Cerveja na vida acadêmica: um sinal de bom senso?

Acho que o Leonardo Monasterio (não confunda com Cesar Leonardo Monasterio) certamente terá algo a dizer sobre capital social após ler este interessante post do blog Mahalanobis sobre interação social e cerveja.

E, sim, leitor, fiquei feliz em ouvir que novas cervejas estão sendo criadas. Lembre-se do que eu disse sobre Ben Franklin.

Claudio

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Humor de domingo de manhã

Começa o domingo e vou ler meus jornais. Aí me deparo com os seguintes trechos de uma sobre comércio exterior:

No relatório de hoje do Itaú, Lígia destaca que, mesmo considerando-se apenas as áreas urbanas, que englobam 30% dos trabalhadores industriais chineses e 94% dos brasileiros, o salário no Brasil é quase o dobro da China: US$ 2,27 por hora trabalhada, contra US$ US$ 1,19 dos chineses. Os valores incluem os encargos sociais.

(…)

Segundo o governo chinês, o salário na área urbana na China, aumentou em média 13,5% ao ano em termos reais de 2000 a 2003. Apesar disso, o rendimento dos trabalhadores chineses é muito inferior ao dos brasileiros. Por isso, na avaliação da economista do Itaú, seria preciso uma valorização muito forte do yuan, além dos 2% ocorridos esta semana, ou uma intensa continuação do aumento de salário real dos chineses nos próximos anos, para reduzir essa vantagem competitiva da China.

Aí vem aquela onda de bom humor e você pensa: “Ufa…achei que a moça ia propor a desvalorização do real ou a queda do salário real dos brasileiros”.

Claro, não poderia deixar passar a chance de fechar a piada com a pergunta que todos querem saber: quanto custa um estudo destes num banco privado…na China? Eu não sei. Mas um bom artigo de jornal sobre o mercado de trabalho deles está aqui.

Claudio

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Falta um plebiscito sobre piscinas?

Eis um bom exemplo do que espera o leitor de Freakonomics: piscinas são mais perigosas do que armas para crianças com menos de três anos (registro gratuito). Vale a pena ler a entrevista. Levitt é um destes novos talentos que a gente tem de ler e pensar muito antes de criticar (ou seja, o cara é bom mesmo).

E você pode escrever diretamente para o autor usando o seu próprio blog. Um exemplo das discussões lá é este.

Claudio

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Conversando novamente sobre metas de inflação (um post não tão fácil sobre o tema)

Um dos primeiros posts deste blog foi sobre metas de inflação. Neste, quero apenas falar novamente sobre o tema, mas observando o que acontece segundo as equações do modelo.

O modelo, rapidamente

meta.jpg

A primeira equação mostra que o hiato do produto (a diferença entre a demanda agregada (y) e o produto potencial da economia) depende de variações na taxa de juros (r)e de choques de demanda (b) (e.g. um choque de demanda poderia ser um aumento na confiança dos consumidores).

A segunda equação ilustra como o BC se comporta. É a chamada regra de Taylor. Ela diz que o BC fixará a taxa de juros (r “barra”) em níveis maiores ou menores conforme o hiato do produto e o afastamento da inflação relativamente à sua meta. Claro que o BC pode ser mais ou menos preocupado com estes objetivos, o que se traduz no fato de que c1 e c2 podem não ter o mesmo valor.

Finalmente, a última equação é a famosa curva de Phillips. Ela mostra que se a economia estiver “super-aquecida” (= “se o hiato do produto for positivo = se a demanda agregada for maior do que a oferta potencial da economia), então a inflação aumentará. Além disso, um aumento no preço do petróleo (d) também aumenta a inflação.

Qual a lógica do modelo?

O que acontece se a economia está operando em sua capacidade potencial e com a inflação exatamente na meta estipulada pelo BC e ocorre um choque de demanda?

Bom, pense que, por algum motivo, os consumidores ficaram otimistas. Isto fará com que a demanda agregada aumente. As firmas tentarão produzir mais, mas não conseguirão. Os preços começam a subir. Não sobem de imediato se você imaginar que 0 < k < 1 na terceira equação acima, mas sobem.

O Banco Central, observando o que ocorre, segue a regra de Taylor: aumenta a taxa de juros. Isto faz com que o produto diminua e a economia entra num processo de desaquecimento. Inicialmente, o hiato do produto zera, mas a inflação fica em um nível mais alto.

