Foi uma melhoria de Marshall: o dia em que encontrei David Friedman

20151014_223209Nos anos 90, eu me via perdido em torno de um problema com a minha dissertação: eu tinha os dados, algumas idéias, algumas teorias, mas nada que me embasasse, teoricamente, o problema de secessão de cidades. Não da forma que eu achava ser necessário. Na época, eu já estava devidamente entusiasmado com Public Choice e já havia lido algo do Buchanan sobre o tema.

Foi assim que encontrei o artigo de 1977 de David Friedman. Para ser honesto, eu não me lembro bem de como cheguei ao David Friedman porque eu também lia muito sobre libertarianismo. De qualquer forma, em meio à árdua tarefa de escrever a dissertação, eu resolvi comprar o livro que, com certeza, foi um dos que mais me influenciou: The Machinery of Freedom.

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Valeu, Thomaz, pela foto!

Eu acreditava que as pessoas mudavam muito pouco e que nada seria capaz de alterar suas crenças, ainda que na margem. Ainda sou assim, mas o livro alterou várias de minhas idéias, na margem e, agora percebo, criou novos problemas sobre os quais eu nunca havia pensado antes, mesmo já tendo lido sobre os mesmos eventos que Friedman trabalha neste livro.

Hoje, por uma imensa gentileza do Reginaldo e do pessoal do IFL, eu pude encontrar David Friedman e conversar rapidamente com ele. Saudei-o com uma piada (similar ao meu aperto de mão com Sam Peltzman seguido de: “Now, that’s the Peltzman effect”). Lembrando-me da originalidade de Friedman quanto ao conceito de bem-estar, saudei-o dizendo: “It’s a Marshallian improvement to meet you”. Bem, eu tentei falar com alguma encenação, mas eu estava visivelmente emocionado. Minha impressão é que ele percebeu e, argutamente, não levou adiante. Convenhamos: é uma piada muito nerd. Mas quero crer – ou creio, já não mais sei – que vi um sorriso discreto em seu rosto.

Uma semana antes do evento eu, entusiasmadamente, espalhava pela rede a notícia: David Friedman estará em Belo Horizonte! Mas eu não havia notado que era necessário fazer uma inscrição. Nada muito sério, mas eu teria que ficar em pé. Novamente, o pessoal do IFL veio em meu socorro e, com uma gentileza que raramente vejo, ofereceram-me um de seus lugares reservados. Fazia tempo que não me sentia tratado como gente.

A palestra? Foi sensancional. Graças ao esforço dos meninos do EPL, ela foi filmada (não é um absurdo que não tenhamos na faculdade, ainda, estas palestras filmadas e arquivadas?). O tema foi o futuro e, bem, vou ter que comprar o livro dele (ou ler a versão que está em sua página).

Friedman não é um economista convencional. Eu sei disto desde quando devorei seus dois livros-texto: Price TheoryHidden Order (que ele, explicou-me com aquele bom humor, fez para dois tipos de caras inteligentes: o que estuda economia e o leigo inteligente que gosta de economia). Usei seu exemplo do paradoxo do aluguel por anos (lecionei Teoria do Consumidor para consumidores de conhecimento por mais de 10 anos).

Para você que é um leitor mais novo e leu Freakonomics, saiba que muito do lado divertido da economia já havia sido mostrado por Friedman nos dois livros-textos citados. Ele e Steven Landsburg foram minhas leituras por anos, mostrando-me que o que eu ensinava era muito mais divertido e útil do que eu pensava. A consequência ruim é que hordas de alunos desinteressados passaram a me deixar mais triste e a consequência boa é que aqueles cinco que curtiam entenderam a graça da coisa.

Economia é como artes marciais: nem todo mundo merece mesmo mudar de faixa.

Estou ainda muito emocionado com este encontro e a breve conversa. Meu inglês engasgou, o coração bateu forte. Mas o que poderíamos esperar de um estudante que encontra o autor do livro que foi, talvez, o único livro que sempre citei como sendo aquele que conseguiu mudar marginalmente algumas da minhas idéias e também me mostrar novas perspectivas?

20151014_211410Você não precisa concordar com tudo que Friedman diz, mas não há como não admirar seu intelecto, sua retórica e sua imaginação. Aliás, se há uma palavra que ele destacou hoje foi a imaginação. Mentes turvas, com preguiça, não imaginam tão bem quanto poderiam e é por isso que você, leitor, e eu, autor do blog, devemos deixar de lado a preguiça, estudar e pensar em cenários do tipo: suponha que… que é a essência da boa teoria econômica.

