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Dureza

Tá se achando pobre? O salário termina e o mês continua? Consulte esse site e veja que tem muita gente em situação pior do que você. (E lembre-se que, de acordo com o pessoal de Economics of Happiness, você vai ficar feliz sabendo disso.)

Leo

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Discriminação de preços e o salame

Quando criança, minha mãe, lutando para poupar, costumava comprar retalhos de frios. Uma mistura de presunto, apresuntada mortadela, salame e sei-lá-mais-o-que. Eram pedaços amorfos, irregulares e algo nojentos que ela usava para colocar nas pizzas ou lasanhas.

Hoje vi no Supermercado Zaffari retalhos de salame a venda. Só que dessa vez eles eram discos cortados exatamente no meio. Ou seja, não pareciam mesmo retalhos. O preço era de R$14,00/kg, enquanto os discos inteiros custam R$31/kg.

Minha desconfiança: trata-se de um caso de discriminação de preços. Os funcionários deliberadamente cortam o salame ao meio para separar os consumidores em dois grupos: aqueles que só pagam 14 reais e os que não admitem retalhos (talvez por um trauma de infância) e pagam 31 reais.

A lógica é a mesma da impressora HP cujo modelo doméstico tinha um chip a mais que a tornava mais lenta ou a dos ótimos exemplos narrados pelo Tim Harford (um deles já foi citado pelo Claudio em um link mais abaixo).

A propósito, comprei o retalhos.

Leo.

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Os ratos que não rugem

Eu juro que achei que era piada. Mas não é. Existe uma Olimpíada dos Pequenos Países da Europa. Junta só aqueles países que ninguém leva a sério: Chipre, Andorra, Luxemburgo, Mônaco, Islândia (!) e assemelhados. Todos lugares que nenhum dos grandes países achou que o lugar valia a pena uma guerra.

Os esportes são os olímpicos. Uma pena. Eles poderiam criar esportes baseados nas especificidades locais: fuga de paparazzi (em Mônaco), bater em ingleses bêbados (Chipre), arremesso de Björk (vocês-sabem-aonde) e abertura de empresas fajutas contra o relógio( em quase todos).

Acho que poderíamos copiar a idéia. Proponho que se crie uma grupo de países com instituições-ruins-para-dedéu. Brasil, Paraguai, Zimbábue, Coréia do Norte, essas coisas. O Banco Mundial daria então prêmios do tipo: Judiciário Menos Pior, Presidente Menos Ridículos..Prá frente, Brasil!

Leo

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microeconomia

Minicrítica da crítica socialista por alguém muito preguiçoso para escrever uma tese sobre o tema

I. Incentivos estranhos, conseqüências bizarras

Incentivos à produção no Gulag – um belo exemplo de socialismo real (tal como o capitalismo real, há uma variedade institucional de socialismos reais) – são um exemplo para se pensar.

Algumas citações:

Guardas que atiravam em presos fujões recebiam gratificação financeira e podiam até ganhar férias em casa. Por isso, ficavam tentados a estimular tais “fugas”. Zhigulin descreve o resultado:

O guarda gritava para alguém na coluna: “Você aí, traga-me aquela tábua!”
“Mas está do outro lado da cerca!”
“Não interessa – vá buscar!”
O preso ia e era abatido por uma rajada de metralhadora.[Gulag, p.323]

Mas o clima não era o único obstáculo ao cumprimento das metas. Em muitos campos, elas eram absurdamente elevadas. Em parte, isso era conseqüência indireta da lógica do planejamento central soviético, a qual impunha que as empresas aumentassem a produção todo ano. Elinor Olitskaya recordaria que suas companheiras forcejavam para cumprir as metas numa oficina de costura, querendo manter-se naquele trabalho aquecido, em recinto fechado. Mas, como elas as cumpriam, a administração do campo vivia elevando as metas, até que se tornavam inatingíveis. [Gulag, p.275]

O primeiro exemplo não é tão difícil de se entender, mas o segundo é mais interessante. Qual a lógica de se aumentar a produção? Além de ser poluente (e os países socialistas deram uma boa contribuição à poluição global), ela segue o princípio de que uma economia socialista não deveria almejar o lucro, além de refletir uma preocupação com o desempenho da ditadura de Lenin-Stalin comparativamente ao resto do mundo. Vejamos isto com um pouco mais de detalhes e com a participação de autores importantes que tirei do meu baú de livros.