Para fazer com que a economia volte ao seu nível de inflação anterior, o BC deve ser mais persistente (ou adotar uma meta para a taxa de juros real). Desta forma, a taxa de juros pode ser colocada em um patamar maior ainda, gerando nova recessão que, desta vez, deixará a economia com um hiato do produto negativo (a demanda agregada ficará menor que o produto potencial), pressionando a inflação para baixo e abrindo espaço para queda nos juros com novo crescimento da economia até que o hiato do produto esteja zerado e a inflação esteja em sua meta.

Que aspectos polêmicos existem neste modelo?

O leitor que conseguiu chegar até aqui pode se perguntar sobre alguns aspectos deste modelo. Primeiro, fica claro que não existe meta de inflação independente de uma meta de atividade real da economia (o hiato do produto).

i. Uma questão importante, claro, é saber qual é o produto potencial da economia, algo que já destaquei na conversa anterior.

ii. Outro aspecto diz respeito à inflação, em especial, à curva de Phillips. Como se sabe, a inflação pode variar conforme mecanismos mais complicados que incluam a expectativa de inflação. O modelo exposto é muito simples, para fins didáticos mesmo. E digo isto porque o que a expectativa implícita no modelo acima é a mais simples possível. Trata-se apenas de dizer que a inflação no período “t” é função da inflação no período “t-1”, algo que pode não ser muito razoável se “t” é medido em meses…

iii. E o déficit nominal zero? Também já falei sobre isto antes e acho que não é difícil perceber o problema agora. Louvável, claro, seja a idéia de controle de gastos públicos. Ninguém questiona isto. Entretanto, quando se fala de déficit nominal zero, fala-se de uma taxa de juros que não pode mudar com tanta facilidade. Ao contrário do que se pode imaginar, esta rigidez é ruim porque se ocorrer um choque de demanda ou de oferta, o Banco Central não poderá atuar com a rapidez necessária e, no final, pode-se ter uma crise pior do que a que se tem sob um regime de metas de inflação (veja que isto não é sinônimo de se aceitar um governo mal-comportado que gaste mais do que arrecade ou que gaste mal e busque zerar seu déficit primário através de aumentos da arrecadação ao invés de cortar gastos).

iv. Outro ponto é: quem decide a meta de inflação? O bom senso manda que sejam pessoas que enxerguem benefícios sociais maiores do que benefícios individuais (para si próprio) numa meta de inflação. Também é necessário que quem decida sobre isto conheça um pouco de economia. A definição do mecanismo constitucional de determinação de metas de inflação não é uma questão livre de polêmicas, com certeza.

v. E a rigidez dos preços (nosso parâmetro k)? Quanto mais demorada, mais dolorosa a ação do BC? Realmente existe um problema importante aqui. Se a economia opera em um ambiente pouco concorrencial, empresas (ou sindicatos) com poder de monopólio tornam mais lenta a variação de preços. Mesmo que se possa diminuir a expectativa de inflação futura, o fator inercial pode demorar a ceder. Outra fonte de inércia, claro, é a indexação da economia, algo que não se pode eliminar sem um certo cuidado com o aspecto legal dos contratos firmados entre indivíduos de uma sociedade. Em outras palavras, calote não vale.

vi. E o produto potencial? Ele fica paradinho em “y barra”? Não necessariamente. Políticas de investimentos em infra-estrutura podem deslocar este produto para um nível maior, permitindo à economia operar em um nível de renda maior. Claro que isto não é possível quando não existem investimentos privados e/ou o investimento público é uma piada de mau gosto. Juros altos podem, neste sentido, atrapalhar os investimentos privados? Podem, mas isto depende do quanto um investimento de longo prazo reage a mudanças de curto prazo na taxa de juros (algo que tem a ver com uma tal de tendência estocástica que, só pelo nome que assusta, não vamos explicar aqui).

Para terminar…

A idéia era fornecer ao leitor não tão leigo uma pequena idéia do que é o regime de metas. Espero que tenha gostado. Caso não goste de matemática, que tal isto?

Claudio

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Quem é mais sexy?

Confira neste link.