Vou sentir saudades do David Friedman. É um cara com o qual você quer tomar um café enquanto conversa no intervalo.

p.s. Teve até poesia na palestra. Eis aí um cara de cultura!

Propaganda gratuita: David Friedman em BH

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Já leio (e uso seus livros) o David Friedman há anos (meus alunos mais antigos sabem de como eu gostava de usar o seu “paradoxo do aluguel”). Fui um dos primeiros a comprar seu livro informal de Law & Economics (você ganhava um autógrafo do autor…não preciso dizer mais nada, né?).

Seu livro, The Machinery of Freedom, foi decisivo na reavaliação de muitos conceitos que eu, previamente, achava que fossem mais sólidos. Sempre cito como um dos poucos livros que realmente mudou minha vida.

Não é um economista para o qual você fará perguntas acerca do ciclo econômico, da inflação ou das pedaladas fiscais. É um economista para o qual você perguntará sobre sua vida, biquinis, cachorro-quente e tudo o mais (quem já o leu, entendeu a referência).

Fosse eu um aluno de Direito ou de Economia, iria. Aliás, muito professor – de ambos os cursos – deveria ir lá para fazer aquelas perguntas para as quais acha que tem as respostas. O resultado pode ser interessante…

Econometria e hipóteses

David Friedman tem um belo texto, aqui. O tema? Avaliações de professores. O legal é que os pesquisadores fizeram algo realmente relevante agora:

It judged the quality of teachers by how well their students did in later courses,  compared the result to student evaluations of teaching quality, and found that the two anti-correlated. On average, good teachers get bad ratings, bad teachers get good ratings.

As avaliações que já vi sofrem de todo tipo de problema e um deles é que não se olha para o futuro, apenas para o passado. Então, o estudo citado por Friedman já ganhou minha atenção e boa vontade.

Além disso, há aspectos que são importantes para gerar viés nas respostas. O primeiro deles, comum em alunos pelo mundo todo:

The most obvious one is that many students don’t like to work hard. A professor who does not assign much homework or reading and grades easily might get better ratings, from many although not all students, than one with the opposite pattern. My daughter, as a student at Oberlin, was struck by the fact that most of the other students in a class were happy when, for some reason, it didn’t meet. The same pattern—study seen as a cost, not a benefit—might well apply here.

Em segundo lugar, a dificuldade de se lidar com idéias difíceis de serem apre(e)ndidas:

There is a second and less obvious possible reason. Correct ideas are frequently hard. Easy ideas are frequently wrong. My standard example is from popular discussions of foreign trade issues. Most of them take for granted a view of the economics of trade, the view implicit in terms such as “unfavorable balance of trade,” that  economists refer to as the theory of absolute advantage. That particular view of the subject has been obsolete for about two hundred years. But while the theory of absolute advantage does not make sense if you think about it carefully, it is considerably easier to understand than the theory of comparative advantage, which does. That is why the former was worked out first and why it has had such a successful postmortem career.

David Friedman foi ao ponto: (a) falta de vontade estudar e (b) tópicos difíceis de serem entendidos combinam-se de forma a gerar uma tendência em jogar a culpa em terceiros (sociedades mais emporiofóbicas, acredito, possuem esta característica, pois reputam o sucesso individual muito mais às conexões com terceiros ou sorte do que com o esforço próprio, mas isto é uma hipótese para discutirmos outro dia).

E no Brasil? Qual a visão do brasileiro acerca do comércio exterior?

Nossa Receita Federal, eu sei, acha que o comércio exterior é uma imensa desculpa para tributarem qualquer importação. Agora, o que o brasileiro pensa? Será que a resposta será similar à dos norte-americanos?

Alguém conhece uma pesquisa similar? Este bando de políticos que fazem campanha e que dizem representar os brasileiros têm alguma pesquisa a respeito? Eu gostaria de saber. Jovens brasileiros parecem insistir em uma noção de comércio que eu diria, até, esquizofrênica. Mais ou menos assim: o brasileiro adora consumir mais produtos, mas sofre de um certo chavismo infantil – talvez fruto de uma doutrinação tímida misturada à falta de informação – no qual ele percebe qualquer produto estrangeiro como uma ameaça.

