história econômica

Como a História ajuda no trato das estatísticas

Paul Bairoch é um nome que sempre me ocorre quando se trata de fazer boas perguntas (embora nem sempre eu ache que ele tem boas respostas). Em seu Mitos e Paradoxos da História Económica (a edição portuguesa do original inglês (1993) é de 2001), há um tópico no qual ele contesta a tese de que o ocidente teria sido o “principal traficante de escravos” do mundo.

Trata-se, obviamente, de um tese simplista e errada, embora muito difundida. E não é difícil entender o porquê. Basta lembrar que a escravidão vem de muito antes. Agora, o mais interessante são suas observações sobre o tráfico islâmico de escravos. Algumas para o leitor:

i. “Como assinala o historiador francês Marc Ferro ao analisar manuais de história, desde o momento em que o assunto diga respeito ao mundo islâmico, ‘a mão do historiador [africano] começa a tremer”. Em comparação com o tráfico europeu de escravos, o realizado pelo mundo islâmico começou mais cedo, durou mais tempo e, principalmente, envolveu um número maior de escravos. Começou no século VII e durou até o fim do século XIX”. [p.199-200] [grifos meus]

ii. “Tomando apenas o período em que os fluxos para o mundo muçulmano e para as colónias europeias se sobrepuseram, isto é, de 1500 a 1880-90, o total foi de 19-20 milhões. Nada [d]isto inclui baixas devidas a guerras de escravos”. [p.200]

E, agora, o mais interessante:

iii. “Actualmente há menos descendentes de escravos no mundo islâmico do que na América cristã. Isso deve-se ao facto de um grande número de escravos destinados ao mundo islâmico ter sido castrado“. [p.200] [grifos meus]

Ou seja, a castração islâmica dos seus escravos mascara as estatísticas. Se não fosse por isto, quantos descendentes de escravos negros teríamos no Oriente Médio de hoje? Não sei. Mas, se Marc Ferro está certo, teríamos africanos vivendo às custas do petróleo.

Assim, se algum adepto das teses das reparações financeiras por motivos que transcendem os séculos quer mesmo levar a sério este tipo de reivindicação, deveria ter ido à Cúpula Sul-Americano Árabe do ano passado com algum projeto de redistribuição de royalties do petróleo…

Claudio
p.s. o livro de Paul Bairoch merecia ser vendido no Brasil.

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Carga tributária recorde

Segundo noticia a imprensa, 2004 foi um ano de recorde em carga tributária: 35,91% do PIB. Segundo este artigo meu com o Ari e Ronald (a ser publicado pela Revista Brasileira de Economia de Empresas da UCB), isto está acima do que seria o economicamente ótimo, ou seja, 32%.

Em termos do Tax Freedom Day (uma medida que, no Brasil, foi introduzida pelo IL-RS e adotada pelo IBPT), isto nos dá 11 de maio como a data em que você está livre dos impostos (supondo que você trabalhe desde 01 de janeiro só para pagá-los).

A contrapartida de uma carga tributária destas deveria ser uma quantidade e/ou qualidade de bens públicos, digamos, de nível sueco ou britânico. Não é. E, sabe qual a piada que me ocorreu nesta semana? A de que o Estado brasileiro é tão, mas tão ineficiente, que a crise política o faz atrapalhar menos a economia. Daí os bons resultados da balança comercial, inflação e emprego. 🙂

Ok, é só uma piada. Mas ela contém questões importantes como, por exemplo:

i. “o tamanho do governo, suas causas e consequências” não é um tema puramente acadêmico. E quem topa o desafio de estudar isto?

ii. o superávit primário do governo será atingido apenas/preferencialmente por aumentos de carga tributária?

iii. cortes de gastos serão feitos com algum critério quando necessários, certo? Quais serão eles?

Enfim, é isto.

Claudio

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