Mas já adianto que aeromoças, CEOs, designers de interiores, enfermeiras, professoras e médicas ganham de advogadas. Claro, estou falando no feminino mas as mulheres certamente perceberão que a categoria campeã (bombeiros)não aparecerá nunca em uma revista masculina. Por outro lado, os fetiches usuais continuam de pé… 🙂

Claudio

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E o CAFTA está chegando (UPDATED)

O CAFTA pode ser aprovado logo. É o que diz esta notícia. Agora, para o pessoal de Escolha Pública (Public Choice), os trechos mais interessantes da notícia são:

“I don’t see any benefits for workers, for sugar people,” said Democratic Rep. Charlie Melancon, who said his family owed everything to 225 years of sugar production in his home state of Louisiana.

“We’ve given away textiles. We’ve given away steel. We’ve given away fruits and vegetables,” Melancon said. “Now let’s just go ahead and give away everything and be dependent on every other country for our food and our defense.”

The House also passed legislation strengthening the monitoring of China’s trade policies, a bill that GOP leaders brought to the floor to satisfy lawmakers who wavered in support for CAFTA because they said the United States wasn’t tough enough in enforcing trade laws.

Ou seja, lá, como aqui, o jogo pelos privilégios nem sempre consideram a lógica econômica.

A propósito, eis aqui um ponto interessante sobre a exportação de empresas e o meio-ambiente e um outro sobre o meio-ambiente de forma geral.

Claudio
p.s. o UPDATED é o seguinte: tá aprovado.

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Jabá, mais uma vez

Mais uns pitacos sobre o jabá motivado pelos comentários do post anterior:

– Rádios são concessões públicas e, por vezes, canais de distribuição ao mesmo tempo. Elas estão a serviço do interesse público? Como eu não sei direito o que é isso, eu creio que as pessoas revelam seus interesses quando escolhem ouvir uma rádio, mesmo que ela aceite jabá. (Se a rádio não é ouvida, as gravadoras estão jogando dinheiro fora. Se são ouvidas, é porque o público quer ouvir, não é?)
– Fornecedores pagam aos supermercados para terem posições destacadas nas gôndolas. Isso é jabá? A TV Globo produz programas e os transmite. A Sony produz músicas e a Transamérica transmite. Qual a diferença? Em um caso temos uma firma e no outro, apenas uma. Isso importa?
– Qual é a fronteira entre o jabá e a campanha promocional? Dar uma cueca cheia de dólares é proibido. Tudo bem. Mas e um monte de camisetas com o nome da banda e da rádio? E discos para serem sorteados? E pagar o tour de divulgação?
– Não dá para comparar as gravadoras à Microsoft. Esta consegue se manter com base em externalidades de rede que tornam difícil – mas não impossível- a entrada de competidores. Já no caso das gravadoras, não existe qualquer barreira à entrada. Aonde estas existem é nas rádios AM/FM. Na verdade, o jabá é uma quase-renda que as rádios extraem das gravadoras.
– Um argumento final: a Sony pagava para as rádios tocarem Franz Ferdinand. Baita banda.

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Sugestão de leitura para leigos que querem ser menos leigos no assunto

Vários já disseram que todo brasileiro se mete a técnico de futebol e economista. Bom, sobre o último caso eu posso falar um pouco. E o que mais me chama a atenção, neste caso, é que há muitas críticas incorretas e muitas pertinentes sobre como um economista faz economia.

A melhor leitura sobre o assunto é “The Secret Sins of Economics” de Deirdre McCloskey. Se eu pudesse obrigar todos os alunos de Economia do mundo a lerem este livro (em macroeconomês: “se eu fosse o planejador benevolente”), eu o faria. Como não posso, fica aqui o convite.

Na página indicada acima, você encontra o livro (que é bem pequeno) para download…de graça. Ah, claro, sobre a autora (antigo “autor”), veja esta matéria.

Claudio

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Sua vida vai bem quando as operadoras de cartões vão bem?

Sem trabalhar muito nas séries (coletadas junto à ABECS e ao IPEADATA), eis um exemplo de que os indicadores de desempenho das empresas de cartões (crédito/débito) e o PIB parecem caminhar juntos, no longo prazo.

Ah sim, a correlação das variações não é tão alta, mas é maior que 50%. Ou seja, há muito o que se pensar antes de aplaudir o desempenho de nossos colegas dos cartões.

Eis aí um bom exemplo para alunos de econometria de séries de tempo…

Claudio

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Por que a Britney Spears toca no rádio.

