Brasil emporiofóbico e nada liberal…e quem diz isto são os mercados!

Cultura importa?

Como assim? Por causa disto. Vejamos o resumo deste interessante texto (a ser publicado em breve no Journal of Financial Economics):

Consistent with predictions from the psychology literature, we find that stock prices co-move more (less) in culturally tight (loose) and collectivistic (individualistic) countries. Culture influences stock price synchronicity by affecting correlations in investors’ trading activities and a country’s information environment. Both market-wide and firm-specific variations are lower in tighter cultures. Individualism is mostly associated with higher firm-specific variations. Trade and financial openness weakens the effect of domestic culture on stock price comovements. These results hold for various robustness checks. Our study suggests that culture is an important omitted variable in the literature that investigates cross-country differences in stock price comovements.

Eu, Pedro e Ari já havíamos encontrado evidências da importância de valores culturais em instituições (como a qualidade de um Estado (governo)), embora os autores dos artigo acima não nos citem. Sim, instituições informais importam, já disse Douglass North dentre outros.

O ponto dos autores é argumentar que a “cultura” seria uma importante variável omitida (meus alunos de Econometria III sabem isso de cor…) em regressões que comparam desempenho do mercado de ações entre países. Por que?

The literature suggests that individualistic investors are likely to be more confident in their ability to acquire and analyze information and less concerned about having different opinions from others (Markus and Kitayama, 1991; Heine, Lehman, Markus, and Kitayama, 1999; Chui, Titman, and Wei, 2010). Therefore, one would expect to observe less herding behavior and more firm-specific information being incorporated in stock prices, which would be likely to lead to lower stock price comovements in individualistic countries. [p.2]

Há algo muito interessante nos achados empíricos do artigo. Pensemos no Brasil, aliás, citado pelos autores em um trecho “exclusivo”:

A closer look at the data suggests that the insignificance of the tightness coefficient is due to Brazil. Brazil’s culture is both loose and collectivistic, which offer conflicting predictions for information opaqueness. [p.20]

Quando a presidente reclama dos mercados, ela reclama demais!

Ora, estamos completando 12 anos de um governo de esquerda – que se orgulha de ser anti-individualista (logo, orgulha-se de ser coletivista e não estou sendo irônico, leia qualquer documento produzido por seus simpatizantes) – e estamos em uma eleição no qual nenhum candidato mostra consistência na defesa de valores menos coletivistas: na melhor das hipóteses, um ou dois deles poderiam, com alguma boa vontade, serem caracterizados como social-democratas.

Este mesmo governo se queixa das oscilações de mercado porque está claro para a sociedade – da qual o mercado é apenas a sua expressão econômica – que a reeleição significa a continuidade de um modelo de política econômica que não gera prosperidade. Isto não é sinônimo – como querem nos vender os profissionais da publicidade que trabalham para o governo – de uma demanda por menos intervenção governamental na economia.

Embora, obviamente, o grau de individualismo/coletivismo de uma cultura possa variar entre países, é razoável supor que ela varie relativamente menos em um mesmo país. Assim, estamos falando de uma sociedade brasileira extremamente coletivista, caracterizada, não por coincidência, com um alto grau de atividade rent-seeking (veja o livro do Lazzarini ou o do Musacchio com ele, para exemplos mais recentes desta literatura) e, portanto, queixa-se de forma muito seletiva.

Ou você viu a sociedade se manifestar fortemente na época do mensalão, por exemplo? A mobilização da esquerda, que até fugiu ao controle dos seus líderes na véspera da Copa do Mundo, por exemplo, sequer foi ativada novamente com a saída lenta e gradual de mensaleiros da prisão. Ainda prevalece uma visão emporiofóbica (compatível com valores culturais que valorizam a perpetuação de traços culturais coletivistas) na sociedade brasileira, ora bolas. É este “mercado” que reclama da presidente. Uma mistura de acionistas e empresários e poupadores que não está se lixando para algum “liberalismo”, muito menos para algum “neoliberalismo”.

Concluindo….

No dia em que os mercados reclamarem de excesso de rent-seeking e a sociedade sair às ruas pedindo menos intervenção do governo em suas vidas, aí sim, poderemos falar de um eleitor mediano liberal ou libertário. Até lá, meus amigos, não, não estamos diante de um “mercado neoliberal que deseja acabar com o bolsa-família”.

