Vestibular ideológico

É de arrepiar: depois falam glórias e maravilhas das universidades públicas brasileiras. Ok, vá lá que tenha gente boa nelas. Mas uma prova com questões como estas?

E me vêm certos blogueiros dizer que a ameaça é o liberal embaixo da mesa, da cama e da pia? Menos “wishful thinking”…

Lamentável que o vestibular, agora, seja instrumento de ataques pessoais. Ou você tem uma boa explicação para esta questão?

22. Aponte os exemplos de homens éticos com visão
filosófica engajada (para além da hipocrisia):
A) Bush, Olavo de Carvalho, Editora Abril, Inocêncio
de Oliveira e Roberto Marinho.
B) Dalai Lama, Gandhi, Marina da Silva, Frei Beto e
Dom Helder.
C) FHC, Marco Maciel, ACM, Ratinho e Reginaldo
Rossi.
D) Leonardo Boff, Irmã Dulce, Ariano Suassuna,
Betinho e Zilda Arns.
E) Dalai Lama, Gandhi, ACM, Frei Beto e Leonardo
Boff,

Se isto não é um baita trote (e não é), e se a tal “direita” é tão perigosa, então eu devo ter perdido algo.

Imagine, agora, uma prova que chame Bevilacqua (ex-Copom) de “gordo” ou que certo político vire “ladrão”. Não é assim que se avalia o conhecimento do ensino médio. Se é assim, acabem logo com o “provão” e tragam logo os neo-lysenkos (= bolivarianos).

Claudio
p.s. a prova de economia que vi, pelo menos, é séria.
p.s. este comentário no blog do Reinaldo está genial:

Gustavo disse…

Não deixem de olhar as outras provas. A questão 6 da prova de História, por exemplo, traz a seguinte afirmação como parte de seu enunciando: “Ao longo dos séculos, historiadores escrevem sobre o passado. [...]“. Eu particularmente gostaria de conhecer um historiador que escrevesse sobre o futuro. Até hoje, parecia-me que esta área estava reservada aos escritores de ficção científica, às cartomantes, adivinhos e afins.

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Ainda a prostituição

Com saudades da Ginger Lynn? Procurando fotos da Sylvia Saint? Bem, você está no lugar errado. O debate citado pelo Pedro (e originalmente colocado neste blog, hoje, mais cedo) diz respeito à pornografia, mas no bom sentido (ou em um dos seus bons sentidos, não sei bem).

Sim, eu já pensei neste tema, mas não sou o primeiro a falar disto.

Como o Pedro falou, o interessante foi que quase todos (exceto uma aluna) participaram do debate. Não vejo efervescência (devo ter errado a grafia…) intelectual assim há séculos. Claro, sobre prostituição, pornografia e tudo o mais, não tem como não escapar. Teve até gente pensando em elasticidade-cruzada (“professor, você acha que a legalização da prostituição teria impactos sobre a demanda de michês e travestis?”).

O notável na Ciência Econômica encontra-se no fato de ser uma ciência criada para se entender o comportamento humano (Mises), seja ele o do mundo dos negócios (Marshall), o dos políticos (Buchanan) ou mesmo dos envolvidos em conflitos violentos (Hirshleifer). E olha que isto é só a ponta do “iceberg”.

Um dia encontrei este iceberg e meu Titanic afundou. Hoje, por bem ou por mal, eu bebo, como, vivo e sofro Economia. Você não precisa chegar a este ponto, leitor. Mas se for aluno de Economia, tem que, além de ser estudante (não só aluno), mostrar um pouco mais de tesão (opa!) pelo que estuda.

A elasticidade-tesão da vida é maior que um (“Tesão faz bem pacas”) e a correlação entre horas de imersão em Economia e Tesão é positiva (aproximadamente 0.98789).

Claudio

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Afinidades não-eletivas

Lembro-me de meu orientador de graduação até hoje. Trabalhei com ele porque era um cara ocupado, que não tinha tempo, e que sempre me ajudava nas horas críticas. Foi também um dos que me incentivaram a fazer mestrado fora do estado.

No mestrado e no doutorado, o orientador foi outro (e com um ótimo co-orientador no doutorado). Mesma coisa: sujeito sempre ocupado, sempre esperando pelo que eu iria entregar. A falta de tempo, neste caso, pode ser algo irritante.

