Política monetária

Conversando sobre metas de inflação

Falar de metas de inflação não é fácil. Para minha sorte, existe gente como Carl Walsh. Graças a ele, posso tentar falar do assunto de maneira relativamente simples, aqui, neste blog. Minha intenção é apenas falar um pouco sobre metas com o leitor, ok? Então vamos lá.

Em seu Teaching Inflation Targeting: An Analysis for Intermediate Macro, Carl Walsh explica o modelo de metas de inflação para alunos de economia. O gráfico abaixo ilustra bem seu modelo.

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No eixo vertical, temos a taxa de inflação e, no eixo horizontal, o chamado “hiato do produto”. Este último se refere à diferença entre o produto efetivo (y) de uma economia e seu produto potencial (ypot). No gráfico acima ele é medido como em termos relativos: (y– ypot)/(ypot).

Não é difícil ver que é difícil medir o produto potencial pois, afinal, qual é o potencial de produção de uma economia em um dado momento do tempo? O Banco Central do Brasil (BC) e acadêmicos, de forma geral, têm se debruçado sobre este problema nos últimos anos.

A curva positivamente inclinada é a chamada Curva de Phillips e a outra é a regra de política monetária. Ela é negativamente inclinada porque o BC deseja minimizar o hiato do produto e a distância da inflação relativamente à sua meta…ao mesmo tempo. Em outras palavras, quando o hiato do produto diminui, as firmas se aproximam de sua capacidade máxima de produção e, portanto, aumentos de demanda por seus produtos tendem a gerar mais inflação. Por isto, há uma espécie de trade-off entre os dois objetivos: mais de um implica em um pouco menos do outro (não é difícil ver que um banqueiro central mais conservador teria, em suas preferências, uma Regra de Política Monetária menos inclinada).

Observe também que, no gráfico, a interseção (equilíbrio macroeconômico) das duas curvas se dá em uma nível de inflação maior do que “pi T” que é a meta de inflação do Banco Central.

Ok, as equações estão no artigo (que você deveria, realmente ler). Mas, por exemplo, com tudo o mais constante (o famoso ceteris paribus), um choque positivo de demanda agregada aumenta o hiato do produto. Em outras palavras, a curva da Regra de Política Monetária se desloca para a direita, dificultando o alcance da meta. No modelo, este choque é de natureza temporária e, portanto, ao final, a curva retornará à sua posição original.

O modelo de Walsh é bom para ilustrar a ação do FED e também do BC, lembrando que, para o FED, o objetivo explícito consiste em combinar um pequeno hiato do produto com a meta de inflação enquanto que, no Brasil, o BC não segue uma constituição monetária pois não é independente formalmente. Em outras palavras, para alcançar a sua meta, ele tem uma desvantagem adicional em relação ao FED: falta-lhe credibilidade. Como assim, Cláudio? Simples. Todos desconfiam, por exemplo, que o BC vai afrouxar a política monetária em época de eleição, submetendo-se ao controle de políticos….exceto no caso em que se sabe que o BC tem, legalmente, independência. Este é um dos motivos pelos quais não concordo com o argumento de que “basta a independência ‘funcional'(‘informal’) do BC”. Basta nada. Lembre-se: BC independente é sinônimo de responsabilidades bem definidas tanto pelo sucesso como pelo fracasso da política monetária.

Aliás, se é tão fácil aceitar que o BC tenha independência informal, que mal haveria em se formalizar isto? A não ser que alguém esteja mal intencionado, não vejo como a formalização poderia ser um problema.

Voltando ao modelo, alguns autores argumentam que a visão das metas – que Walsh resume tão bem – deveria ser alterada no que diz respeito à curva de Phillips. Para os economistas mais velhos, é bacana ler isto pois há um sabor de ironia no ar. Algo como entrar na máquina do tempo e voltar ao debate dos anos 80 entre Contador, Arida, Lara-Resende, Lopes e Modiano nas páginas da Pesquisa e Planejamento Econômico…sobre a especificação da Curva de Phillips no Brasil (e suas consquências em termos de políticas macroeconômicas).

No contexto atual, os principais argumentos parecem ser os de que se deveria considerar um maior detalhamento dos componentes da inflação. Por exemplo, para Gomes e Aidar, as metas deveriam considerar a divisão da inflação em seus componentes externo e interno, considerando não apenas as expectativas (como em Walsh), mas também a inflação do resto do mundo, a expectativa de desvalorização cambial e a expectativa de inflação doméstica.

Eu prefiro, contudo, especificações como a de Bogdanski, Freitas, Goldfajn & Tombini que mostra a importância que a inércia possui, forçando o BC a ser mais rigoroso do que o necessário para atingir suas metas. O leitor menos informado pode se perguntar de onde viria esta “inércia” mas não demorará muito para perceber que a mesma tem a ver com os preços administrados. Aliás, uma visão da inflação brasileira atual – incluindo a questão dos preços administrados está aqui.

Após ler este resumo, o desafio, na minha opinião, é pensar na proposta do deputado Delfim Netto sobre o déficit nominal zero. Em outras palavras, será que este modelo do Walsh nos dá uma boa visão do que acontece com a economia neste caso? Não sei a resposta, mas confesso: pensar sobre isto é fascinante.

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