Estamos, isto sim, diante de um mercado que opera sob altos graus de ineficiência econômica desejado por muitos de seus supostos empresários “liberais” que, por sinal, só financiam idéias liberais que não incentivem o uso da econometria para não terem seus poderes monopólicos ameaçados (já se vê, por aí, alguns jovens entusiastas deste discurso liberal que se diz pluralista, mas não aceita qualquer divergência de opinião e, sim, muitas vezes defende o fim do bolsa-família, do banco central, etc).

É o Brasil uma sociedade cheia de empresários jovens e realmente empreendedores, que arriscam seu capital para criar produtos novos? Não. É nossa cultura uma cultura que valoriza o indivíduo e, portanto, vê com bons olhos a liberdade de consumir? Não. É nossa sociedade caracterizada por um desejo de se livrar das intervenções governamentais em sua vida? Não.

Então, você, que reclama dos mercados “neoliberais”, engole o choro/não perca a cabeça e pára de reclamar tanto. Ou você vive no mundo que te vendem na propaganda governamental?

Como a descarga da privada do shopping pode nos dizer algo sobre a omissão dos indivíduos diante da perseguição a analistas de bancos?

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A foto acima é, realmente, a cara do Brasil. “Boulevard Shopping” é um shopping de Belo Horizonte. No banheiro masculino, todas as descargas estavam assim. Dá para adivinhar o porquê disto?

Para ser honesto – e eu sempre digo que no longo prazo somos todos otimistas (não é difícil ver o porquê, mas aqui está um resumo) – nem todo grande estabelecimento de lojas assina suas descargas. Há outras formas de se controlar isto como, por exemplo, colocar um funcionário nos banheiros para a limpeza e…checagem.

Há vários aspectos nesta foto, mas um deles é o da importância das instituições formais e informais para o bom funcionamento dos mercados. Este é um tema mais do que recorrente neste blog como bem o sabem os leitores sobreviventes. Obviamente, o tema não é originalmente meu, mas uma construção de vários anos de pesquisa aos quais devemos associar os nomes de alguns ganhadores do Nobel como Douglass North, Ronald Coase, Oliver Williamson e Elinor Ostrom, dentre outros.

De novo este papo?

Na verdade, não. Não há muito o que acrescentar. Os leitores que usaram a caixa de “busca” no alto da página podem encontrar textos positivos ou normativos (fortemente opinativos) que escrevi neste blog ao longo dos anos. Mas vale a pena lembrar, novamente, a relevância do tema. Eis um resumo rápido.

Outro ponto importante é a relação entre governo e setor privado. Digo, a relação incestuosa.

Mas um problema importante que decorre da má formatação das instituições é o (sub)desenvolvimento dos mercados. Disse Adam Smith – na tradução mais famosa, devida a George Stigler – que a divisão do trabalho é função direta da extensão dos mercados (o prof. Bodreaux conta como a vida de seu filho foi salva por isto aqui).

Voltemos à foto

Pergunte-se novamente sobre a foto acima. O que ela mostra? Uma imensa falta de confiança nas pessoas. Melhor dizendo, uma falta de confiança entre as pessoas: ninguém confia em ninguém. Todos pensam que serão roubados. Esta visão preconceituosa contra as pessoas tem a ver, obviamente, com a verificação empírica de que muitas coisas já devem ter sido roubadas naquele shopping ou em outros lugares.

Como boa parte dos roubos no Brasil não resultam em atuação eficiente da polícia (é até difícil obter estatísticas simples como a do percentual de recuperação de objetos roubados), as pessoas tentam se defender de algum jeito, no caso, tentando “marcar” a peça para diminuir seu valor ao potencial ladrão.

Agora, voltemos ao Adam Smith. Para que mercados funcionem bem, é necessário que haja uma divisão de trabalho digna do nome. Esta somente se desenvolve se a extensão do mercado atinge um certo tamanho (não me perguntem qual é o tamanho, não sei). Para que isto aconteça, dentre outros fatores, é importante que acreditemos que nosso trabalho será recompensado e, portanto, devemos contar com uma sociedade na qual não existam muitos incentivos ao roubo.

Aí eu te pergunto: qual é a visão sobre “mercados” que você tinha quando estava no colégio? Caso você não se lembre, vou ajudar: assista isto aqui. Pois é. No caso do Brasil não é apenas a desconfiança com a eficiência da segurança pública que faz com que tenhamos que assinar descargas, amarrar canetas com correntes ou algo assim. Há também a visão de que mercados são jogos de soma zero (“se eu ganho, você perde”).

