Academia

Importando idéias

Você, leitor(a) deste blog, provavelmente adoraria ler “The Future and its Enemies” de Virginia Postrel. Após anos de indecisão, resolvi, finalmente, comprar o livro. Li apenas o primeiro capítulo, mas acho que é uma excelente leitura complementar para disciplinas relacionadas ao “Desenvolvimento” em cursos de Economia.

Como sempre, minha leitura incorpora alguns dos temas que mais me perseguem – não por minha culpa – no dia-a-dia. Um deles é ouvir o argumento mais rasteiro contra, digamos, o modelo IS-LM (poderia ser a teoria do consumidor). Eu o chamo de argumento bolivariano em homenagem ao xenófobo mais famoso da era MTV: Chàvez.

Em resumo – e ignorando 10 anos de produção profícua de artigos da economia neo-institucional – o argumento bolivariano diz o seguinte: não podemos importar teorias estrangeiras para analisar a realidade brasileira.

Por que? Não sei. Nunca entendi. Só explico isto como um protecionismo que favorece o poder de quem detém o monopólio da explicação, se é que isto se sustenta por muito tempo, em ciência (*).

Volto à Virginia.

Em seu primeiro capítulo, a autora discute o que poderíamos chamar de mentalidades pró e contra o desenvolvimento. É uma péssima definição, eu sei, porque não é simples resumir este capítulo tão bem escrito de maneira rápida, mas vamos lá, qualquer coisa você (compra e)lê o livro.

Lá pela página 21, você fica sabendo de um tal Port Huron Statement, da “Nova Esquerda”. Em Economia, muitos que abraçam alegremente o argumento bolivariano estão nesta canoa ideológica. O que dizia esta declaração?

“…demanded that ‘decision-making of basic social consequence be carried on by public groupings’ and, more specifically, declared ‘that the economy itself is of such social importance that its major resources and means of production should be open to democratic participation and subject to democratic social regulation’.

E aí, a autora, contrastando a posição da “New Left” com a visão tecnocrática, diz:

“Both positions flatly reject the idea that social or economic evolution should proceed through decentralized trial and error. Both demand central control. Unlike traditional technocracy, however, they locate that control in vaguely defined ‘public groupings’ and ‘democratic participation’ rather than in agencies and experts”.

O primeiro parágrafo reproduzido acima bem poderia ter sido escrito por um dos defensores do chamado “Orçamento Participativo”, mantra repetido ad nauseam por militantes da esquerda brasileira.

Aí é que vem a ironia: como fica o argumento bolivariano no caso da proposta da esquerda? Como a idéia foi “importada”, também deveria ser rejeitada. O aspecto maquiavélico do argumento bolivariano é que ele só rejeita a troca de idéias para o outro, não para si mesmo. Assim, economistas não deveriam ter acesso aos artigos publicados na fronteira do conhecimento – o que os empobrece no debate – mas os bolivarianos, eles mesmos, podem ter acesso à literatura estrangeira.

É o bom e velho jogo sujo que alguns adoram usar em debates…

Ok, não é preciso ser um gênio para perceber que existem argumentos e falácias, e que muita gente usa mais um do que o outro para tentar ganhar uma discussão. Mas o livro da Virginia Postrel vale a leitura. Ela não é economista mas tem um bom senso da lógica que usamos para analisar trocas.

Sua leitura não serve apenas para mostrar a mesquinharia dos intelectuais. É muito útil para se pensar problemas mais gerais do desenvolvimento, incluindo a análise da regulação, aspecto que o governo atual não valoriza muito e cujo modelo necessita, constantemente, de reformas e novas reflexões.

Afinal, é na regulação de aspectos de sua vida que os caras ganham dinheiro. Não acha que vale a pena conhecer bem as consequências das ações deles sobre sua vida?

Claudio

(*) Um amigo meu, hoje, lecionando no exterior, dizia que não entendia a crítica à Economia feita por alguns de seus pares. Em palavras mais ou menos dele, dizia: “Claudio, olha para qualquer capa da American Economic Review (a revista mais odiada pelos bolivarianos da Economia) e veja a diversidade de temas”! E ele tem razão. Lembre-se de Freakonomics…

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