas). Só com ciência.

Então, leitor, deixe de lado o papo fácil do botequim (que é ótimo na hora da cerveja, claro), e pense um pouco nos incentivos quando ler um artigo como este. Temos, sim, de achar “feio” o comportamento da dona. Não há dúvida. Mas não adianta muito reclamar que ela fez algo feio. Ela fez. E fará sempre que puder, até que alguém lhe mostre que os custos de fazer isto aumentaram tanto que não vale mais a pena fazer bobagens. Claro, no limite, um ditador resolve isto a um preço nem sempre módico (veja o comunismo no Camboja). Neste ponto eu concordo com RA, melhor seria se as pessoas fossem um pouco melhores com os bebês.

Bom, minha visão moral é a de que a mulher errou seriamente. Mas minha visão moral não corrige o ato dela. Somente os incentivos certos fazem isto. E não há garantia de perfeição. Ciência, afinal, não é fé. Mas não deve ser ignorada quando se propõe políticas públicas.

Claudio

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