Econometria e hipóteses

David Friedman tem um belo texto, aqui. O tema? Avaliações de professores. O legal é que os pesquisadores fizeram algo realmente relevante agora:

It judged the quality of teachers by how well their students did in later courses,  compared the result to student evaluations of teaching quality, and found that the two anti-correlated. On average, good teachers get bad ratings, bad teachers get good ratings.

As avaliações que já vi sofrem de todo tipo de problema e um deles é que não se olha para o futuro, apenas para o passado. Então, o estudo citado por Friedman já ganhou minha atenção e boa vontade.

Além disso, há aspectos que são importantes para gerar viés nas respostas. O primeiro deles, comum em alunos pelo mundo todo:

The most obvious one is that many students don’t like to work hard. A professor who does not assign much homework or reading and grades easily might get better ratings, from many although not all students, than one with the opposite pattern. My daughter, as a student at Oberlin, was struck by the fact that most of the other students in a class were happy when, for some reason, it didn’t meet. The same pattern—study seen as a cost, not a benefit—might well apply here.

Em segundo lugar, a dificuldade de se lidar com idéias difíceis de serem apre(e)ndidas:

There is a second and less obvious possible reason. Correct ideas are frequently hard. Easy ideas are frequently wrong. My standard example is from popular discussions of foreign trade issues. Most of them take for granted a view of the economics of trade, the view implicit in terms such as “unfavorable balance of trade,” that  economists refer to as the theory of absolute advantage. That particular view of the subject has been obsolete for about two hundred years. But while the theory of absolute advantage does not make sense if you think about it carefully, it is considerably easier to understand than the theory of comparative advantage, which does. That is why the former was worked out first and why it has had such a successful postmortem career.

David Friedman foi ao ponto: (a) falta de vontade estudar e (b) tópicos difíceis de serem entendidos combinam-se de forma a gerar uma tendência em jogar a culpa em terceiros (sociedades mais emporiofóbicas, acredito, possuem esta característica, pois reputam o sucesso individual muito mais às conexões com terceiros ou sorte do que com o esforço próprio, mas isto é uma hipótese para discutirmos outro dia).

E no Brasil? Qual a visão do brasileiro acerca do comércio exterior?

Nossa Receita Federal, eu sei, acha que o comércio exterior é uma imensa desculpa para tributarem qualquer importação. Agora, o que o brasileiro pensa? Será que a resposta será similar à dos norte-americanos?

Alguém conhece uma pesquisa similar? Este bando de políticos que fazem campanha e que dizem representar os brasileiros têm alguma pesquisa a respeito? Eu gostaria de saber. Jovens brasileiros parecem insistir em uma noção de comércio que eu diria, até, esquizofrênica. Mais ou menos assim: o brasileiro adora consumir mais produtos, mas sofre de um certo chavismo infantil – talvez fruto de uma doutrinação tímida misturada à falta de informação – no qual ele percebe qualquer produto estrangeiro como uma ameaça.

Em resumo: um IPAD é ótimo, mas um IPAD é uma ameaça (maligna) contra nossa nação.

Epílogo: “nação”, cara-pálida?

Aliás, o que é mesmo uma nação? Vamos subverter um pouco o sujeito que está em sua zona de conforto.

Consider two nations, each claiming the same piece of territory. Each may try to gain its ends by force, threats, or offers of payment or exchange. It seems reasonable to suppose that the outcome will be efficient, that the territory will end in the control of the nation willing to pay the higher price. The alternative conjecture would be that the stronger nation will usually be the winner, since it can, if necessary, annihilate the other. Under circumstances of total war, this is doubtless true. But in a world of many nations, the winner of a war of annihilation, although better off than the loser, may be seriously disadvantaged with regard to all other nations. The use of such tactics is then unprofitable and the threat of them implausible. So it seems reasonable to suppose that what determines the winner is not the total resources possessed by each nation but the resources each nation is willing to spend to gain its end and that this will correspond roughly to the value of the end. 

Territory may be of value to a nation for many reasons of strategy, sentiment, politics, or economics. We will assume that the reason of chief importance for the phenomena we wish to explore is economic. More specifically, we assume that the value to a nation of any territory is the increase in tax collections made possible by control of that territory, net of collection costs. 

Sensacional, não? Neste artigo de 1977, David Friedman faz a pergunta que nem sempre ocorre às pessoas: não seria uma nação aquilo que foi conquistado por alguém, com fins de maximização de riqueza? Assim, não é uma nação aquilo que se caracteriza por uma “cultura”, “língua”, “povo”. Na verdade, o que prevaleceu na conquista foi alguma “cultura(s)”, “língua(s)” ou “povo(s)”. Acha estranho? Então me explica a diversidade cultural, linguística e de populações da China comunista.

Mercados funcionam

David Friedman – que já está no Brasil, salvo engano – concede uma curta entrevista para o ZH. Ao mesmo tempo, Fred Foldvary tem um ponto interessante: mercados não falham nunca.

Para criticar os autores, claro, tem que ler antes, né? Portanto, cuidado com os comentários. Particularmente, ainda estou com Friedman.

Tipos de liberais

Só para lembrar, nos EUA, “liberal” é sinônimo de “social-democrata”. Já “conservative” é algo como “conservador” mesmo. Logo, os liberais americanos se chamam de “libertarians”. Bem, vamos ao caso. Tyler Cowen criou uma taxionomia sobre os libertários dos EUA:

1. Cato-influenced (for lack of a better word).  There is an orthodox reading of what “being libertarian” means, defined by the troika of free markets, non-interventionism, and civil liberties.  It is based on individual rights but does not insist on anarchism.  A ruling principle is that libertarians should not endorse state interventions.  I read Palmer’s book as belonging to this tradition, broadly speaking.

2. Rothbardian anarchism.  Free-market protection agencies will replace government-as-we-know-it.  War is evil and the problems of anarchy pale in comparison.  David Friedman offered a more utilitarian-sounding version of this approach, shorn of Misesian influence.

3. Mises Institute nationalism.  Gold standard, a priori reasoning, monetary apocalypse, and suspicious of immigration because maybe private landowners would not have let those people into their living rooms.

4. Jeff Friedman and Critical Review: Everything is up for grabs, let’s be consequentialists and focus on the welfare state because that’s where the action is.  Marx is dead.  The case for some version of libertarianism ultimately rests upon voter ignorance and, dare I say it, voter irrationality.

5. “Hayek libertarianism.”  All or most of the great libertarian thinkers are ultimately compatible with each other and we have a big tent of all sorts of classical liberal ideas.  Hayek and Friedman are the chosen “public faces” of this approach.  “There’s a classical liberal tradition and classical liberal values and we can be fuzzy on a lot of other things.”

Acho que fico entre 1 e 5 tendo simpatia pela abordagem de David Friedman que eu não classificaria como Rothbardiana já que o fundamento não-austríaco de Friedman costuma ser rejeitado por boa parte dos seguidores de Rothbard.

Como toda taxionomia, esta é sujeita a críticas, mas eu gostei. Gostaria, na verdade, era ver uma classificação liberal para o Brasil. Aposto que quase não existem tendências.