Nem sempre a tecnologia te dá o que você pensa que ela vai te dar…

As the great theorist of technology Marshall McLuhan put it in Understanding Media, “It was the telephone, paradoxically, that sped the commercial adoption of the typewriter. The phrase ‘Send me a memo on that,’ repeated into millions of phones daily, helped to create the huge expansion of the typist function.

Ok, acho que o título deste post poderia ter sido menor e mais bem elaborado. Mas é exatamente isto que eu sinto ao ler um trecho como o reproduzido acima. Ah sim, uma meta-piada é que se existe algo horroroso no Kindle, digo, no aplicativo do Kindle, é a possibilidade de se compartilhar trechos anotados e/ou grifados.

Por exemplo, não consigo citar corretamente, com a página e tudo o mais (parece que usuários de Mac não têm este problema). Pode ser que eu seja ignorante no uso do aplicativo (acho que sou mesmo), mas tenho a impressão de que não estou tão errado assim.

McLuhan e os ciclos reais de negócios

Agora, veja como é o processo de inovação, na visão do McLuhan: a tecnologia em um setor não necessariamente tem os mesmos efeitos em outros setores e é por isto que não é tão simples quantificar seus efeitos, na prática. Claro que não vou também virar um destes luditas intelectuais que querem destruir a análise estatística de dados porque a acham imperfeita. Vou até dizer mais: a frase do McLuhan é perfeitamente compatível com a idéia de ciclos reais, com choques de tecnologia sendo positivos e negativos no agregado.

Aliás, este é o melhor exemplo que eu já vi para quando alguém perguntar sobre como é possível haver choques de tecnologia negativos. Vou passar a dizer: “olha, meu caro, lá na sociologia tem um cara, tal de McLuhan, que mostrou exemplos de efeitos mistos da tecnologia, no agregado. Quem sou eu para garantir que o efeito só pode ser positivo”?

Choque de produtividade no seu humor

Ironicamente (?), aquele pessoal crítico da economia que se junta lá na tribo dos sociólogos não percebe, mas eles têm bastante afinidade com a nossa aldeia de economistas adeptos da teoria dos ciclos reais. Não é uma delícia perceber isto?

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“Garotos, qual de vocês vai me enviar o relatório impresso para a reunião do diretor?”

A tecnologia pode mudar coisas que pareciam ser eternas…

…como, por exemplo, a injeção, que usamos para nos vacinar.

Agora, pense como economista: esta nova modalidade de vacina mudará diversos mercados. Alguns setores poderão desaparecer, desemprego surgirá e, claro, na sociedade pós-revolução industrial, intelectuais (que surgiram graças à dita cuja) falarão sobre futuros sombrios, atendendo à demanda de suas próprias curiosidades e também de grupos de interesse que exigirão a parada do progresso.

Não, não é fantasia. Lembre-se dos socialistas fabianos. Mas vamos em frente. Novos setores surgirão, outros crescerão como não haviam crescido antes, gerando novos empregos que poderão ou não exigir habilidades novas que poderão ou não ser rapidamente ensinadas aos novos trabalhadores.

Tal como já ensinado por Schumpeter, a destruição criativa fará seu trabalho de avançar nossa qualidade de vida, alterando as relações intra e inter-mercados. E assim por diante.

Claro, tudo isto pode acontecer em escala maior ou menos, conforme um bocado de coisas que ninguém é capaz de enumerar porque, sim, é humanamente impossível enumerá-las, mas a linha da história que tracei será a mesma.

No final de tudo isto, eu só queria mesmo destacar o quanto a tecnologia pode ter efeitos que nem sempre imaginamos e, sim, interesses vão se levantar para manter estruturas que serão mais e mais antiquadas. Algumas sociedades conseguirão equacionar isto melhor  – e vão se desenvolver – e outras farão como a sociedade brasileira (em sua grande maioria, na minha visão pessimista (?)) que cederá às tentativas de barrar o progresso…depois do cartão no ônibus seguido da manutenção do cargo de trocador, da manutenção daquelas moças nos shoppings que nada mais fazem do que pegar sua bandeja suja e levar até uma lixeira, eu não tenho me sinto muito otimista.