Em resumo: um IPAD é ótimo, mas um IPAD é uma ameaça (maligna) contra nossa nação.

Epílogo: “nação”, cara-pálida?

Aliás, o que é mesmo uma nação? Vamos subverter um pouco o sujeito que está em sua zona de conforto.

Consider two nations, each claiming the same piece of territory. Each may try to gain its ends by force, threats, or offers of payment or exchange. It seems reasonable to suppose that the outcome will be efficient, that the territory will end in the control of the nation willing to pay the higher price. The alternative conjecture would be that the stronger nation will usually be the winner, since it can, if necessary, annihilate the other. Under circumstances of total war, this is doubtless true. But in a world of many nations, the winner of a war of annihilation, although better off than the loser, may be seriously disadvantaged with regard to all other nations. The use of such tactics is then unprofitable and the threat of them implausible. So it seems reasonable to suppose that what determines the winner is not the total resources possessed by each nation but the resources each nation is willing to spend to gain its end and that this will correspond roughly to the value of the end. 

Territory may be of value to a nation for many reasons of strategy, sentiment, politics, or economics. We will assume that the reason of chief importance for the phenomena we wish to explore is economic. More specifically, we assume that the value to a nation of any territory is the increase in tax collections made possible by control of that territory, net of collection costs. 

Sensacional, não? Neste artigo de 1977, David Friedman faz a pergunta que nem sempre ocorre às pessoas: não seria uma nação aquilo que foi conquistado por alguém, com fins de maximização de riqueza? Assim, não é uma nação aquilo que se caracteriza por uma “cultura”, “língua”, “povo”. Na verdade, o que prevaleceu na conquista foi alguma “cultura(s)”, “língua(s)” ou “povo(s)”. Acha estranho? Então me explica a diversidade cultural, linguística e de populações da China comunista.

Mercados funcionam

David Friedman – que já está no Brasil, salvo engano – concede uma curta entrevista para o ZH. Ao mesmo tempo, Fred Foldvary tem um ponto interessante: mercados não falham nunca.

Para criticar os autores, claro, tem que ler antes, né? Portanto, cuidado com os comentários. Particularmente, ainda estou com Friedman.

Tipos de liberais

Só para lembrar, nos EUA, “liberal” é sinônimo de “social-democrata”. Já “conservative” é algo como “conservador” mesmo. Logo, os liberais americanos se chamam de “libertarians”. Bem, vamos ao caso. Tyler Cowen criou uma taxionomia sobre os libertários dos EUA:

1. Cato-influenced (for lack of a better word).  There is an orthodox reading of what “being libertarian” means, defined by the troika of free markets, non-interventionism, and civil liberties.  It is based on individual rights but does not insist on anarchism.  A ruling principle is that libertarians should not endorse state interventions.  I read Palmer’s book as belonging to this tradition, broadly speaking.

2. Rothbardian anarchism.  Free-market protection agencies will replace government-as-we-know-it.  War is evil and the problems of anarchy pale in comparison.  David Friedman offered a more utilitarian-sounding version of this approach, shorn of Misesian influence.

3. Mises Institute nationalism.  Gold standard, a priori reasoning, monetary apocalypse, and suspicious of immigration because maybe private landowners would not have let those people into their living rooms.

4. Jeff Friedman and Critical Review: Everything is up for grabs, let’s be consequentialists and focus on the welfare state because that’s where the action is.  Marx is dead.  The case for some version of libertarianism ultimately rests upon voter ignorance and, dare I say it, voter irrationality.

5. “Hayek libertarianism.”  All or most of the great libertarian thinkers are ultimately compatible with each other and we have a big tent of all sorts of classical liberal ideas.  Hayek and Friedman are the chosen “public faces” of this approach.  “There’s a classical liberal tradition and classical liberal values and we can be fuzzy on a lot of other things.”

Acho que fico entre 1 e 5 tendo simpatia pela abordagem de David Friedman que eu não classificaria como Rothbardiana já que o fundamento não-austríaco de Friedman costuma ser rejeitado por boa parte dos seguidores de Rothbard.

Como toda taxionomia, esta é sujeita a críticas, mas eu gostei. Gostaria, na verdade, era ver uma classificação liberal para o Brasil. Aposto que quase não existem tendências.