A politização do ensino é tal que predomina a unilateralidade de uma única visão sobre o funcionamento dos mercados. Até mesmo futuros empreendedores, quando entram nas faculdades, espantam-se ao descobrir que mercados não são jogos de soma zero (aliás, nunca foram). Educar, no Brasil, também é um árduo trabalho de desfazer preconceitos…

O ocaso do Santander e o capitalismo de compadres: um reflexo da nossa sociedade e história?

Você viu algum porta-voz de algum “conselho”, “ordem” ou “sindicato” se manifestar sobre a bizarra demissão da analista do Santander? Não. Por que? Porque existe uam significativa parcela da sociedade brasileira que realmente não acredita no funcionamento dos mercados. Tendo vivido sobre um capitalismo de compadres (crony capitalism) por séculos, crê que esta é a regra.

Só pode ser contra as trocas voluntárias (outro nome para mercado) quem é contra a democracia, não é? Provavelente.  Pois veja o Brasil no ranking do Latinobarometro. Quem dá nome de rua a ex-ditador (Getúlio Vargas) pode não saber o que está fazendo exatamente, mas ao fazer pouco caso da demissão da analista do Santander, percebe-se que a sensação é a de que não vale a pena se preocupar com um desconhecido, não é?

Mas não é este o fundamento das trocas que faz mercados crescerem? Não é a confiança de que quem vendeu vai te entregar a mercadoria?  Não é na base da confiança com desconhecidos que você entra em um táxi, em um ônibus ou em uma farmácia? 

Há aí, sim, um pouco de história sobre liberdade de trocas, liberdade civil ou econômica. Embora o discurso ideologizado, politizado, não-científico tente negar, os dados não dão espaço a tanta descaso com a liberdade de expressão.

Não, não me venha falar, subitamente, de seu amor às leis. Você e eu sabemos que você (e eu) passamos boa parte de nossas vidas reclamando de leis irreais ou sem sentido. Aliás, nem houve qualquer apelo legal para a demissão (só para deixar claro, nem faço idéia de quem seja a demitida, ok?).

O campo que estudo, na História Econômica, está praticamente repleto de estudos mostrando que nem todos os sistemas legais são pró-prosperidade (ou, se você quiser, pró-pobre, embora saibamos que haja alguma controvérsia no uso de ambos como sinônimos, mas duvido que entre os polemicistas haja algum defendendo o fim da liberdade de expressão). Leis também são dinâmicas, meus amigos leitores, e mudam com o tempo. Mudam com a ação dos homens, os mesmo que, agora, estão se calando diante da demissão citada. 

Conclusão inconclusa…

Talvez este seja um aspecto esquecido neste episódio negro na história da democracia brasileira: o fato de que muitos de nós se satisfazem com a demissão de uma desconhecida. Afinal, desconhecido não é digno de confiança e confiança, como vimos, é um dos pilares do desenvolvimento dos países e os países desenvolvidos, ensinam-nos nas escolas, só o são porque nos exploram (alguém precisa estudar com calma a inexistência, na língua portuguesa, da distinção entre exploitation exploration…acho que foi Pedro Sette quem me chamou a atenção para isto há anos…).

Pois é. Você não confia na analista econômica, mas confia em um político. Pela mesma lógica, deveria abandonar seu médico e se consultar com um qualquer eleito para a Câmara Municipal. Não sei o resultado, mas sei que você faz parte de uma sociedade doente mesmo…

Desculpem-me pelo texto tão longo e algo desorganizado. Prometo tentar algo melhor, ainda que você, meu caro, provavelmente não me conheça pessoalmente…

Competição é sempre boa

Segundo o pessoal do Android Authority, descobri que o Office está liberado (pelo menos em versão básica) para celulares com Android e Iphones. Não é grande coisa, mas mostra que a Microsoft resolveu tentar recuperar seu mercado perdido para a Google.

Não acho que terá muito sucesso ainda, mas parece que a gigante deu um passo diferente.

Competição e postos de gasolina

Marcelo Soares, lá no livro de caras, mandou-me (e a muitos outros) este interessante link para um artigo científico sobre postos de gasolina e competição.

Vamos ver o resumo?

Usa-se um tradicional modelo empírico de entrada para investigar o grau de competição em mercados locais de postos de gasolina no Brasil. Mostra-se como o número de firmas nos mercados varia com mudanças na demanda e na competição com dados para 2.590 municípios considerados mercados isolados. Os resultados mostram alteração na conduta competitiva com o aumento no número de postos, sobretudo até a entrada do quinto posto. O modelo utilizado não requer dados de preços e, a partir de características dos mercados, tais como população e número de firmas, pode indicar se há um padrão geral de conduta anticompetitiva no varejo de combustíveis em pequenos municípios brasileiros.