Como economista, é muito recompensador descrever como o mercado funciona (ou como a sociedade funciona, já que mercado estuda trocas que envolvem bens ou serviços que têm valor o que, praticamente, engloba tudo na sociedade…). Mas, enquanto cidadão, eu lamento pelas escolhas destes últimos governos no que diz respeito aos incentivos para que vacinas como esta pudessem ser criadas aqui.

Lógica dos mercados ou lógica das pessoas – A Divisão do Trabalho e a Tecnologia

Os meus quatro leitores devem estar se lembrando, entre umas e outras biritas carnavalescas, deste artigo no qual busquei explicar a lógica das pessoas. O final daquele texto mencionava a divisão do trabalho. Ao contrário do que alguns pensam, não existe Terra Plana, serpentes no oceano ou conspiração judaico-cristã que tenha criado a divisão do trabalho. Ela surgiu simplesmente, para o desespero dos neuróticos que enxergam fantasmas em guardanapos de papel.

Ter surgido naturalmente significa que é a melhor forma de se fazer as coisas? Sim e não. Sim, porque o resultado da cooperação (alguém pegue o dicionário: cooperação = voluntária) social, não sendo fruto de coerção de alguns por outros, não enfrenta resistências significativas por parte da sociedade. Claro, sempre existirá, digamos, um escravocrata que gostaria de ver outra divisão do trabalho, ainda que seja o único em um grupo.

O problema da divisão do trabalho, como o de qualquer instituição humana, é que a mesma pode estar, em determinado momento do tempo, sendo corrompida por métodos coercitivos. O mesmo escravocrata, no poder, pode criar uma divisão de trabalho que diminua a liberdade de trocas na sociedade. Alguém poderia dizer que uma divisão de trabalho coercitiva poderia ser “boa”. Por exemplo, pode-se propor que a escravidão seja proibida legalmente.

Sendo um pouco realista, é difícil acreditar que uma canetada vá terminar com os incentivos que criam a escravidão. Assim como a canetada não substituiu o socialismo soviético por uma sociedade capitalista, não há porque acreditarmos em milagres quanto à escravidão. Talvez alguém possa tentar, mas a história da humanidade está repleta de ditadores que tentaram provar que “desta vez havia a vontade política necessária” e as histórias nunca terminaram bem para boa parte da população.

Um fator que pode alterar a divisão do trabalho é a tecnologia. Sabemos que uma queda de custos gerada por ganhos de produtividade pode alterar preços relativos tornando a escravidão, por exemplo, custosa economicamente. Não é nenhuma desonra – e muito menos uma mentira – que a queda dos preços de eletrodomésticos ajudou a liberar a mulher do seu rotineiro e monótono trabalho doméstico. Tyler Cowen, em seu ótimo In Praise of Commercial Culture, cita o exemplo da queda de custos dos insumos relacionados à arte e o surgimento de excepcionais pintoras (sim, mulheres pintoras) na época do Renascimento.

Embora a mudança de preços relativos não seja o único fator a explicar a queda de hábitos preconceituosos na sociedade, também não é verdade que não tenha sido importante. Entretanto, muitos de nós, vaidosos, com pouco conhecimento histórico e ideologicamente viesados, gostamos de pensar que mudanças tecnológicas só ocorrem por vontade de alguns iluminados (e, no caso do viés ideológico, só vale a iluminação que não gera conflito com a mente do reprodutor dos conceitos ideológicos em questão).

Obviamente, a mudança tecnológica pode vir das mais diversas fontes. Desde experimentos cruéis como os promovidos por cientistas nacional-socialistas ou por gente claramente comprometida com o extermínio de pessoas até os resultados imprevisíveis (e imprevistos) de algumas experiências voltadas para a descoberta de remédios ou substâncias (com fins de obtenção de lucro ou não), o fato é que a tecnologia avança a cada momento da humanidade. Pode-se perguntar se a tecnologia evolui da mesma forma sob os mais diversos arranjos institucionais (formais e/ou informais). As descobertas de anos e anos de pesquisas parecem mostrar que há importantes incentivos que não podem ser desconsiderados para que o avanço tecnológico ocorra de forma mais acelerada.