Mas uma coisa em comum eu tive com todos eles, por sorte ou não: afinidades em alguns temas. Se você não tem afinidade com uma pessoa que vai te orientar, porque continuar? Claro, há alguns que pagam o preço porque querem “o orientador”. Algo como: “odeio fulano, mas ele pode me abrir portas”. Não é um relacionamento sincero, é falso e, como todo relacionamento falso, há um risco de você ser descoberto. Alguns correm o risco.

Se não há afinidade, a vida fica bem difícil. A escassez de orientadores é sempre uma desculpa, mas é muito fácil chorar sobre o leite derramado. A competência, neste caso, consiste em não derramar o leite antes, sabendo que ele pode se espalhar pelo chão (você, por assim dizer, antecipa os resultados possíveis).

A afinidade vai além da questão intelectual. Tem gente que, por excesso de egocentrismo, acredita que correções do material entregue são fruto de alguma “perseguição” por parte do professor. Em Economia isto é menos freqüente porque o (bom) aluno aprende rápido a analisar a realidade de forma positiva, não normativa.

Orientar significa indicar o roteiro para que o orientando caminhe, com ou sem pedras e outros obstáculos. Quem tira o tesouro da caverna é o Indiana Jones, não o cara que lhe deu o mapa, certo? Pois o mesmo se aplica à orientação.

É bom sempre ter em mente que o orientador e o orientando iniciam a relação sob forte assimetria informacional (exceto em cursos que têm menos alunos). O orientando deve sinalizar que é competente, ou seja, mostrar que é capaz, como diriam “Fucker & Sucker”, de “mexer este traseiro gordo e tirá-lo da cadeira”. Sem esforço, não há como orientar mais do que uma bússola.

Quem constrói o caminho é o orientando, não o orientador. Saber viver esta relação não é para qualquer um mas, sim, todo mundo aprende. Pelo menos é o que se espera de um indivíduo racional.

Claudio

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“Prefiro ser atriz pornô do que prostituta de rua”. Ok, faz sentido.

Outro dia, segundo me informam alguns dos alunos, numa destas aulas de história econômica, houve uma discussão sobre prostituição e família. Acho que era algo de sabor weberiano. Após ouvir alguns relatos sobre a vida das prostitutas, uma aluna disparou: “entre viver como prostituta na rua ou ser atriz pornô, prefiro a última opção”.

Ok, o pessoal riu um bocado – eu também, quando fui informado do cômico fato – e é bom lembrar que sorrir faz bem a não sei quantos músculos faciais, embora haja aí uma falta de estimativas sobre o custo e o benefício de sorrir. Mas a aluna tem um ponto. Wendy McElroy, em seu XXX – A Woman’s Right To Pornography, após entrevistar várias atrizes pornôs, conclui que a vida delas não é tão ruim assim, nem associada a ilegalidades da forma como alguns pintam (sempre me lembro dos políticos brasileiros, tão puritanos e, ao mesmo tempo, clientes de cafetinas: quem é o ilegal desta história?). Por outro lado, em seu livro sobre bordéis no estado de Nevada, o estado com o menor índice de HIV nos EUA, Alexa Albert mostra evidências de que a legalização da prostituição nem sempre é algo que piora o bem-estar das prostitutas, para não falar do bem-estar social. Eu não terminei de ler este pequeno e-book que comprei em 2002, mas ainda volto a ele um dia destes.

Então temos três formas de ganhar dinheiro: (a) atriz pornô, (b) prostituta em bordel e (c) prostituta na rua.

Há que se comparar os custos de oportunidade entre estes três casos. Ca/Cpb, Ca/Cpr, Cpb/Cpr. O que a aluna disse, creio, foi: Cpr/Cpb > Ca/Cpb. Mas e quanto ao bordel?

Comentários?

Claudio
p.s. Às vezes a gente se diverte neste trabalho. Mas só às vezes.

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O Exterminador do Futuro vem aí

The world’s first computers whose architecture can adopt different forms depending on their application have been developed by Raytheon.

Dubbed MONARCH (Morphable Networked Micro-Architecture) and developed to address the large data volume of sensor systems as well as their signal and data processing throughput requirements, it is the most adaptable processor ever built for the Department of Defense, reducing the number of processor types required. It performs as a single system on a chip, resulting in a significant reduction of the number of processors required for computing systems, and it performs in an array of chips for teraflop throughput.