Com uma base de dados desta, o mínimo que se pode fazer, caso você goste do tema, é ler o artigo, não é? Eu não conheço este modelo teórico que eles usam, mas se é possível tirar conclusões interessantes, mesmo que não se tenha a variável preço, eu fico intrigado. Bom, só lendo para ver do que se trata.

p.s. Mudando completamente de tema, eu não conheço muito sobre estas árvores de decisão e análise de regressão, mas o tema é bem comum na comunidade que usa R.

Mercados funcionam

Irônico mesmo é que, à boca pequena, todo mundo já ouviu de um amigo que isto é verdade. À boca pequena porque alguns temem o funcionamento do mercado. Outros, porque pode haver muita coisa perigosa para se descobrir. Os laranjais do lago Balaton ganham um novo significado, se é que você me entende.

p.s. Compare o verbete do autor citado acima na Wikipedia em português e em inglês antes de falar que não há viés, que somos bons, que o Corcovado decolou, etc.

O brasileiro selvagem, o trânsito e a liberdade

Descia a rua com calma e, lá embaixo, outro motorista vira e entra na mão oposta. Ao lado dele, espaço para se acomodar. Do meu, nenhum. Vejo que não há muita folga na passagem dos dois carros e, assim, páro e vou lentamente para não arranhar meu carro e nem o do outro motorista. O mesmo não resiste: “- Folgado, heim”? O que este episódio nos ensina? Primeiro, que muitos brasileiros não entendem a educação no trânsito. Quem entra na via não tem a preferência sobre quem nela já está. Em segundo lugar, o episódio mostra que o brasileiro pode ser bem selvagem em situações do mais absoluto cotidiano.

Você deve se perguntar, imagino, sobre como eu vejo um Brasil mais liberal gerando mais prosperidade para todos já que o nível de educação de gente como este motorista beira à selvageria (sem ofensas aos que habitam as selvas). Você pode se perguntar mais: como é que o brasileiro viverá em sociedade se não tem, em média, um nível de educação decente? E o que dizer do nível de leitura: dois livros (contando ebooks) ao ano, segundo uma pesquisa divulgada há algum tempo, com surpreendente baixo nível de estardalhaço, na imprensa?

Geralmente, 90% dos meus amigos mais autoritários começam seu argumento desta forma. Quase posso enxergá-los dizendo: “- E agora, camarada? Este imbecil aí vai aprender o tal liberalismo”? Ou então: “- Eu não te disse? Brasileiro não sabe viver em sociedade. Não tem jeito mesmo”. Daí passam para todo tipo de solução (principalmente se a conversa ocorrer em um boteco…) como: “- Tem que botar este povo na linha com leis mais duras”! Ou: “- Este povo tem que ser obrigado a aprender no chicote. Precisamos de mais “militarismo”!

Os argumentos, digamos, brasilocêntricos, sempre fazem questão de enfatizar a estupidez do povo brasileiro. Por algum motivo mágico, os críticos, também brasileiros, escapam deste estado de burrice e alegam que isto é normal porque “- Eu tenho estudo, eu fiz faculdade”. Bem, infelizmente, muitos destes meus amigos são capazes de furar filas, dirigir como o imbecil acima, etc. Ou seja, não é tanto a educação formal a causa do problema, embora ela seja importante.

Por que brasilocêntrico? Bem, porque não é verdade que comportamentos assim não ocorram em outros países. Por exemplo, os suíços podem portar armas e não saem por aí matando gente em escolas. Logo, dizer que desarmar as pessoas soluciona o problema da violência no Brasil não é uma afirmação lá muito sólida. Outro exemplo interessante e triste é o do estupro de mulheres. Nenhuma lei impediu, até hoje, que o fenômeno terminasse em qualquer lugar do mundo. Entretanto, parece ser correto dizer que – voltando à Suiça – haja menos estupros neste pequeno país europeu do que no Brasil (mesmo que façamos as costumeiras normalizações como “estupros por 10 mil habitantes”). Então, nada de brasilocentrismo (ou jabuticabismo).