II. Brevíssimo Resumo sobre o Papel da Matemática na Economia Socialista

Em 1964, no Ocidente, surgiu o The Use of Mathematics in Economics, editado por V.S. Nemchinov, com artigos de autores como Oskar Lange e o Nobel Kantorovich. O livro não é nenhum clássico e professores mais preocupados com a ideologia do que com a efetiva comparação de sistemas econômicos distintos não gostam de citá-lo por motivos óbvios: tem matemática e se diz socialista. Kantorovich, ele mesmo, sofreu represálias na era soviética por defender o uso de programação linear (que lhe rendeu o Nobel juntamente com Von Neumann) no “paraíso do trabalhador”. Quer ver o clima da época? Veja, por exemplo, este trecho:

Até meados da década de 50, a ciência da economia ou “economia política estava em estado deplorável nos países socialistas. (…) Alguns extremistas chegavam a negar a existência de leis econômicas no socialismo. Esta opinião foi muito fortemente expressa por Rosa Luxemburgo, que escreveu (…) que “a vitória da classe operária constitui o último ato da economia política enquanto ciência”. (…) A maioria dos escritores estava preocupada em interpretar Marx para – como concluiu a Conferência de Economistas Poloneses em 1967 – “proporcionar uma justificativa apologética às atuais políticas econômicas.[A Economia do Socialismo, Vértice, 1987, p.37]

A título de curiosidade, contraste o trecho acima com:

Los economistas ortodoxos, en general, se identificam con el sistema y asumen el papel de sus apologistas, mientras que Marx se aplica a comprender la obra del capitalismo con objeto de violentar su desaparición. [Joan Robinson, Introducción a la Economia Marxista, Siglo XXI, 1976, p.21]

Apologéticos, heim? Tudo bem, Joan Robinson nunca morou na Polônia. Bom, de qualquer jeito, é interessante e esclarecedor – principalmente para leitores mais novos – reproduzir este trecho de autoria de Alec Nove, um famoso sovietólogo:

Soviet planners struggled with the tasks of producing and distributing goods, co-ordinating the operations of industries and enterprises and of devising patterns of investment; but they had virtually no theory to guide them; and no theory of planning emerged from their activities. Investment and production decisions were based very largely on a system of ‘material balances’. [The Use of Mathematics in Economics, p. ix]

Nove, assim como muitos economistas ocidentais – Paul Samuelson incluso – era um dos entusiastas do uso da matemática no planejamento. Oskar Lange, na época, escreveu um livro sobre o uso da cibernética em planejamento. Tinbergen ganhou o primeiro Nobel em Economia com um modelo macroeconométrico que poderia ser processado em computadores. O clima intelectual parecia ser o seguinte: coloque um computador nas mãos de bons técnicos e engenheiros (hoje em dia seriam graduados em Ciência da Computação) e tudo estará resolvido.

Só que, como disseram Hayek e Mises, o problema é inútil porque você não está em um ambiente de mercado e, portanto, não tem como saber o custo de oportunidade de um bem. Qual o preço que reflete a efetiva escassez dos bens de capital? Não há porque a economia é planejada. Alguém poderia dizer: “chute um preço”.

O problema com “chute um preço” é que este preço determinará a alocação de virtualmente todos os recursos em uma economia planejada. Nove tinha uma noção do problema:

Clearly, choice between alternatives involves considerations of relative scarcity, and of the degree to which this or that commodity or plan variant corresponds to requirements. [The Use of Mathematics in Economics, p.xiv].

Infelizmente, Nove percebeu parte do problema. Nem ele, nem muitos dos autores do livro tiveram isto muito claro. Mesmo Oskar Lange parecia achar que o problema do cálculo econômico na economia socialista era tão simples quanto a teoria que utilizava (uma perigosa “nirvanização da realidade”):

A propriedade social dos meios de produção implica novas oportunidades de desenvolvimento econômico. Tais oportunidades resultam da ausência de interesses privados, que impedem a utilização racional dos meios de produção de acordo com o interesse social. [Lange, O. “A Economia Política do Socialismo” in Pomeranz, L. (org) “Oskar Lange”, Ed. Ática, 1981, p. 88]

Em outras palavras, ou Lange escreveu cuidadosamente pensando na censura socialista ou não entendeu o problema econômico básico: a decisão é individual. Decisões coletivas não são meramente a soma das decisões individuais. O leitor pode tentar frequentar uma única reunião de moradores de um condomínio – aqui ou em qualquer outro país do mundo – para verificar isto. Bakunin, o anarquista, colocou o dilema em termos bem simples, embora não estivesse partindo do mesmo ponto de vista que o autor deste post:

O que significa: “o proletariado organizado em classe dominante”? Quer dizer que este estará inteiramente na direção dos negócios públicos? Há, aproximadamente, quarenta milhões de alemães. Poderão esses quarenta milhões fazer parte do governo e, o povo inteiro governando, não haverá governados? [Bakunin, Textos Anarquistas, L&PM, 1999, p.155]

Outro exemplo legal de se ver é quando os socialistas tentam, literalmente, importar conceitos da Ciência Econômica e mesclá-los com seu marxismo. Pense, por exemplo, no desconfortável (para os socialistas) conceito de lucro:

O lucro não é necessariamente uma medida objetiva de eficiência. Isto porque, para começar, os preços dos fatores de produção e dos artigos produzidos não são em geral determinados livremente no mercado, de modo a refletir relações de escassez-preferência. Por diversas razões, o Estado fixa os preços (ou presume que estejam fixos) acima ou abaixo dos custos de produção (seja qual for a interpretação dada a estes). Por uma simples alteração de preços, o Estado pode tornar alguns produtos lucrativos e outros não, mesmo que os métodos de produção não tenham mudado [A Economia do Socialismo, Vértice, 1987, p.63]

O mais interessante da caracterização de lucro do parágrafo citado é exatamente sua não-caracterização. Afinal, como é que alguém “presume que os preços estejam fixos” e o que, afinal, significa “seja qual for a interpretação dada aos custos de produção”?