Já sei. Alguém vai dizer: tá vendo, o bom é investir em armas nucleares e tal porque isto gera externalidades positivas.

Errado.

Você tem que calcular não apenas o valor das externalidades positivas, mas todos os custos e benefícios associados com a opção militarista. O custo social de uma militarização da sociedade, por exemplo, implica exatamente em que? Ou, para os mais teimosos, a pergunta poderia ser: “quantos mortos em combate valem um computador novo”? A diferença entre pontos-de-vista, neste caso, fica até simples. O outro lado pergunta: “quantos computadores novos deixamos de ter porque temos muitos vivos”?

Ninguém disse que era simples, não é? Agora, cadê os cálculos de custo-benefício desta patota entusiasta de coisas como o “submarino nuclear” ou proposições similares? Economistas pterodoxos não se preocupam com isto: escolhem uma ou duas externalidades, ignoram centenas de outras e, pronto, tá feito um “lobby” de má qualidade, mas adequado a um consumidor pouco versado no tema.

Ah sim, “economista pterodoxo” é um termo que criei. Ele designa todos os auto-denominados economistas que negam o fato de que não existe almoço grátis e, ao mesmo tempo, preferem dizer que seus discursos são menos viesados do que resultados econométricos distintos cotejados sobre critérios estatísticos claros e amplamente divulgados, conhecidos.

Claudio

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Coréia do Norte e os “Zainichi”

O que acontece em um país quando: (a) há discriminação contra uma parcela pequena de sua população por critérios raciais (Zainichis são os coreanos nascidos no Japão), (b) o governo prefere ficar livre deles por emigração do que por um incentivo à menor discriminação e, (c) um presidente cheio dos ideiais bolivarianos e seus propagandistas mentem para os discriminados atraindo-os para um verdadeiro inferno?

Acontece isto. Em duas partes, por enquanto. Legendado.

O mais notável é a confissão do ex-militante do movimento Soren sobre a ignorância quanto ao que divulgava entusiasticamente para os que iriam para o inferno norte-coreano.

Claudio

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Consumidor, como sempre, é igual a corno: se acaso for informado de algo, será o último a saber (e olhe lá)

Depois de admitir que o caos no setor aéreo poderá retornar a qualquer momento, o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, foi impedido de falar. Na segunda-feira, durante reunião emergencial convocada para discutir a crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que apenas o ministro da Defesa, Waldir Pires, poderia dar declarações à imprensa sobre a crise. Pires não fala. Com a permanência à frente do ministério mais incerta a cada atraso de vôo, o ministro tem evitado a imprensa nos últimos dias. Se refugia em seu gabinete, onde recebe personagens da crise, e sai pela garagem para evitar as perguntas.

Ontem, o presidente da Infraero chegou a convocar uma entrevista coletiva para divulgar as ações que estão sendo tomadas para evitar que os painéis do Aeroporto de Brasília voltem a falhar, como aconteceu no domingo e na segunda-feira. Queria divulgar a inspeção feita pelo pessoal do Ministério de Minas e Energia, que deverá dar parecer amanhã sobre a situação elétrica do aeroporto.

Para não contrariar a ordem do presidente Lula, o brigadeiro Pereira pediu ao ministro que o acompanhasse na entrevista. Pires não quis e Pereira cancelou a entrevista.

Não é a primeira vez que Pereira é impedido de falar durante uma crise. Responsável apenas por administrar aeroportos, o brigadeiro foi impedido pela ministra da Casa Civil Dilma Rousseff de dar pitaco na crise do setor no ano passado, quando controladores de vôo fizeram greve para pressionar o governo por melhores salários e pela desmilitarização do setor.

Claudio

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Heim?

- Os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool, porque têm políticas sérias – disse o presidente.

Nada contra os usineiros, mas o critério de “heroísmo” daquele que pronuncia esta frase é bem estranho. Se um narcotraficante das FARC tem uma burra cheia de dinheiro por causa de seu comércio com drogas e “políticas sérias” (segundo que critério não sei, mas o trecho acima não é diferente), ele também é herói?

Não entendi.

Claudio

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