Sabemos, graças a pesquisas as mais diversas, que há algumas características impressas em nosso DNA por conta do processo evolutivo (e lembre-se que macacos podem ser tão ou mais violentos que os seres humanos). Por outro lado, nossa evolução também nos faz criar instituições que prolonguem nossa sobrevivência. Tais fatos valem para brasileiros e não-brasileiros, claro. Não é difícil se aceitar que nossa sobrevivência tenha uma relação positiva e forte com a renda per capita (ou da renda familiar), o que nos leva, para a tristeza dos que odeiam a economia, à inevitável necessidade de entender que tipo de instituições geram mais ou menos renda per capita (e, eventualmente, que instituições geram sociedades menos desiguais).

Sobre esta questão, os economistas têm trabalhado um bocado e, claro, sabemos pouco ainda. Nosso conhecimento parece indicar alguns fatos surpreendentes e outros nem tanto. Por exemplo, sabemos que algumas instituições geram maior renda para as famílias do que outras porque estas instituições foram moldadas (geralmente por ninguém em particular ou como resultado inesperado de alguma medida tomada por alguém, no governo ou não) de maneira a incentivar as trocas voluntárias entre pessoas.

Sabemos também que há ambientes que poderíamos chamar de “cultural”, no sentido de certos valores que alguém poderia chamar de “base moral” que levam ao desenvolvimento. Por exemplo, sabemos que pessoas que valorizam matar outras pessoas não são lá muito propensas a trocas voluntárias e preferem o roubo. Este não é um bom valor em termos das trocas voluntárias mas, surpreendentemente, pode ocorrer de o roubo gerar, de forma não-intencional, instituições pró-desenvolvimento. É possível imaginar que a abundância de terras em um vasto continente norte-americano no início de sua colonização tenha gerado pouca demanda por direitos de propriedade privados. Não-intencionalmente, o crescimento demográfico torna a terra mais escassa e, portanto, esta demanda pode mudar.

Que valores são os “melhores” para gerar uma sociedade próspera e pacífica é algo que não sabemos responder ainda. Por outro lado, parece mais interessante pensar que sua descoberta é um processo de tentativa e erro que pode acertar seu alvo se não for tolhido por instituições ruins. Por exemplo, ao proibir os moradores de um bairro de passearem com seus filhos numa praça, estará o governo gerando pessoas enclausuradas com todas as consequências que daí advém (boas ou más).

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O tema é, sem dúvida, polêmico e cheio de arapucas ao longo do caminho. Entretanto, percebo que até mesmo o pobre motorista sem noção de educação básica pode aprender a dirigir melhor em uma sociedade mais liberal do que em uma sociedade autoritária. Aliás, países mais livres (tomando apenas a dimensão econômica) também parecem ser países com menos fatalidades no trânsito (veja o gráfico acima). Pura correlação ou há uma conexão causal? Será que a liberdade econômica gera infra-estrutura melhor e, portanto menos acidentes? Ou será que a liberdade econômica é compatível com uma atitude menos violenta e, portanto, há menos acidentes?

Não tenho a resposta, mas imagino que o leitor tem muito a ganhar se pensar neste problema e, claro, cuidado com o trânsito: motoristas mal-educados e violentos ainda não são a exceção neste país…

Fonte dos dados: Wikipedia (verbete: List of countries by traffic-related death rate) e http://www.freetheworld.com.

Libertários são libertários…ponto.

Ao dizer “capitalismo”, as pessoas não querem dizer simplesmente livre mercado, nem simplesmente o sistema neomercantilista vigente. Ao invés disso, o que a maioria das pessoas quer dizer com “capitalismo” é esse sistema de livre mercado que atualmente prevalece no ocidente. Em resumo, o termo “capitalismo”, da forma como é geralmente utilizado, esconde uma suposição de que o sistema atual é um sistema de mercados livres. E já que o sistema atual é, na realidade, o sistema do favorecimento governamental de empresas, o uso comum do termo carrega consigo a suposição de que o livre mercado é o favorecimento governamental de algumas empresas (23).

Então, agarrar-se ao termo “capitalismo” pode ser um dos fatores que reforçam a confusão do libertarianismo com a defesa do corporativismo (24). De qualquer forma, se a defesa dos princípios libertários não é mal compreendida – ou pior, se é compreendida corretamente! – como a defesa das corporações, a relação antitética entre o livre mercado e o poder corporativo deverá ser continuamente destacada.

Trecho tirado daqui.

A beleza do mercado

Estava a ler um antigo livro de Armen Alchian. Aí encontrei a melhor definição da função social da firma capitalista: a de suprir o mercado de produtos sob uma situação de demanda incerta. 