III. Como diria Lenin, “o que fazer?”

O leitor que é aluno de Economia e gosta de matemática pode ter seu sorriso diminuído aqui. “Puxa, parecia que o Claudio iria justificar o uso da matemática em economia e resolveríamos o problema de qualquer país. O que fazer?”

Não é que a matemática esteja errada. O problema é que mesmo gente da qualidade intelectual como Kantorovich ou Lange parece ter se deixado levar pela união de uma visão marxista que sempre acha que o indivíduo não tem consciência de classe (logo, classe melhor que indivíduo) com a maravilhosa abstração matemática na qual números não sofrem de problemas psicosociais.

Fica fácil pensar que realmente um modelo de Equilíbrio Geral, com “n” indivíduos, “m” firmas e “k” produtos pode ser resolvido sob poucas restrições de álgebra linear (e o exercício intelectual seria pensar em, digamos, problemas não-lineares). Sinceramente, este é um problema fácil. Só que não é o problema em questão. Em outras palavras, nem sempre o problema de escassez é representado da forma como queremos e nem a abstração teórica é isomórfica com a realidade (se fosse, não seria teoria…).

É a velha confusão entre Engenharia Social e Economia. Economia estuda a escassez e, portanto, problemas de troca, tentando compreender como (não) funcionam os mercados. Outra coisa, a chamada Engenharia Social, parece querer transformar a realidade partindo do pressuposto de que se pode agregar indivíduos tal como se os agrega teoricamente, o que é, convenhamos, um passo muito maior que as pernas.

Este vício é compreensível se você é um destes velhos socialistas. Por exemplo, vejamos novamente nosso amigo Wilczynski (A Economia do Socialismo, Vértice, 1987, p.28-9], em sua definição do “sistema econômico socialista”. Para ele, são características do socialismo: i. concentração do poder no Partido Comunista (em maiúsculas mesmo), ii. propriedade social dos meios de produção, iii. planejamento central da economia , iv. distribuição socialmente eqüitativa da renda nacional.

Em outras palavras, não é necessário, em um país no qual um partido concentra tanto poder e representa seu empregador máximo, desenvolver uma ciência preocupada com incentivos individuais. Dependendo da repressão, aliás, é até perigoso sair pensando nisto.

IV. De volta ao Gulag

Ao contrário do que pensa muita gente, o Gulag não existiu apenas no período leninista-stalinista: sua existência perdurou até a década dos 80, período em que muita gente no Ocidente já o dava como extinto, ou como fruto da fantasia de “agentes da CIA” como Soljenitsin. É neste mundo que se deram os incentivos estranhos citados no início deste longo post.

Intelectualmente, o Gulag também estava vivo na mesma época. Enquanto o Leste europeu buscava novas formas de organização econômica, um manual soviético acusava o “socialismo de mercado” de uma volta ao capitalismo em tons bem reprovadores (ver Ilíne, S. & Motilov, A. O que é a Economia Política, Edições Progresso, 1986, p.235).

Após tantas citações (quero ter a certeza de que o leitor saiba quem realmente disse o que, certo?), volto à minha pergunta original: qual a racionalidade de incentivos tão estranhos como o de se aumentar a produção?

Simples, você não pode usar um método científico como a Economia porque, como disse Rosa Luxemburgo num dos trechos acima, a vitória dos operários a transformou em “Economia Socialmente Correta”, logo, alvo de decisões de comitês ou do Partido. Deve o leitor sair do mundo “frio e impessoal” das “ciências burguesas” e dar atenção ao “socialismo científico”, provavelmente em interpretações dos escritos de Marx e Engels.

Socialismo real existe hoje apenas em Cuba e na Coréia do Norte. Na América Latina há um verdadeiro revival desta ideologia, como se a mesma pudesse existir descolada de suas consequências econômicas.

Alguns parecem ter adotado a fase idealista (ou “jovem”) de Marx, com sua 11a tese contra Feuerbach: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transformá-lo” [Marx, na Coleção “Os Pensadores”, itálicos no original da tradução de Giannotti, 1985].

Contraste isto com este trecho rawlsiano de Hayek (provavelmente Rawls leu Hayek):

…the whole justification of democracy rests on the fact that in course of time what is today the view of a small minority may become the majority view. [Hayek, “Individualism: True and False, in Individualism and Economic Order, 1948, p.29]

Em outras palavras, hoje, você quer transformar o mundo (sem pensar muito em sua ignorância), certo? Amanhã, você deixará o outro fazer o mesmo? Ou dirá que suas intenções são “ruins” ou “conservadoras”?

Concluindo, digo não ao Gulag e, outro dia, eu faço um estudo sobre este pequeno – mas muito esclarecedor – texto de Hayek. Isto se o Simi não fizer isto antes.

Claudio

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