Payola, jabá, pay-to-play. Os nomes são vários, mas significam a mesma coisa. As gravadoras pagam para as rádios tocarem seus artistas.
Ontem, a Sony Music teve que pagar US$10 milhõesem um acordo judicial para pôr fim à prática.

Qual é o problema com o jabá? Nenhum. Pense nas rádios como um braço das gravadoras, apenas canais de distribuição que são remunerados por isso. Além disso, quem disse que os programadores das rádios são mais hábeis em escolher as boas músicas do que os gestores das rádios? É de se esperar que as gravadoras usem o jabá como forma de superar a resistência à inovação. Afinal, qual o sentido de ficar pagando por um artista que os consumidores nunca vão gostar. É melhor escolher um que, vencida a barreira inicial, será um sucesso.

(Lembro que o Tyler Cowen conta no In Praise of Commercial Culture que o Chuck Berry só tocou nas rádios graças ao jabá. E que havia muito racismo no movimento contra o payola)

Leo

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Cadeias, prisões e correntes

Um colega meu, um dia, contou-me de uma tradução antiga que estava no (temível) livro de cálculo do Piskunov. Chain rule, para o tradutor, era regra da prisão.

Revisitando o meu Fundamentos da Análise Econômica, de Paul Samuelson, encontrei esta outra, genial, que é, de certa forma, o oposto: corrente de Markov ao invés de cadeia de Markov.

Claudio

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A hospedagem profunda

Quer diminuir a quantidade de moradores de rua? Então pare de fazer cara feia para os cinemas pornô 24 horasw. Essa reportagem do O Globo mostra que tais salas são utilizadas por pessoas que não têm casa ou moram longe do trabalho, que pagam 4 a 6 reais para dormir e, as vezes, ainda ganham um drink de cortesia. Que beleza!

E por que eles não vão para os albergues públicos? Porque eles os consideram os cinemas pornô mais aconchegantes e seguros que o lar doce lar oferecido pelo Estado. Imagine você, pornógrafo leitor, como é o albergue público…

Mas por que será que não existem albergues privados por preço semelhante( e sem filme)? Imagino que deve haver alguma regulamentação na abertura de albergues. O jeito é, então, dormir ouvindo a performance das atrizes…

Leo.

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“Por que eu não pensei nisso antes?”

Essa foi a minha reação quando eu assisti uma apresentação do Michael Kremer sobre incentivos “pull” para a criação de vacinas. O negócio é o seguinte: a maior parte dos incentivos para a inovação tecnológica são do tipo “push”, ou seja, subsidia-se os recursos necessários para a pesquisa. O problema é que não dá para controlar o uso dos recursos. Por exemplo, o sujeito ganha o dinheiro da OMS para uma pesquisa básica sobre malária (doença de pobre), mas, na verdade, desenvolve algo para a diabetes (doença de rico) e se enche de dinheiro. Parece que esse tipo de distorção é bastante comum.
A sugestão Michael Kremer inverte a lógica. Se o laboratório conseguir criar uma vacina com características tal e tal, a OMS se compromete a pagar US$XX ou a comprar XX milhões de unidades. Esses são os tais incentivos do tipo “pull”. Os fins são remunerados e não os meios.
Lembrei disso quando li essa notícia que uma firma de segurança paga prêmios para os hackers que descobrem bugs em seus sistemas.

(A propósito, Michael Kremer é um gênio. Publicou dois papers sensacionais no Quarterly Journal of Economics quando ainda fazia a graduação em Economia.)

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Unanimidade nas decisões de política monetária “é coisa nossa”?

O banco central japonês (BOJ) deve comemorar ou não a deflação? Segundo a profa Noriko Hama, não.

Tal como o FED, o pessoal do BOJ faz reuniões parecidas com a do nosso COPOM. O que me intriga é que tanto nas reuniões do FED quanto nas do BOJ, há sempre a votação individual dos responsáveis pela política monetária. No Brasil, nunca se publica isto, exceto uma vaga referência do tipo: “o resultado foi unânime” (ou “o resultado foi de x contra x-2”).

Alguns afirmam que isto é consequência da falta de independência do Banco Central brasileiro. Em outras palavras, dizer que a decisão é unânime é uma forma de de reforçar a posição de um banco sob cuja independência não paira muita certeza.

Será?

Claudio

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