O mais louco de tudo é que a história provou que este arranjo – o mercado – consegue dar conta disto enquanto a opção socialista é um fracasso nato na eficiência econômica e na distribuição de recursos. Mais ainda, esta bela função social da empresa tem sido desprezada e esquecida por muita gente interessada em ganhar dinheiro arrancando recursos da sociedade para si (por meios que nunca envolvem pesquisar o mercado para tentar obter lucros). 

Engraçado como as pessoas se esquecem de como o arranjo impessoal do mercado livre lhes dá até o conforto de criticarem este mesmo arranjo. Elaborarei, quem sabe, mais sobre este ponto depois.

Enquanto cristãos brasileiros recorrem ao Estado para promoverem suas “crenças”…

Gwartney mostra que outros cristãos são possíveis.

Quando as decisões são tomadas politicamente, as visões minoritárias, geralmente, são suprimidas. Por exemplo, em uma escola pública, a maioria decide se serão permitidas orações, se haverá aulas de educação sexual e qual deverá ser a ênfase nas habilidades básicas. Aqueles que não concordam com a decisão deverão desistir ou então pagar duas vezes pela educação, uma vez nos impostos e outra nas mensalidades da escola privada.

Um sistema de mercado permitiria que cada minoria fosse representada. Por exemplo, sem interferir na liberdade dos outros, alguns pais poderiam enviar suas crianças para escolas que permitem orações. Cristãos praticantes, que freqüentemente se encontram em minoria, deveriam apreciar esse aspecto do capitalismo, que permite que pessoas tenham objetivos diferentes sem conflito ou rancor.

Será que sobreviveremos ao catolicismo brasileiro?

p.s. outros religiosos podem adaptar suas perguntas a seus credos. Basta lembrar do “brasileiro” para distinguir a religião entre os selvagens da religião nos países mais tolerantes.

Como o mercado pode ajudar em desastres naturais

Uma leitura comum – e errônea – acerca do funcionamento do mercado é a de que o mesmo seria incapaz de ajudar as pessoas a resolverem problemas derivados de acidentes ou catástrofes naturais. Será isto verdade? Os eternos pterodoxos da ala “criado-pela-avó-e-cheio-de-insegurança” são raivosos na crítica: como são incapazes de tomar qualquer iniciativa, vêem o mercado como o mal satânico.

Há críticas razoáveis ao mercado, mas elas não vêem da pterodoxia. Elas só vêem de quem entende o que é o mercado e o que ele faz de bom para a sociedade. Creio que uma discussão muito frutífera pode vir desta interessante coletânea de textos sobre os efeitos da catástrofe de New Orleans. Trata-se de um e-book muito bacana (mas não tão bacana como este…?)

Julian Simon’s “last resource”

Julian Simon chamava a criatividade humana de “o último recurso”. A criatividade do brasileiro para driblar as dificuldades é um belo exemplo de funcionamento dos incentivos sobre a mente humana. Neste caso, o exemplo é mais bacana porque mostra o funcionamento do mercado.

Democracias menos liberais são também as mais falidas? – o argumento anti-mercado

Como sabem os leitores deste blog, um argumento comum ouvido entre as trincheiras não-liberais (sem dados para comprovar a tese, claro, mas com muito líder sindical em cima de caixotes bradando como Mussolini) é o de que o comércio “escraviza e destrói”. Para esconder as mamatas que recebem do governo, espalham por aí que o individualismo é uma ficção ou um pecado.

Pois bem, o gráfico abaixo não tem mais do que 2000 caracteres, mas mostra uma correlação entre dois rankings. Em um deles, o Sudão está entre os primeiros (estados falidos). No outro, os EUA está entre os primeiros (condições favoráveis a criação de empresas…privadas).

Se há alguma explicação para este gráfico, eu arriscaria que governos mais falidos, aqueles que maltratam mais sua população, que são péssimos provedores de bens públicos, são também os que mais dificultam a criação dos mercados.

Pergunte ao seu professor: por que poderia haver uma relação como esta, do gráfico acima, se todo mundo diz que liberalismo só é compatível com sociedades que oprimem os cidadãos?

A tirania do (meu) gosto contra o mau (= seu) gosto

Pedro Sette, de forma bem didática, explica o problema da pretensão de alguns no mercado, notadamente o cultural (ou, por que não, também o mercado de idéias). Uma bela aula de economia por um não-economista.