Desenvolvimento econômico

Corrupção

Uma das propostas deste blog é entrevistar economistas sobre suas agendas de pesquisa. Para começar, o André Carraro, da UNISC, gentilmente respondeu algumas perguntas formuladas por mim, Claudio, através de e-mail. André fez sua tese de doutorado sobre os impactos da corrupção na economia.

Sem mais delongas, com a palavra, André.

1. André, por que “economia da corrupção”?

Corrupção é um problema antigo que tem recebido, nos últimos anos, uma atenção global destacada, tanto de organismos públicos como de privados, dos meios de comunicação, dos formuladores de políticas públicas, bem como do conjunto da sociedade civil, acerca das suas formas de atuação, seus determinantes e seus efeitos para a sociedade. Enquanto não existe ainda um consenso na literatura sobre como definir o fenômeno da corrupção, uma coisa está clara: corrupção é um problema de governo. Mais precisamente, corrupção envolve a ação racional de burocratas que possuem um poder de monopólio sobre a oferta de um bem ou serviço público, ou ainda, o poder discricionário na tomada de decisões que afetam a renda de grupos na sociedade civil. Por isso a utilização do termo economia da corrupção. A utilização do método de estudo econômico, com as idéias de custos de oportunidade e escolhas ótimas sendo utilizadas para entender as causas e conseqüências do fenômeno de corrupção em uma sociedade.


2. Este tema é recente na literatura nacional? E na internacional? Como você vê esta defasagem (se existir)?

A referência internacional para a área de economia da corrupção é o texto de Susan-Rose Ackerman de 1978 “Corruption: A Study in Political Economy que tem sido destacado como um dos textos seminais dessa recente área de estudo. Olhando para a cronologia dos textos seguintes da Susa-Rose percebe-se um vazio de dez anos até que em 1999 ela publicou o livro “Corruption and Government: Causes, Consequences and Reform” que é uma referência para os estudos desenvolvidos nos anos 90. Então, apesar de ter início nos anos 70, o tema economia da corrupção vai se firmar apenas no início da década de 90 como uma área crescente de estudos e publicações. Para isso, tem importância o início das pesquisas que tentam quantificar a corrupção, destacando-se o trabalho da Transparência Internacional. Da mesma forma, é nos anos 90 que órgãos internacionais como Banco Mundial e FMI percebem na corrupção uma das causas para a existência de problemas econômicos nos países.

No Brasil, os estudos mais recentes estão concentrados a partir de 1996, no início concentrados na Transparência Brasil, depois lentamente recendo a contribuição de outros órgãos e instituições de pesquisa. Atualmente, pode-se perceber o interesse de órgãos públicos como Controladoria da União, Banco Central e IPEA no desenvolvimento de estudos que auxiliem o entendimento da persistência da corrupção em governos no Brasil.

3. Você confia nos números que encontrou? Em outras palavras, até que ponto as estimativas destes estudos são confiáveis?

Cláudio, todo resultado de um estudo empírico depende, em parte ou no todo, da qualidade dos dados utilizados. Mesmo a pesquisa desenvolvida pela Transparência Internacional tem apenas 10 anos de série temporal, com a constante inclusão e exclusão de países. A consolidação desse esforço da Transparência Internacional pode motivar outras organizações a desenvolverem e aperfeiçoarem a metodologia de pesquisa. Com isso acredito ser possível obter resultados mais robustos para a compreensão das causas e consequencias da corrupção. Dado a sua relativa “juventude”, a área de estudo em economia da corrupção ainda está “verde”, precisando ser desenvolvida, tanto nos conceitos como nos métodos de análise. Por isso, os resultados existentes até agora são contraditórios, alguns fracos em consistência e outros deficientes em método.

4. Como você vê a realidade brasileira sob a ótica da economia da corrupção?

Sem muita surpresa. Quase toda literatura relaciona a presença de corrupção com a atuação excessiva do governo na economia. Os dados empíricos comprovam isso. A falta de liberdade econômica para alterar preços, para implementar negócios, para fazer comércio com o resto do mundo, geram os incentivos necessários para a presença de corrupção no governo brasileiro. Corrupção não existe por si só. Corrupção precisa de oportunidades e incentivos. O governo federal não combateu nem uma nem outra. De um lado, o governo Lula aumentou a participação do governo na economia brasileira, obtendo crescimento na receita pública em termos do PIB, mas também acenou uma maior atuação e/ou interferência do governo nas agências reguladoras. Essa forma de atuação política-econômica gerou as oportunidades. De outro, o governo federal ao não propor uma reforma de Estado continuou gerando os incentivos necessários para a existência de corrupção no governo.

5. Você acha que há diferenças regionais entre corrupção e economia no Brasil? Ou é um problema homogêneo, digamos assim, no país?

Nos meus trabalhos eu não encontrei qualquer relação entre aspectos culturais e corrupção. A existência de diferenças regionais entre corrupção e economia no Brasil então não poderia ser justificada por tal caminho. No entanto, estados possuem uma certa autonomia para legislarem sobre diversos temas regionais. Por isso, apesar de fazerem parte de uma mesma federação, cada estado brasileiro possui autonomia para decidir sobre a construção de instituições regionais, por exemplo órgãos de fiscalização estadual. A existência de diferentes instituições pode justificar a percepção de maior ou menor corrupção nos estados brasileiros.

6. Qual a importância da teoria econômica no seu trabalho? E a matemática? Muitos alunos reclamam que a matemática não ajuda. Foi o seu caso?

A contribuição da Teoria Econômica está em dar uma consistência de método e de raciocínio para um tema complexo que possuia uma já tradicional contribuição de outras áreas sem conseguir construir um conjunto sólido de conceitos e relações de causa-efeito para o problema da corrupção. Para entender uma relação econômica-social tal qual é a corrupção o arcabouço teórico da economia é muito útil por possibilitar expandir a análise da simples denúncia de corrupção, da culpa individual, da falta de ética, ou da necessidade de uma educação mais rígida. Em boa parte a teoria econômica ajudou a explicitar o conceito de corrupção, suas motivações e efeitos. Para isso, a utilização da matemática ajudou na construção de hipóteses e descoberta de relações entre variáveis que tornou mais claro o problema da corrupção. A minha experiência mostrou a importância de ter estudado matemática como aluno da economia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s