Que incentivos são estes? Eles nos garantem que não haverá uso de cobaias humanas? Eles sempre nos darão avanços exponenciais? Ou lineares? Eles podem ser reproduzidos por um super-burocrata altruísta? Estas são apenas algumas perguntas que se fazem quando nos defrontamos com a fascinante história da tecnologia. A notícia desoladora é que nem sempre avanços tecnológicos nos garantirão “o melhor dos mundos” (para quem?). A parte boa da história é que há algumas pistas sobre que instituições precisamos para ver a tecnologia aumentar a produtividade e continuar gerando queda da pobreza e da fome no mundo. Finalmente, a outra parte desoladora é que os incentivos políticos nem sempre fazem com que governos adotem estas últimas instituições (veja, por exemplo, o que eu disse sobre a obsolescência planejada da democracia).

Um dia destes voltaremos a este tema.

Banco no celular

Eis uma breve análise da situação mundial. Breve e didática.

Uma única observação: para mim, o calcanhar de Aquiles que impede a disseminação deste tipo de serviço bancário é a segurança das redes. Como sempre, o baixo nível do capital humano é um obstáculo. Talvez devêssemos conversar com gente da área de Ciência da Computação (ou qualquer um de seus apelidos mais ou menos nobres: Tecnologia da Informação, Tecnologia de Redes, etc) para ver o que eles acham.

Se eu pudesse fazer uma entrevista, escolheria alguém daqui.

Pedagogia que até eu entendo

Dado que existe mercado para a venda de trabalhos em documentos de Word falsamente corrompidos, qualquer pedagogo sério (não os que estão preocupados em passar a mão na cabeça do aluno mimadinho) recomendaria cautela e o envio de cópias físicas do trabalho.

Estou certo ou não?

Abuso sexual: um direito de todos

Esta notícia beira os limites da realidade e da ficção. Mas ela mostra que o abuso sexual é um direito de todos e se há um papel para o Estado, certamente consiste em tratar igualmente todos os gêneros. Óbvio que se deve prender a mulher, tal como se prende o homem.

Mas, acredite leitor, há em fóruns de discussões, mulheres que insistem na tese de que só o homem deve ser preso. Mesmo após esta evidência.

p.s. eu sempre falo de tecnologia aqui. A tecnologia transformou os programas de TV em um bem privado (vide TV a cabo) e tem mudado muita coisa na sociedade. Na medida em que um “viagra” existe, mulheres, sim, passam a ser potenciais criminosas, tanto quanto os homens. Ironicamente, é a igualdade de gêneros levada ao seu limite, graças às descobertas científicas…

Tecnologia

Eis aqui um blog sobre tecnologia. Este, sim, vale a pena citar. Talvez seja um interessante caso para estudos em Organização Industrial quando se fala de economia da tecnologia. Nada deste “schumpeterianismo de quermesse”, para parafrasear o Alex Schwartsman, mas algo realmente sério, como exposto no livro-texto de Oz Shy ou no bom e velho Tirole…

A tirania do (meu) gosto contra o mau (= seu) gosto

Pedro Sette, de forma bem didática, explica o problema da pretensão de alguns no mercado, notadamente o cultural (ou, por que não, também o mercado de idéias). Uma bela aula de economia por um não-economista.

Os catastrofistas perdem mais uma

Sabe aquela história de que “videogame é coisa maligna” e tal? Pois é. Graças à tecnologia, ficou difícil repetir este bordão nas consultorias (e entrevistas) picaretas. Nas outras, tudo bem. Mas não me refiro a elas.

A pergunta que sempre me faço é: por que pessoas não conseguem ser bem resolvidas com a tecnologia? Adoram falar dela, mas basta terem suas profissões ameaçadas que já se transformam em ascetas naturalistas (Gaia, o espírito da Terra!). A vida é assim, gente. A criatividade humana, como disse Julian Simon, é nosso último recurso e, como tal, pode ter usos mais ou menos destrutivos. Agora, difícil mesmo é dizer que o uso é ou não destrutivo. Nem sempre isto é trivial. Aliás, nunca o é.  Sim, eu sei, uma coisa é desenvolvimento tecnológico, outra é desenvolvimento institucional. Claro, da moral e cívica de cada um, nem digo…